Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 058 | Ano 6 | Dez 2001
NEI LISBOA

Publicidade talibã

Ouvi no rádio há pouco e achei sensacional: a milícia Talibã oferece cinqüenta milhões de dólares pela captura do presidente norte-americano George W. Bush. Cinqüenta milhões de dólares, exatamente o dobro do valor oferecido pelo governo dos EUA para a captura de Bin Laden. Não é genial? De um golpe só, estão nos dizendo, primeiro, que dinheiro não é problema por lá. Segundo, que na visão deles o bandido é outro, cara-pálida. E terceiro, que este também pode e deve ser capturado. Mas como, capturar o Bush?! Entrar na Casa Branca e sair de lá com o texano debaixo do braço? Fugir de táxi, quem sabe, até o aeroporto de Washington, e pedir pra atendente da American Airlines, “por favor, dois bilhetes, para mim e o amigo amordaçado aqui, só de ida até Cabul”. Pois é. Exatamente o que há de patético na idéia, a perplexidade que gera, é o que a justifica como arma verbal que cumpre seu objetivo por si só. Vale mais que um discurso, porque aqui nem sequer se discute, não se disserta sobre a tese do Grande Satã, já está implicitamente posta e decidida a questão de quem é o vilão maior, inclusive duas vezes mais caro que o seu concorrente. Também não se apresenta como ameaça concreta, realizável, que para tanto seria mais fácil sugerir o assassinato do presidente dos EUA, não a sua captura. O que parece interessar, aqui, é que o pensamento ocidental se defronte justamente com o exótico absurdo, o impensável, o incompreensível, ainda que rindo e duvidando, mas já fisgado por uma lógica interna do inimigo, já sutilmente levado a olhar o mundo com seus olhos, da entrada de uma caverna perdida nos confins do Afeganistão. Jogada de marketing, sem dúvida, inteligente e bem-humorada, muito eficiente também, e não é a primeira do gênero que produz o departamento lá dos publicitários talibãs.

Ou então, mais simplesmente, estarão apenas reafirmando que captura, nessa guerra, de qualquer lado que se olhe, é um eufemismo para assassinatos em massa.

Escuto também que o risco-país dos vizinhos bateu novo recorde, e que o ministro Cavallo declarou estar a Argentina à beira do abismo. Péssimo lugar para se ficar ao lado de um tordilho angustiado, se me permitem. Não entendo, se é que alguém entende, desse economês que não encontra saída outra além de reendividar um país para restituir credibilidade perante os mesmos credores, e dependendo deles para avalizar o sucesso da operação, donde o agiota será feliz eternamente, aumentando as tabelinhas do risco e dos juros e do tamanho do abismo até que a Patagônia bote um ovo. Pelo amor de Deus, ou de Alá, o que for mais rápido, salvem a Argentina.

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