Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 093 | Ano 10 | Jul 2005
ESPECIAL

Respostas que estão no vento

Gilson Camargo

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Artes de Claudete Sieber sobre fotos divulgação da Sec. Minas, Energia e Comunicação

Artes de Claudete Sieber sobre fotos divulgação da Sec. Minas, Energia e Comunicação

A substituição gradativa da geração de energia das usinas termoelétricas e hidrelétricas por fontes renováveis e de baixo impacto ambiental, como os parques eólicos, vai transformar a paisagem e o mercado energético do Rio Grande do Sul até o final desta década. Pelo menos 30 projetos de parques de geração desse tipo de energia estão em estudo ou em implantação no Estado. Desses, quinze receberam licença prévia e oito já obtiveram licenças de instalação pelos órgãos ambientais. Impulsionada por contratos de compra firmados com o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia (Proinfa), do Ministério de Minas e Energia, a geração de eletricidade a partir da força dos ventos terá o seu primeiro parque concluído em Osório até dezembro deste ano. O custo de instalação dos aerogeradores torna a energia eólica um negócio inviável do ponto de vista comercial no curto prazo, e a capacidade de produção dos cinco projetos prioritários não deverá gerar mais do que 10% de toda a energia que é consumida no Estado. Mas essas são preocupações que os investidores preferem deixar para o futuro, já que os projetos recebem incentivos como a garantia de preços e compra assegurada da energia gerada pelo prazo de 20 anos.

Mais alta que a chaminé da usina do Gasômetro, que tem 104 metros acima do chão (vide simulação), e equipada com pás que totalizam 70 metros de diâmetro, a torre eólica chega a 107 metros e exige uma fundação de até 30 metros para sua fixação. Quando os primeiros projetos estiverem implantados, esses equipamentos semelhantes em tamanho a um boeing, terão alterado completamente a paisagem do Estado, do Litoral às Missões.

O impacto ambiental, argumentam os defensores da energia eólica – de empreendedores e analistas do mercado ener-gético a ecologistas –, é insignificante se comparado com o estrago feito pelas inundações e des-matamentos necessários para a implantação de uma usina hidrelétrica, a chuva ácida pro-vocada pelo carvão ou o potencial de risco de uma usina nuclear.

Até o problema das rotas migratórias de aves, que poderiam se chocar com as hélices, foi minimizado com a redução da velocidade de rotação das pás e por um estudo do comportamento das espécies que determina o traçado das torres fora dos hábitats das espécies mais comuns no Estado.

Rota de colisão

O Plano de Monitoramento de Fauna instituído pela Fepam deverá ser aplicado pelas próprias empresas de geração de energia renovável. Ao expedir a Licença de Instalação, a Fepam condiciona que o empreendedor faça o monitoramento durante um ano antes do início da operação e também depois do parque instalado.

“Para os parques eólicos, os potenciais impactos à fauna podem ser facilmente evitados pela escolha certa do local para sua implantação. O afastamento de apenas alguns quilômetros de distância de ambientes importantes para as espécies ameaçadas e de rotas de aves e morcegos migratórios pode ser suficiente para evitar impactos”, ressalta a bióloga Mônica Brick Peres, que coordenou a elaboração do plano.

Outro estudo, coordenado pelo geógrafo Roberto Verdum, avalia o impacto das torres na paisagem. “Elaboramos uma metodologia de avaliação de percepção dos indicadores da paisagem a partir de entrevistas com os moradores das regiões onde serão instalados os projetos. O objetivo é estabelecer em conjunto com os moradores quais são os elementos que definem a identidade de cada localidade para que eles sejam preservados na implantação dos aerogeradores”, explica Verdum.

Energia conceitual

Para o engenheiro especia-lizado em energias alternativas, Paulo Milano, da Siclo Con-sultoria, a operação de um parque eólico no Estado representa a abertura do mercado para soluções alternativas na geração de energia. “Em termos de custo e potência gerada, a energia eólica é pouco significativa e também não representa uma solução diante do elevado custo da energia elétrica, que tende a subir cada vez mais, nem à escassez de energia. Mas representa um dos caminhos mais prováveis na busca de alternativas de energia limpa. Grande parte dos equipamentos dos parques eólicos é de produção nacional e nosso mercado vai aprender com isso e desenvolver novas tecnologias”, projeta Milano.

“O litoral gaúcho tem o maior potencial eólico do país e é supe-rior ao europeu”, acrescenta o engenheiro mecânico Alexandre Vagtinski de Paula, integrante da equipe de pesquisas de energias renováveis e limpas coordenada pelo engenheiro Jorge Alea, do Núcleo Tecnológico de Energia e Meio Ambiente (Nutema) da PUCRS. “A energia eólica deve ser estudada como a alternativa mais viável e compensadora devido ao baixo custo ambiental”, opina Vag-tinski.

Negócio lucrativo

A pesquisa e o desenvolvimento de fontes alternativas de energia conta com subsídios e incentivos do governo federal. Em alguns casos, como o da energia eólica ou de biomassa, a venda da produção é extra-leilão, quer dizer, o empreendedor não fica sujeito às oscilações do mercado, pois tem a compra e o preço assegurados por contratos prévios com a Eletrobrás.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O Proinfra destinou 1,4 mil MW para viabilizar a energia eólica no país. A cota foi inicialmente fixada em 1,1 mil MW, mas aumentou com a sobra de 300 MW da cota de energia de biomassa. De acordo com o secretário estadual de Energia, Minas e Comunicações, Valdir Andres, o Rio Grande do Sul tem no Proinfa direito a 227,5 MW de produção de energia eólica numa primeira fase. Os projetos aprovados totalizam 330 milhões de dólares. Segundo Andres, o Proinfa deverá pagar cerca de R$ 202,00 por megawatt/hora (MWh).
O primeiro sítio eólico, com 25 aerogeradores, deverá estar em condições de operar comercialmente em maio de 2006. O segundo estará pronto em agosto e o último até dezembro de 2006, completando o complexo de Osório. O total de investimentos nos cinco projetos prioritários de geração eólica e oito pequenas centrais hidrelétricas no Proinfa deve chegar a R$ 1 bilhão, com a geração de 2,5 mil empregos diretos. Serão gerados 405 MW de potência, cerca de 10% da demanda total do Estado.

“O Ministério de Minas e Energia incentiva o desenvolvimento de projetos de fontes alternativas de energia direcionados à diversificação da matriz energética brasileira por meio de iniciativas como o Proinfa. Essas iniciativas são um importante mecanismo de incentivo para o desenvolvimento de novas tecnologias para a geração de energia, entre as quais estão incluídas as fontes eólicas”, enfatiza o ministro interino de Minas e Energia, Maurício Tolmasquim.

De acordo com o calendário divulgado pelo Ministério, um dos primeiros cinco parques a ser instalado no Estado será o de Giruá, município de 18 mil habitantes localizado na região das Missões. A mais de um ano do início das obras de fundação dos aeroge-radores pela empresa Ecoprojeto, o parque de geração independente de 11 mil kW já é visto como uma alternativa de geração de renda com a atração de turistas e valorização de propriedades rurais. O traçado das torres atravessa parte da propriedade de 312 hectares do agropecuarista Ivan Haas, que já vislumbra suas 240 cabeças de gado leiteiro e de corte pastando sob os cata-ventos.

“Nosso município não tem indústrias, não arrecada ICMS e os agricultores vivem uma situação de penúria com a seca. A construção do parque eólico, que já está com a licença de instalação aprovada pela Fepam, representa uma fonte de receitas para o município. Além de gerar energia de baixo custo, o empreendimento vai atrair indústrias e transformar a zona rural em atração turística. Os proprietários das terras onde serão instalados os aerogeradores serão remunerados e podem seguir produzindo trigo, soja e pastagens para o gado”, argumenta Haas.

Roteiro dos cata-ventos

O terceiro maior parque eólico do mundo, projetado para ser o modelo dessa tecnologia no país, está em construção nas proximidades da Lagoa dos Barros, em Osório. Deverá começar a o

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Foto: Divulgação UFP

Foto: Divulgação UFP

perar em dezembro do ano que vem, com 75 aerogeradores que irão jogar 150 megawatts (MW) no sistema elétrico. O investimento totaliza R$ 662 milhões.

 

A Enerfín do Brasil, controlada pelo grupo espanhol Elecnor, detém 91% do empreendimento, com participação minoritária da Wobben Wind-power, subsidiária do grupo alemão Enercon. As duas empresas se associaram à Intercom e criaram a Ventos do Sul Energia, que fará a operação da usina de Osório. O parque terá três sítios, cada um com 25 aerogeradores. Cada equipamento tem capacidade para produzir 2 MW e vida útil média de 20 anos, prazo em que expira o contrato com o Proinfa. A energia gerada será comprada pela Eletrobrás.

“No Rio Grande do Sul, há infra-estrutura e uma enorme capacidade empreendedora do mercado local”, avalia o presidente da Enerfín no Brasil, Telmo Borba Magadan, ao ressaltar que todos os insumos para a implantação do parque serão produzidos no Estado. “Será uma energia complementar com produção durante 35% do ano.” Ao relacionar as vantagens da energia eólica, como o ganho ambiental e a possibilidade de venda da energia sem entrar no leilão da Eletrobrás, além de prazo para amortização dos investimentos, Magadan também ressalta o potencial turístico do empreendimento. Segundo ele, empresários e a prefeitura de Torres já pensam em implantar um programa para incentivar a visitação de turistas à região onde estarão os aerogera-dores. “Em breve, o litoral gaúcho poderá ter a Rota dos Cata-ventos, uma atração turística proporcionada pela geração de energia eólica”, projeta o empresário.
Turbinas de segunda mão

A Alemanha está entrando numa nova era da energia eólica. Os empresários pioneiros do ramo ainda continuam na ativa, mas a primeira geração de turbinas já virou sucata. A tecnologia evoluiu tanto que os atuais equipamentos têm potência 30 vezes superior às turbinas de duas décadas. Como são cada vez mais raras as áreas livres para instalação de novos cata-ventos, a saída é modernizar os parques eólicos existentes. A troca das velhas máquinas por novas começa a gerar um mercado de turbinas usadas que estão sendo exportadas para o terceiro mundo. O novo mercado nasceu em 2003 na Alemanha, quando as primeiras turbinas eólicas usadas foram colocadas à venda no site www.windmesse.de. “Das primeiras ofertas feitas ali de modo informal, surgiu uma praça de mercado onde hoje as turbinas usadas são vendidas profissionalmente, com indicação de todos os dados técnicos e inclusive fotografias que mostram o estado das máquinas”, declarou ao site www.dw-world.de a interme-diadora das negociações, Andréa Kröger. O presidente da Associação Alemã de Energia Eólica, Peter Ahmels, reconhece o potencial do novo mercado, mas adverte: “Se as turbinas usadas forem exportadas, é preciso também garantir um serviço de assistência técnica in loco. Alguns fabricantes já estabeleceram bases nos países de destino de seus produtos. Mas há também máquinas que não foram fabricadas em grande quantidade, cuja manutenção no exterior se torna complicada”. A Enercon, líder do mercado de energia eólica na Alemanha, considera as turbinas desligadas e amortizadas no país impróprias para a exportação porque as máquinas apresentam freqüentes sinais de desgaste.

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