Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 055| Ano 6| Set 2001
CULTURA

A biblioteca do mundo

Jéferson Assunção

biblioLivros em russo, japonês, árabe, inglês, francês e javanês. Livros em mongol, em guarani, em banto e espanhol. De todos os cantos do mundo, vindos aos milhares (de 15 mil a 80 mil, segundo os mais otimistas), para a construção, em Porto Alegre, de algo fora do comum: uma biblioteca mundial, um mosaico do saber. A partir de janeiro de 2002 essa poderá ser uma bela realidade, e mais uma atração turística de Porto Alegre. Impossível não remeter à famosa Biblioteca de Alexandria como paralelo no passado.

 

Se todos colaborarem, Porto Alegre deverá ter, a partir de 2002, uma Biblioteca Social Mundial. A idéia está sendo lançada pela Prefeitura de Porto Alegre e uma agência de comunicação. A idéia é disponibilizar um imenso acervo do conhecimento humano, com atenção especial para os quatro eixos do Fórum Social Mundial: A Produção de Riquezas (o trabalho, o comércio, o sistema financeiro e a terra), A Distribuição da Riqueza e a Sustentabilidade (a ciência e a técnica, o ambiente e os bens comuns, a exclusão e as pobrezas e as cidades), Os Espaços da Sociedade (os espaços públicos, os direitos, a informação e a cultura) e O Poder Político (o poder, as instituições globalitárias, o império e as nações e os conflitos armados).

Para sua realização, todos os participantes do Fórum Social Mundial 2002 estão convidados a trazer pelo menos um livro. O local de recolhimento do material ainda não está definido, mas deverá fazer parte da estrutura central do Fórum de Porto Alegre 2002. Estantes vazias, instaladas pela Prefeitura de Porto Alegre, estarão esperando os códices. O site http://www.portoalegre2002.net também está desencadeando uma campanha mundial de arrecadação de livros, tanto junto aos intelectuais que virão ao Fórum (que poderão deixar obras autografadas em sessões de coletivas), quanto junto aos delegados. Eles estão sendo convidados a trazer um exemplar, ou mais, do que melhor representa a cultura de seu país, cidade, etnia etc. Há também uma outra forma de participar. Quem não puder estar em Porto Alegre, mas quiser enviar seus livros (editoras, escritores ou leitores do mundo todo) poderá mandá-los por Correio para a Coordenação do Livro e Literatura, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre.

O projeto propõe que, após o Fórum Social Mundial, se ocupe espaço adequado para a instalação da Biblioteca Social Mundial, que poderá ser visitada por qualquer cidadão do mundo. Neste espaço construído pela amizade e solidariedade, a lei será a da soberania do humano sobre a selvageria do capital, da pluralidade sobre a padronização cultural e da cidadania global sobre as fronteiras fechadas. Uma forma bastante diferente de se construir algo. Por isso, a biblioteca deverá ser um local em que o saber e a solidariedade serão os dois maiores valores correntes.

Uma nova Alexandria

A idéia seria associar diversos símbolos: a cultura, as lutas sociais, o livro, o porto, uma nova Alexandria. Claro: os navios que passavam por aquele porto do Egito, pelos séculos II ou I a.C, ficavam bem mais tempo ancorados no cais do que quando circulavam por outras cidades do Mediterrâneo. Era para que os copistas da Biblioteca de Alexandria reproduzissem os livros que a tripulação trazia. Por isso, a expectativa é de que Porto Alegre, no ano 2002 veja nascer uma espécie de nova Alexandria. Menor, é claro, mas cheia de simbologia.

Copistas da biblioteca egípcia reproduziam livros que eram disseminados por navios

 

 

 

No 1º Fórum chegaram as pedras. Elas vieram de várias partes do planeta para simbolizar o alicerce deste novo mundo possível. No segundo, são os livros. Mas por que livros? Se os países ricos lêem, de 15 a 25 livros per capita/ano, nos pobres, esses índices ficam em vergonhosos um e dois (a maioria, didático, obrigatório). Presas do monopólio das grandes redes de comunicação, essas populações perecem, vivendo em um ambiente inóspito ao livro. O Brasil é um exemplo típico. País com 170 milhões de habitantes tem apenas duas mil livrarias em todo o seu imenso território, a mesma quantidade existente em uma única cidade européia: Paris. Assim, o livro é uma moeda de valor inestimável para povos de países pobres e a leitura, via de inclusão social.

Esses números demonstram que as populações pobres, sob o jugo das grandes redes de tevês, rádios e jornais, estão alienadas do saber. Em lugar dele, no imaginário dos habitantes deste lado do Planeta vivem soberanos a televisão e os grandes jornais, cuja pauta diária é manter as elites no poder. Dois mil anos depois de Alexandria, este outro porto, alegre, vibrante, assume a responsabilidade de abrigar a parte mais bonita que o espírito humano construiu até hoje: o conhecimento.

ANOTE
Quem pode participar?
Todo mundo, com todos os livros. A preferência é para publicações originais, que não estejam amplamente disponíveis no mercado. Podem ser publicações acadêmicas, de pequenas editoras e independentes, livros de literatura e ciências sociais e humanas.
Quando participar?
A campanha para formar a biblioteca terá duas etapas. A primeira acontece entre os dias 24 e 27 de outubro, junto aos participantes do Fórum Mundial de Educação, organizado pela Secretaria Municipal de Educação, de Porto Alegre.

Como enviar livros?
Pessoalmente, no Fórum Mundial de Educação e no Fórum Social Mundial ou pelo Correio, para a Coordenação do Livro e Literatura da Prefeitura de Porto Alegre (avenida Erico Verissimo, 307 – Porto Alegre – CEP 90160-181).

“Todos se lembrarão do que aconteceu em 2002”

Entrevista Mauro Gaglietti, coordenador do Livro e da Literatura da Prefeitura de Porto Alegre

EC – Qual sua expectativa em relação à realização da Biblioteca Social Mundial?
Mauro Gaglietti – A Biblioteca é uma idéia que virá para ficar. Nos próximos 50 anos todos saberão que no ano 2002, no sul do continente americano, houve um encontro de seres humanos preocupados com a vida, a cultura e com aquilo que chamamos de civilização. As pessoas vão se encantar com a idéia de depositar um livro em uma biblioteca que servirá de memória plural do Fórum Social Mundial, evento esse, que, de certa forma, será um dos maiores acontecimentos do mundo. É incrível imaginar milhares de pessoas chegando em Porto Alegre carregando o livro e deixando-os num local. Essa poderá ser uma imagem – que as câmeras do mundo inteiro poderão registrar – que ficará nas mentes e no coração dos seres humanos. Todas as pessoas estarão ligadas a uma rede em torno do símbolo do conhecimento universal que é o livro e, sabedoras que são, imaginarão pessoas contando histórias, daqui a anos, sobre o surgimento da biblioteca, do Fórum, de Porto Alegre. Imagino um artista plástico e bibliotecárias organizando plasticamente um amplo conjunto de livros. Poderia ser uma grande instalação de livros de literatura, educação e ciências humanas que poderia ser filmada, fotografada, cantada, dançada e, sobretudo, abraçada.

EC – Quantos livros estão sendo esperados pelo pessoal da organização da Biblioteca?
Gaglietti – Tudo depende das inúmeras formas de criar imagens e a comunicação. Esperamos algo em torno de 15 e 80 mil livros. Acredito que a Veraz e entidades como o Sinpro poderão, até certo ponto, criar uma rede mundial de informação e entusiasmo em torno da qual as pessoas criarão uma identidade planetária. A principal referência, no que diz respeito à previsão do número de livros, deve-se, sobretudo, à existência de uma idéia sedutora que criará uma ponte e um lastro entre dois eventos. O primeiro passo será dado no Fórum Mundial da Educação que acontecerá entre 24 e 27 de outubro em Porto Alegre. E o segundo degrau será dado no Fórum Social Mundial. Os professores do ensino fundamental, médio, graduação e pós-graduação, ao meu modo de ver, serão o público mais suscetível e sensível a um gesto de natureza criativa como o que está sendo proposto.

EC – Que lugares estão sendo pensados para abrigar o Mosaico do Saber?
Gaglietti – Estamos caminhando e, ao mesmo tempo, aprendendo formas novas de se caminhar articulando trabalhos não fragmentados entre todos os sujeitos políticos/culturais de Porto Alegre. A Prefeitura Municipal de Porto Alegre, através da Secretaria Municipal da Cultura e da Secretaria Municipal da Educação, está estudando várias alternativas junto aos setores ligados às bibliotecas do Rio Grande do Sul e Cursos de nossas universidades (arquitetura, arquivologia, comunicação, letras, história e outros…). Muita gente tem boas idéias e, em relação a isso, o que faz a diferença, tem sido, o “saber fazer”. Uma idéia como a que está sendo pensada sobre a Biblioteca Social Mundial não tem dono. O importante de tudo isso é a participação intensa da Prefeitura de Porto Alegre, do Governo do Estado, da Ufrgs, da Pucrs, Ritter dos Reis, Fapa, entidades da sociedade civil e empresas privadas que possam constituir um Condomínio que servirá o público interessado em ter acesso aos livros. E, é claro, o GT de Cultura do Fórum Social Mundial e os organizadores do Fórum Mundial de Educação participarão intensamente da criação das formas que busquem o atendimento das necessidades culturais de Porto Alegre, que estão em crescimento. Esse prédio poderia abrigar, além da Biblioteca Social Mundial, se for conveniente para todas as partes, um espaço para o Memorial do Fórum Social Mundial, a Casa da Leitura, e tudo o que se refere à promoção do gosto à leitura. Nesse caso, então, teremos um espaço conceitual que, na verdade, será um pólo de atração de contadores de história, de leitores, de escritores, de curiosos e de pessoas que querem jogar o tempo fora. Isso pode ser incrível…

EC – Fale um pouco sobre o trabalho de preparação desse Mosaico do Saber. Como começou e que passos ainda faltam ser dados?
Gaglietti – Essa é uma boa história que queremos contar no dia 1º de fevereiro, a partir das 14h, no Auditório Araújo Vianna. Durante o FSM serão organizadas sssões de contação de causos, de histórias e, também, de contos. Na primeira tarde, nesse local, será contada a história do surgimento da primeira edição do FSM e, na segunda tarde, contaremos, entre outras histórias, como é que surgiu a idéia da Biblioteca Social Mundial.

Jornada de Literatura se supera

Nesta edição da Jornada Nacional de Literatura, a Universidade de Passo Fundo (UPF) contou com uma grande estrutura – mais de 300 mil metros quadrados – para abrigar a 9ª Jornada Nacional de Literatura e a 1ª Jornadinha – esta voltada para as crianças e adolescentes. O investimento total foi de R$ 3,8 milhões, o evento foi um dos maiores de sua história.

Na programação teve de tudo: palestras como A literatura como construção e expressão da identidade dos povos, com os autores Antonio Skármeta e Zilá Bernd; e A formação do leitor do futuro: para o livro ou para o e-book, com os palestrantes Mário Prata e Patrícia Melo. Na versão infanto-juvenil, o evento ofereceu conversas com os escritores. Entre eles, estavam Ziraldo, Ruth Rocha, Carlos Urbim e Mário Pirata.

Nos eventos paralelos, a Jornada e a Jornadinha contaram com a Exposição da Prensa Gutemberg; Mostra de Filmes da IECINE; espetáculo teatral “Longada”, com poesias de Mário Quintana; microespetáculos de histórias com bonecos; e oficina de quadrinhos, com Eloar Guazzeli Filho.

O campus da UPF abrigou o Circo da Cultura, que reuniu 115 escritores e mais de 10 mil pessoas, entre elas seis mil crianças que participaram da Jornadinha Nacional de Literatura. O local também recebeu um espaço de dois mil metros quadrados para a feira do livro, sessões de autógrafos e estandes dos patrocinadores.

O Sinpro/RS esteve presente neste evento literário, editando diariamente o jornal Extra Classe e o Extrinha (versão infanto-juvenil).

A integrante da Comissão Executiva da Jornada, Lurdes Canelles, destaca o tamanho do evento: “É uma grandiosidade o espaço que abrigou as pessoas. Só o custo da Jornada, com suas oito lonas e sua programação foi de R$ 1,8 milhão”. Lurdes completa que os outros R$ 2 milhões foram gastos com a infra-estrutura do centro de eventos (terraplenagem, asfaltamento das ruas, estacionamento e iluminação).

Pré-Jornada envolveu mais de 60 mil
A 9ª Jornada Nacional de Literatura e a 1ª Jornadinha foram antecedidas por evento que não deixou nada a desejar em termos de grandiosidade e público. A Pré-Jornada e Jornadinha reuniram – direta e indiretamente – mais de 60 mil pessoas em torno da literatura.

Distribuídas nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso, essas pessoas formaram grupos para estudar e discutir as obras dos autores convidados para a Jornada. Destes debates, resultaram atas que foram entregues para a Comissão Organizadora do evento.

A coordenadora da Pré-Jornada, Dalva Machado Bisognin, resume que este foi um dos maiores eventos em torno da literatura. “A gente se emocionava ao ver a mobilização do pessoal e pensava: ‘Meu Deus, isto tudo está acontecendo!!’”, desabafa Dalva.

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