Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 076 | Ano 8 | Set 2003
ELISA LUCINDA

Ciranda

Não conheço o amor abstrato. Conheço o amor pelo outro, pela pátria e pelo futuro, pela vida, pela obra. Defender a dignidade do homem é, no mínimo, uma conexão ideológica, uma composição ecológica, uma convicção. Não entendo a humanidade e civilização sem o homem como no princípio, como ator e objeto, como sujeito e razão. Tocar harpa do tempo a muitos dedos. Vencer o mito da impotência (há muitos medos). Sei que não se pode mudar os começos: os meninos escravos, as meninas prostitutas, as famílias exploradas nos campos e nas cidades. As formas diversas de ditadura que golpearam seguidas vezes. O estômago do pensamento livre dos meus pais, a produção da miséria é desigualdade em todo canto, e em toda hora …ora, não se pode mudar o começo. A História não dá ré, é natural. Mas se pode mudar o final. Por isso, gosto de agir no meio. Por meio disso, encontro um meio genial de provocar mudanças nesses destinos, oferecendo meios ao meu igual. Ser um ser multiplica, o vento sopra as sementes e a chuva realiza sua bênção, será o trigo a ação da gente, será a mesa farta de pão, será o eterno milharal! Penso em você, na capacidade que se tem de ler se eu ensinar. Na vocação que se tem de transformar, se eu informar. Que os mares da generosidade jamais desabasteçam meus caminhos. Que sejam sustentáveis os desenvolvimentos não esporádicos, não bambos, não endividados, não ilusões ocas desse tempo. Filantropia para mim não é exibição. Nem é um negócio para Deus me dar em dobro depois. Tampouco dar feijão com arroz. Falo de instrumentar o plantador, viabilizar-lhe a enxada do seu sujeito, a bússola do seu trajeto, o trator infinitamente potente para que seja sempre a sua lavoura, sei que na ponta do fato está a arma, no berço está o medo. Aí eu quero atuar – antes do desespero, imobilizando-o, inviabilizando-o, retirando-lhe o cenário, a probabilidade. Ao invés de cobrar do Estado a única paternidade, é ele o meu parceiro porque meu recurso privado, em algum momento o seu ser, no percurso do seu estado, já foi publicado alguma vez. Tu és público e ao público tornarás! Vivo sobre esta clara ética tenho comigo múltiplas personalidades todas elas querem dar a mão à ciranda da História responsável dessa vida que chamamos de sociedade, cidadania. O amor é a nossa unidade e a nossa alegria. Vou me apresentar: não sou herói, não sou rei tampouco não sou a metade e não sou um só sou um permanente congresso de mãos, cheio de diversas forças e de boas vontades. Que mania que tem todos de achar, há muitos anos, que o mundo está terminando! Pois pra mim, todos os dias, em cada ação de um dos meus muitos seres, o mundo está apenas começando!

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS