Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 046 | Ano 5 | Out 2000
NEI LISBOA

Ainda é tempo de ver Salgado

Quem ainda não viu, corra e veja o trabalho de Sebastião Salgado, Êxodos, em exposição na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, antes que ele parta para Paris, Nova Iorque e o resto do mundo que ainda não mereceu essa honra.

Procurei na Internet uma alternativa, porque receio que essa convocação chegue tarde demais, e dando como certo que haveria um site da exposição. O único que achei é hospedado pela Kodak e até serve como consolo, desde que você consiga digitar o endereço – www.kodak.fr/cluster/global/en/professional/features/legendsV3Q5/menu.shtml – sem arrumar uma tendinite.

Da fotografia de Sebastião Salgado, já se sabia que era fantástica, e a miséria humana não é bem uma novidade, exceto para o mundo dos colunáveis, como, aliás, gostam de ressaltar alguns apressados críticos do Sebastião. Mas mesmo que o trabalho se resumisse a uma denúncia bem fotografada do abandono e da exploração do homem pelo homem, assim, do tipo barba, boina e estrelinha, não estaria mais do que contrapondo um pouco de realidade à uma época obsessivamente virtual e hedonista. Virtualidade pra valer é o futuro de alguns países da África onde a Aids campeia entre mínimas condições de higiene, saúde e prevenção, com índices de soropositivos de até cinqüenta por cento da população.

O que mais impressiona em Êxodos é a magnitude de tudo que ali está posto, desde o tamanho da exposição em si, da grandeza com que os textos que a acompanham – e por si só já valem a visita – tratam a questão, até a tragicidade das estatísticas, da progressão em poucos décadas do número de migrantes, refugiados e reassentados em todos as partes do mundo. Ao mesmo tempo, cercar-se daquelas imagens faz com que, por exemplo, o um milhão de rundais massacrados na guerra entre as etnias de Ruanda perca essa dimensão puramente estatística para tornar-se o que realmente é, mil vezes mil vezes um ser humano, o cadáver preto em preto e branco boiando no rio a nossa frente.

É difícil conter, ao longo de centenas de fotos, um certo mal-estar e a impressão de que o horror não está na África subequatorial ou nos Balcãs, do outro lado do mundo, mas sim marchando através de Cachoeirinha e prestes a cercar o seu condomínio. O que não é bem uma impressão, mas uma promessa escrita em cada descaso com a questão dos sem-terra, no inchaço caótico da periferia de centros urbanos como São Paulo e principalmente na observação de que a ordem e o rumo com que as coisas estão postas hoje no mundo só fazem acelerar essa marcha.

No último bloco da mostra, instalado na Usina em um espaço de corredores bem estreitos e contíguos, o visitante é convidado – e, no caso, intimado – a conhecer a infância desse universo em migração, retratos de crianças de todas as raças, saudáveis na imensa maioria, lindas criaturas como sempre o são, mas com um indefectível olhar de quem já vivenciou coisas que a nossa vã imaginação não gostaria de saber. Tempos atrás, algum barbudo se saiu com aquela máxima “vinde a mim as criancinhas”. A julgar pelo olhar dos pequenos em Êxodos, ninguém mais precisa se preocupar em fazer esse convite.

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