Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 050 | Ano 6|Abr 2001
ENTREVISTA | IVAN ANTÔNIO ISQUIERDO

O Brasil não existe

Da redação

Radicado no Brasil há 28 anos, o médico argentino Ivan Antônio Izquierdo desenvolve um trabalho de pesquisa relacionado ao mecanismo de memória no Instituto de Bioquímica da Ufrgs. Atualmente com 53 anos, pretende lançar este ano, um livro, ainda sem título, que foge ao tema central de sua pesquisa e trata da qualidade de vida. “Antigamente tínhamos pouco tempo de vida. O avanço científico nos permitiu viver mais tempo e em melhores condições. Vamos aproveitar este tempo fazendo uma coisa de cada vez”, diz a respeito da obra em preparação. Ivan Izquierdo já foi entrevistado pelo Extra Classe em junho de 1997. Passados quase quatro anos, voltamos a conversar com ele para verificar os avanços de suas pesquisas nesse período.

Extra Classe – O senhor desenvolve uma pesquisa na área da memória por vários anos. A gente gostaria de saber alguns resultados desse trabalho.
Ivan Izquierdo – Eu trabalho sobre o mecanismo da memória há mais de 35 anos. Até agora, ao longo desses anos descobrimos as seguintes coisas: primeiro, não só nós mas outros grupos também, que áreas (do cérebro) estão envolvidas na formação de memória e, mais recentemente, vimos que áreas estão envolvidas na evocação de memória, no recordar, e que áreas estão envolvidas na perda de memória, na perda ativa, uma coisa que se denomina extinção, no esquecimento ativo.

EC – Extinção?
Izquierdo – Sim, extinção. O cérebro trabalha para perder a memória, faz um esforço metabólico neste sentido. É o que estamos estudando agora. É um mecanismo de deleção que, na verdade, foi descoberto há mais de 80 anos por Pavlov, na Rússia. Mesmo conhecido ao longo dos anos, por algum motivo deixou de ser estudado nos últimos 20 anos. Mas agora conseguimos determinar que a extinção, este apagamento ativo da memória, deriva da simples evocação da memória. No momento em que ela é evocada, ela começa a se perder. É uma coisa até filosófica. Como no momento em que a gente é concebido, começa a morrer, no momento em que a memória é evocada começa a se perder, semeia sua própria destruição. Outra coisa que estudamos é a divisão da memória em diferentes tipos. Ou seja, no momento em que a pessoa forma a memória, ela forma pelo menos dois tipos de memórias paralelas. Uma que dura de três a seis horas e outra que dura eventualmente dias, semanas, meses, anos. Essa última, a memória de longa duração leva várias horas para se construir. Enquanto isso está sendo construído, a memória de curta duração opera e mantém o animal capaz de funcionar, capaz de responder.

EC – Qual é a relação entre as reações emocionais e o armazenamento da memória?
Izquierdo – A relação vem pelo lado de que nas emoções e nos estados de ânimo, dependendo de qual forem, o organismo produz hormônio, o cérebro produz substâncias controladoras que fazem o papel de hormônios locais e atuam sobre os mecanismos bioquímicos da memória. Durante muitos anos se sabia que as emoções afetavam a memória. “Estou nervoso, não consigo me lembrar” ou então “estou demasiado feliz e não consigo aprender”, coisas desse tipo. E não se sabia como isso funcionava, agora sabemos que são substância definidas que atuam.

EC – Aconteceria a relação inversa, das memórias afetarem a parte física do ser humano?
Izquierdo – Sim, as emoções se desencadeiam por estímulo e os estímulos podem provir da própria memória. Se me lembro do enterro de um ente querido, por exemplo, isso me deixa triste. Pode causar alterações cardiovasculares, depressão. A depressão, na verdade, resulta quase sempre do fato de a gente começar a lembrar só coisas ruins.

EC – Quais são as causas mais freqüentes do esquecimento, da falta de memória?
Izquierdo – A causa básica é a extinção. Por exemplo, nenhum de nós se lembra de tudo o que aprendeu na vida porque não poderíamos funcionar se assim fosse. Tem um conto de Borges, muito famoso, que se chama Funes, O Memorioso. Funes é um personagem que lembrava absolutamente tudo. Tudo. Podia, por exemplo, lembrar de todos os detalhes de um dia inteiro de sua vida, mas para fazer isso precisaria de um outro dia inteiro. Então ele não podia funcionar. Precisamos esquecer coisas para poder encaixar mais coisas e poder correlacionar umas com as outras.

EC – Existe uma capacidade, então?
Izquierdo– Existe uma capacidade. Os sistemas são saturáveis e depois precisamos tê-los livres para podermos usá-los. É como um trem. Num trem cheio tem de descer passageiros em alguma estação senão não podem subir outros.

EC – O que determinaria o supérfluo ou o que deve ser extinto? A gente passa 24 horas armazenando dados.
Izquierdo – Se fosse só o supérfluo que a gente perdesse, a vida seria mais fácil. Mas não é não. Às vezes a gente perde coisas importantes. Daí a necessidade de repetir a mesma coisa.

EC – E quais são as razões para algumas pessoas perderem memória?
Izquierdo – Muitas vezes é por não prestar devida atenção nem no momento de fazer a memória nem no momento de evocar a memória. As pessoas costumam fazer isso de uma maneira superficial e aí, claro, não gravam bem, sequer lembram bem.

EC – O senhor falou na necessidade de um tempo para formar a memória. Qual é esse tempo?
Izquierdo – Pelo que nós vimos e outros pesquisadores também, seria entre três e seis horas. Não menos que isso para formar uma memória de longa duração, uma memória, por exemplo, como a de minha infância, que são 50 anos ou mais. Agora, dessas memórias de longa duração perdemos a maioria. Existe um mecanismo natural de esquecimento que opera constantemente e estamos lutando contra ele o tempo todo se queremos lembrar coisas. Se não aprendemos bem, não lembramos.

EC – A revista IstoÉ fez uma reportagem sobre exercícios do cérebro para manter a memória na qual o senhor foi uma das fontes.
Izquierdo – Como fazer a memória funcionar bem. É um caso característico em que a função faz o órgão. É uma função que quanto mais se usa, melhor funciona. É como treino atlético. A melhor maneira de se exercitar a memória é fazendo memórias e lembrando-as. E a melhor fonte de memórias é a leitura. A leitura é fantástica na medida em que estimula muitos tipos de memórias ao mesmo tempo. A memória visual, a partir do uso dos olhos para ler, a memória verbal ao nos depararmos com palavras que há muito não vemos. Depois cada palavra evoca coisas.

EC – Quais são os problemas neurológicos que mais freqüentemente afetam a memória?
Izquierdo – Em termos de doenças, existe uma que não se sabe exatamente se acompanha de lesões neurológicas ou não, provavelmente não, que é a depressão. É uma doença séria, que pode levar à morte geralmente por suicídio ou por desinteresse pela vida, que é uma forma de suicídio. A depressão é uma doença de incidência alta, 6 a 7% de toda a população. Por exemplo, nesse momento, aqui nesse laboratório temos 25 pessoas e é bem provável que duas delas estejam deprimidas num nível digno de tratar, de fazer psicoterapia, tratar com remédios. A depressão é a doença que mais comumente causa perda de memória e alterações de memória, inclusive a perda qualificada. O deprimido tende a se lembrar só do ruim. Por efeito farmacológico, digamos, há a perda de memória causada pelo alcoolismo, pelo uso de cocaína, de morfina. A cocaína faz lembrar muito até certa dose e a partir de certa dose faz esquecer de forma brutal. O indivíduo literalmente não sabe onde está. A morfina é um dos agentes mais usados para produzir amnésia clinicamente. Se usa como pré-operatório para que o indivíduo não lembre a operação. Ainda em termos de lesões, a doença mais comum que produz alterações na memória é a doença de Alzheimer. É uma doença que consiste em lesões que aparecem primeiro no lobo temporal, que é uma área seriamente envolvida na formação da memória.

EC – Têm crescido os casos dessa doença. Ao menos a gente tem tido mais informação sobre a incidência do Alzheimer.
Izquierdo – É uma doença que antigamente as pessoas chamavam de esclerose. Esclerose é uma doença que não existe. A artero-esclerose pode causar alterações vasculares no cérebro e isto pode causar lesões. Mas não é, nem de longe, tão freqüente quanto se pensava. E a doença que causa este esquecimento grande é a doença de Alzheimer. É uma doença que se manifesta principalmente a partir dos 65 ou mais anos. A incidência nas pessoas de 60, 65 anos, é menos de um por cento. Por volta dos 80 anos é cerca de 20%. Isso quer dizer duas coisas: uma pessoa de 85 anos não necessariamente tem problemas de memória. Fica mais lenta para a memória como fica para tudo, mas quatro em cinco são normais. Um desses cinco tem a doença de Alzheimer. Ou seja, Alzheimer e velhice não são sinônimos. Assim como sarampo e infância não são sinônimos. Então Alzheimer é uma doença que apresenta maior número de casos porque há mais velhos no mundo, as pessoas vivem mais. Atingem a idade em que se manifesta a doença de Alzheimer.

EC – O portador dessa doença tende a não lembrar coisas do dia-a-dia, mas lembra coisas do passado remoto.
Izquierdo – Geralmente é mais difícil lembrar coisas próximas, para a pessoa de idade, por um motivo às vezes até proposital. Para qualquer pessoa que atingiu certa idade, o que aconteceu meia hora atrás ou ontem, não tem maior importância porque já aconteceu muitas vezes. O velho tende a não prestar atenção às coisas mais recentes e nega-lhes importância. Em parte porque não tem mesmo tanta importância e em parte isso se aprende com a experiência. Poucas coisas são realmente dignas de lembrar e o velho vai aprendendo isso ao longo da vida. Então tem uma tendência a não prestar muita atenção a detalhes. Agora, as coisas de antigamente representam para o velho épocas invariavelmente mais felizes.

EC – Como o senhor avalia a memória do povo brasileiro?
Izquierdo – Muito fraca. Ninguém se lembra em quem votou para deputado nas últimas eleições.

EC – Por que isso?
Izquierdo – É um país que cultua a não-memória, um país que faz um culto do instante, do momento. O passado não interessa para o povo brasileiro. É um país estranho. Mas o passado é exatamente o que nós somos. O Brasil é Brasil porque tem um passado que o qualifica como tal, senão o Brasil seria qualquer coisa. Mas há um culto, uma cultura que se criou de que o passado não serve, não vale nada. Eu acho que é muito bom viver o presente. Há que se agarrar com unhas e dentes ao presente porque é o que nós temos. O passado já passou e o futuro só Deus sabe. Mas não só o presente, o presente em função de um passado e em função de um futuro. Nós não podemos prever o futuro se não lembrarmos do passado, se não sabemos em que deu uma desvalorização (monetária), por exemplo. Aqui tanto faz, ninguém se lembra quando foi a última desvalorização e foi tão importante essa data. Arruinou e enriqueceu tanta gente, estamos falando de milhões de pessoas. Você sabe que 30% dos brasileiros não sabe o nome do presidente da nação? E a maioria votou nele na última eleição.

EC – A questão das datas: muita gente na escola diz que não gosta de ficar decorando-as. Mas elas são marcos históricos.
Izquierdo – As datas não são tão pouco importantes porque se correlacionam com a história mundial. Por exemplo, o que acontecia em 1806? Se queremos entender algo do Brasil moderno, entendamos o que acontecia em 1806 quando Napoleão dominava na Europa e a Inglaterra começou a avançar pelo mundo para ampliar seu império, invadiu o que hoje é a Argentina. Isso tudo estimulou a vinda da casa real portuguesa ao Rio de Janeiro para instalar Portugal no Brasil. Então datas não são tão triviais. Quantos anos houve de governo militar? Isso marcou profundamente a todos, nos marcou como país e pessoas foram tão marcadas que morreram. Quantos anos durou isso? É bom lembrar ainda que mais não seja, para não repeti-lo.

EC – Mas parece um período esquecido hoje. Pouca gente comenta, há uma espécie de amnésia social. O que leva o brasileiro a isso?
Izquierdo – O fato de ser um pouco acostumado e educado a não prestar atenção em nada, a trivializar tudo. Tudo é trivial no Brasil hoje em dia. O sexo é trivial, a História é trivial, a educação é trivial, o trânsito é trivial. “Vou tentar ultrapassar esse carro. Se não mato, me mato.” Se mato a oito no percurso de minha loucura, tanto faz. “Ah, me salvei, que bom. Não vou mais pensar nisso.” Se vive assim. Vive-se o presente, um presente fugaz e creio que isso está destruindo o Brasil. Ou seja, a identidade do Brasil como país. Eu vim para o Brasil há 28 anos e me chamava a atenção, como a qualquer outro que tenha vindo naquela época, a tremenda personalidade do Brasil. Claro que tinha parecenças com outros países da América Latina ou Europa, mas era um país característicos. Hoje em dia o Brasil perdeu sua personalidade. É um país que se dissolve, não há uma entidade que possamos chamar realmente Brasil. Talvez existam muitos Brasis, mas isso já não é bom. O Brasil dos ricos é diferente do Brasil da classe média alta que é diferente da classe média baixa que é diferente do Brasil dos remediados que é diferente do Brasil dos pobres que comem e que é diferente do Brasil dos pobres que não comem, não vão ao médico, do Brasil dos marginais. Inclusive as línguas são diferentes. A língua que fala o Brasil marginal é uma língua que já se parece pouco com o português.

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