Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 129 | Ano 13 | Nov 2008
ENTREVISTA | TARIQ MODOOD

O multiculturalismo vive

Por Grazieli Gotardo

Tariq Moodod

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Os ataques terroristas de 11 de setembro, nos Estados Unidos, as bombas no metrô de Madrid (2004) e em Londres (2005) desencadearam o debate mundial sobre a eficácia do multiculturalismo, termo que designa e, para seus teóricos, defende, a pluralidade cultural. Desde então, especialistas decretaram a morte do multiculturalismo e o início de uma fase de questionamentos sobre inclusão social e identidades nacionais. Sobre esse tema delicado e, por vezes, contraditório que Tariq Modood, sociólogo paquistanês radicado na Inglaterra, falou em sua primeira visita ao Brasil, no evento Fronteiras do Pensamento. Para ele, os muçulmanos são os maiores prejudicados com tudo isso e a islamofobia é hoje a principal dificuldade étnica na Europa ocidental e nos EUA. Modood é professor da Universidade de Bristol, na Inglaterra e Diretor do Centro de Investigação para o Estudo da Etnicidade e da Cidadania da Universidade. É uma das principais autoridades em questões étnicas, teoria e política do racismo, multiculturalismo e secularismo, em especial sobre os muçulmanos britânicos asiáticos. O tema também é analisado em profundidade no seu último livro Multiculturalism: A Civic Idea (Polity, 2007) – ainda sem tradução para o português. Com exclusividade, ele recebeu o Extra Classe e apresentou um pouco de sua visão sobre como Estado, sociedade e Igreja podem ser peças-chave para uma nação igualitária em termos de raça, credo e ideologia.

Extra Classe – Qual a sua concepção de multiculturalismo e qual o discurso mais relevante atualmente?
Tariq Modood
– Multiculturalismo é uma forma de integração, em particular, dos imigrantes de segunda e terceira geração, visto que há diferentes formas de integração. Tradicionalmente, as nações não estão preparadas para assimilar o novo. A partir da década de 50 desenvolveu-se, especialmente em países como EUA, Canadá e Austrália, idéias sobre integração cultural. Essa foi uma das responsabilidades dos primeiros imigrantes. Meus avós tiveram de se adaptar e enfrentar a discriminação. A sociedade teve de recebê-los. O multiculturalismo cresceu com esta idéia. Então as pessoas perceberam que a integração é um processo de duas vias, não é algo individual, porque as pessoas pertencem a grupos. Nós temos que encontrar uma forma de adaptar as pessoas, respeitando as identidades desses grupos. Isso é multiculturalismo. Uma forma de igualdade entre os cidadãos, eliminando os estereótipos negativos e exaltando as identidades positivas.

EC – Qual a diferença entre integração e assimilação?
Modood
– Integração é um processo de duas vias que diz que a mudança e a adaptação devem acontecer nos dois lados. As instituições devem receber bem as pessoas, criar oportunidades para elas. A assimilação simplesmente diz para o imigrante: você tem que ser como nós. Esta é a principal diferença entre integração e assimilação.

Tariq Moodod

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

EC – Por que algumas pessoas dizem que o multiculturalismo morreu depois de acontecimentos como o 11 de setembro?

Modood – Na Europa ocidental, a maioria das pessoas diz que o multiculturalismo está morto. Eles dizem isso porque se acreditava que o multiculturalismo fosse um processo pacífico, e nós tivemos ataques terroristas como o 11 de setembro e as bombas em Londres e Madrid. Então as pessoas concluíram: isso foi feito em nome do multiculturalismo, portanto, ele é impossível, não é pacífico, está tentando matar a sociedade. Eu não acho que esses ataques terroristas significam a falha do multiculturalismo. Acho que eles são resultado principalmente de uma situação política que, em particular, frustrou a ideologia da jihad e de todos os muçulmanos da dominação e opressão, forçou o embate no Afeganistão contra os russos, com a ajuda dos norte-americanos e que, naquele comento, se virou contra os EUA, pois eles são vistos como os opressores das causas muçulmanas. Mas isso não tem a ver com multiculturalismo, o multiculturalismo pode ser a solução. Ele pode ser usado para adaptar os muçulmanos em qualquer lugar do mundo mostrando que você pode ser muçulmano, europeu, alemão, francês, que as essas coisas não estão em oposição e que o respeito civil pela identidade muçulmana é possível. Esse é o caminho. Nós precisamos remodelar a sociedade incluindo os muçulmanos. A idéia de que o multiculturalismo está mortoé um erro e pode nos trazer mais problemas. Nós podemos, é claro, analisar algumas idéias do multiculturalismo que são simpáticas e comuns ao que temos na sociedade, incluindo as identidades nacionais. O multiculturalismo mais apropriado hoje em dia é o multiculturalismo político, cívico, que respeita as identidades religiosas.

EC – Onde podemos encontrar atualmente exemplos de multiculturalismo?
Modood – Nenhum caso é perfeito ou estático, mas acho que o Canadá hoje é o melhor exemplo, pois reúne diferentes identidades sem conflitos. Na Grã-Bretanha nós estamos desenvolvendo um multiculturalismo apropriado para nossas circunstâncias, com algumas similaridades com o Canadá e algumas diferenças. A maior diferença é que nós estamos encontrando um lugar para grupos religiosos, especialmente os muçulmanos. Porque se nós pensarmos nos imigrantes, mais da metade dos que vêm para a Inglaterra são muçulmanos. Isso não acontece na América do Norte, Austrália, América do Sul, mas acontece na Europa ocidental. O multiculturalismo que precisamos deve ser receptivo aos muçulmanos, engajado com as esperanças, preocupações e com a fé dos muçulmanos. Mas é claro que isso também tem duas vias, proporcionando às pessoas direitos e oportunidades iguais, mas também respeito mútuo.

EC – O senhor acha que a religião é uma questão crucial para as questões do multiculturalismo?
Modood – Eu não sou contra ou a favor da religião. O multiculturalismo também não é contra, nem a favor, na minha opinião. O que nós precisamos são formas de inclusão multicultural apropriadas às nossas circunstâncias. A importância da religião na Europa ocidental é que alguns grupos dizem que a sua religião é muito importante para eles. E eles querem ser reconhecidos e identificados por isso. Pode ser que em outros lugares não seja dessa forma. Eu não diria que a religião é importante por ela mesma. Na Europa ocidental ela é fundamental e disso eu não tenho dúvida.

EC – Qual o papel da Educação no processo de integração das nações?
Modood – Na escola as crianças precisam aprender sobre os diferentes grupos na sociedade, saber a história desses grupos e como eles se reuniram. Às vezes, isso pode ser doloroso porque vai ser preciso falar de escravidão, colonialismos, conflitos. Mas nós precisamos saber essas histórias para ver que existem batalhas contra a desigualdade, racismo e tentativas de sair disso. É preciso ensinar a filosofia de como fugir disso. Também precisamos que as pessoas tenham maior conhecimento da sua e de outras histórias. O que significa que teríamos que estudar história inglesa, francesa, americana, entre outras. Precisamos aprender particularmente sobre a religião uns dos outros, conhecer as concepções, as crenças, os ritos, a visão de mundo.

EC – No Brasil nós temos um sistema de cotas nas universidades para negros e índios. Qual a sua opinião sobre isso?
Modood – Eu não conheço o modelo brasileiro, mas sou simpáticoà idéia de que é preciso dar oportunidades a todos. Sobre cotas, em específico, não tenho uma posição definida. Sou a favor de que alguns grupos pouco representados, como os negros e os índios são no Brasil, tenham trabalhos focados para eles. E se as notas acadêmicas deles não são tão boas quanto de outras pessoas, é preciso saber o porquê disso. Qual o problema das instituições que eles estudaram? De um modo geral, as minorias trabalham duro para entrar numa universidade, e eles ainda não estão presentes nas melhores instituições. Precisamos olhar para isso e fazer com que eles estejam em todos os tipos de instituição.

EC – O senhor diz que a inclusão não é possível em algumas formas limitadas de liberalismo. Ou seria o liberalismo que tem seus limites?
Modood – É claro que o liberalismo tem seus limites. E é por isso que a inclusão não é possível. O liberalismo não reconhece grupos, gêneros, cores, mas essa é uma particularidade extrema e mesmo os teóricos contemporâneos não justificaram isso. Os liberais não justificam o não-reconhecimento dos grupos na sociedade, nas políticas. Essa é uma limitação. Primeiro porque precisamos eliminar a discriminação, a falta de oportunidades, o racismo, e não podemos fazer isso fechando os olhos para estas coisas. Precisamos de políticas ativas. Multiculturalismo é unir as pessoas por identidades comuns, sem que elas precisem desistir de suas próprias identidades. E o liberalismo não é bom nisso.

EC – Qual deveria ser o principal ou principais atores do multiculturalismo: o Estado ou a sociedade?
Modood – O Estado tem um papel em termos de legislação, de políticas sociais, mas não pode ser a solução. Todas as instituições da sociedade como associações, sindicatos, universidades, escolas, a imprensa, todos têm um papel a desempenhar contra a discriminação e de apoio à inclusão, criando identidades nacionais, dando contribuições à sociedade. A imprensa, de modo especial, deve tem uma atitude responsável de unir as pessoas.

EC – E como o senhor vê o desempenho da imprensa atualmente?
Modood – Na Inglaterra a maior parte da imprensa é muito irresponsável. Em outros países talvez seja diferente. As TVs e as rádios são melhores em termos de responsabilidade social. Mas os jornais são muito sensacionalistas e prejudiciais. Nos EUA é o contrário, os jornais são mais responsáveis. Eu estou realmente farto de alguns jornais ingleses. Eles trabalham apenas com a emoção, brincando com os sentimentos, medos e preconceitos das pessoas. Eles precisam ter atitudes mais responsáveis. Quando há um problema eles o tratam de forma limitada, exagerando certos aspectos. E principalmente com os muçulmanos, que são separados em grupos, estereotipados e assim se sentem excluídos do discurso nacional.

EC – Qual a diferença entre secularismo ideológico e secularismo institucional?
Modood – Na Europa ocidental existe um compromisso institucional entre a Igreja e o Estado. As pessoas não são lideradas por papas ou bispos, mas sim por pessoas eleitas. Na maioria dos países foi encontrada uma forma de compromisso entre a demanda do secularismo e a inclusão das religiões. É isso que eu chamo de secularismo institucional. Isso é muito bom, pois não é estático, deve mudar para incluir as pessoas. Já o secularismo ideológico é uma visão oriunda da revolução francesa, que diz que a religião é o problema, porque é falsa, é superstição, mexe com a cabeça das pessoas. Então a religião deve ser banida do espaço político.

EC – O senhor diz que alguns grupos de pessoas são usados como modelo em alguns países. Hoje, quem seriam os gruposmodelo?
Modood – Eu diria que na Inglaterra e nos Estados Unidades, os chineses são um modelo por trabalharem duro, ter educação rígida, mobilidade e não causarem conflitos políticos onde estão. Isso tem a ver com mobilidade social. Acho que alguns negros e caribenhos são exemplos de sociabilidade, por sua música, sua dança, eles são muito populares. Tanto nos EUA como na Inglaterra muitos jovens admiram os negros pelo estilo. Existem aspectos que os chineses são modelo e em outros são os negros. E esses modelos não são necessariamente positivos. Infelizmente, no caso dos muçulmanos, nenhum aspecto positivo pode ser aplicado como um modelo atualmente.

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