Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 151 | Ano 17 | Mar 2011
SAÚDE
ESPECIAL

Doses de sorriso na receita

A prescrição do riso aos pacientes diminui em cerca de 20 por cento o tempo médio de internação e fortalece o sistema imunológico
Jacira Cabral da Silveira
O riso torna os momentos de espera menos tediosos para as crianças e auxilia na recuperação

Foto: Igor Sperotto

O riso torna os momentos de espera menos tediosos para as crianças e auxilia na recuperação

Foto: Igor Sperotto

Rir pode ser medicinal. Vai além de uma sugestão meramente otimista. É também uma recomendação médica. O garoto, Guilherme, que completou quatro anos em fevereiro deste ano, desde março de 2010 comparece periodicamente ao Hospital da Criança Santo Antônio, em Porto Alegre, para procedimentos e medicações, que podem levar a internações de alguns dias. Mas quando entram os caras de jaleco colorido no quarto a atenção do garoto volta-se para outra história como a do Sapo Curioso que queria saber para onde o sol vai quando se esconde. A mãe de Arthur, o bebê que dorme na cama ao lado, comenta: “Guilherme estava sério a manhã toda, foi vocês chegarem, pra ele reagir todo interessado”.

Ana Guardiola, neuropediatra do Hospital, explica que, quando a criança escuta uma história, ela começa a fazer uma série de operações mentais que resultam num melhor funcionamento do cérebro. Segundo a especialista, o cérebro compreende os centros do prazer, do castigo e o da raiva. Quando estimulados, esses centros desencadeiam reações de tristeza, de raiva, de fúria ou de alegria. Isso tudo a partir de substâncias químicas, chamadas neurotransmissores.

No caso do riso, o centro estimulado é o do prazer que leva a modificações prazenteiras em todo o organismo em decorrência da liberação da endorfina (um neurotransmissor). Por outro lado, crianças gravemente doentes experimentam sensações de tristeza, estimuladas pelo centro do castigo. É aqui que entram os contadores de história, defende a neuropediatra: “Esses momentos só estimulam coisas boas, e a criança se sente acolhida em sua tristeza”.

A importância de fazer rir um paciente, seja ele criança ou adulto, é tornar menos intensa a gravidade do problema de saúde que ele apresenta: “Eles se sentem abraçados”, reafirma, pois o diálogo entre os seres humanos não é apenas verbal, senão também de um diálogo tônico, aquele expresso através da prélinguagem afetiva das emoções, das posturas e das mímicas, também chamado comunicação afetiva. “Mesmo um bebê encubado sente os efeitos das palavras ditas com carinho, responde ao toque suave, ao clima de harmonia que tem a sua volta”, ilustra. E esse medicamento não tem contra-indicação para as demais idades, e são especialmente importantes para os enfermos mais graves, sejam eles crianças ou adultos. A sensação de conforto é uma das consequências de quando o centro cerebral do prazer é acionado através de ações que possam levar ao riso dos pacientes.

Márcia Rosa da Costa e Luciana Boose Pinheiro

Foto: Igor Sperotto

Márcia Rosa da Costa e Luciana Boose Pinheiro

Foto: Igor Sperotto

ANTITÉDIO – Enquanto espera o resultado de uma série de exames, Débora, nove anos, não se incomoda de ficar por mais um dia no hospital, achando tudo novidade. A mãe, Ana Raquel, entretanto, se preocupa quando a filha fica entediada, pois muitas vezes esse estado de espírito resulta em forte dor de cabeça e ela teme implicações no quadro da filha, que tem origem neurológica, mas até o momento não havia recebido diagnóstico conclusivo. Por isso, quando entram os contadores de história com peruca e voz encenada, Ana Raquel relaxa ao ver que Débora sorri para os visitantes engraçados. “Esses momentos em que ela fica mais descontraída fazem muito bem para ela”.

Um pouco maior que a filha, Ana tem o rosto jovem, cabelos longos e não tira os olhos da garota enquanto conversa com a reportagem do Extra Classe. Ela conta o susto que levou quando Débora caiu desacordada dentro da piscina e foi retirada por parentes, pois Ana e o esposo não estavam em casa naquela hora. Aos poucos a mãe também se deixa envolver com a história da Princesa que solta pum, contada por Jorge André, publicitário, e Luisa Santiago, massoterapeuta, ambos integrantes da ONG Viva e deixe viver, um dos grupos de contadores de história que atua no Hospital da Criança Santo Antônio. “Eu queria mesmo é não estar aqui, mas como a gente está, tudo que for bom pra minha filha, para mim está ótimo, quanto melhor ela estiver, melhor vou ficar também”.

Jorge André da ONG Viva e Deixe Viver

Foto: Igor Sperotto

Jorge André da ONG Viva e Deixe Viver

Foto: Igor Sperotto

Esse ambiente favorável à recuperação foi uma das conclusões de um grupo de pesquisadores norte-americanos. Para comprovar fisiologicamente que o riso faz bem à saúde, eles investigaram as modulações neuroimunológicas durante e depois de alguns pacientes terem sido submetidos a atividades associadas ao riso. Eles monitoraram experiências hilárias para entender o que acontece no corpo, no coração, na musculatura e no cérebro de uma pessoa que ri. Concluíram que o riso e o bom humor podem ter efeitos benéficos na saúde, e serem adotados como um tipo alternativo de terapia para melhorar o bem-estar dos pacientes e do ambiente hospitalar, assumindo o status de tratamento complementar àquele formal praticado pelos profissionais da saúde.

Ambiente que se caracteriza por corredores largos, odores farmacológicos, piso frio e a circulação de homens e mulheres de jalecos brancos com prontuários nas mãos. Segundo a professora de Literatura da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Luciana Boose Pinheiro, geralmente a imagem dessas pessoas vestidas de branco representa para a criança uma situação de sofrimento, pois são elas que entram em seu quarto e vão ministrando remédio, medindo a temperatura, furando aqui e ali, sem qualquer cerimônia.

Luisa Santiago, contadora de histórias, voluntária

Foto: Igor Sperotto

Luisa Santiago, contadora de histórias, voluntária

Foto: Igor Sperotto

Na tentativa de quebrar essa lógica, uma das estratégias do Projeto Contação de História em Ambiente Hospitalar do Núcleo de Humanidades da UFCSPA é fazer com que os estudantes permaneçam com seus jalecos brancos na atividade de contação de história, quando pedem permissão às crianças para entrarem em seus quartos e perguntam se podem ler um livro para elas: “O projeto visa à mudança de visão das pessoas com relação aos profissionais da saúde”, explica a professora. O fato de esses profissionais oferecerem e não ‘ministrarem histórias’ sem o consentimento dos pacientes, faz com que as crianças comecem a olhar diferente para eles, pois esses caras de jaleco branco não só espetam agulhas, mas também oferecem histórias.

Ambiente alegre é favorável à reabilitação

Foto: Igor Sperotto

Ambiente alegre é favorável à reabilitação

Foto: Igor Sperotto

Há dois anos realizando o projeto, Rosana afirma que não se preocuparam em contabilizar o número de crianças que visitaram nos hospitais Santo Antônio e Santa Clara: “Os resultados não são contáveis, mas vistos”, argumenta. Para ilustrar, recorda quando entraram no quarto de Juliana, uma menina de quatro anos de idade, hospitalizada há uma semana e que se recusava peremptoriamente a tomar banho, não adiantando o apelo da mãe, nem o das enfermeiras. Ao entrarem no quarto, a mãe vai logo dizendo, “ih, acho que não vai dar não, ela está tão sujinha!”.

Então Rosana aproveita e comenta que conhece a história de um sapo que, assim como ela, também não gosta de tomar banho. No final da contação, Juliana se vira e diz pra mãe: “quem sabe eu agora eu vou tomar banho?”, e os banhos continuam até o final da internação. “A literatura tem o poder de levar o sujeito para uma outra realidade, aquela representada pela narrativa e que faz com que o paciente volte para a sua realidade ressignificando essa narrativa e a sua própria vida”, explica a doutora O riso torna os momentos de espera menos tediosos para as crianças e auxilia na recuperação em Literatura.

especial

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Resgatando a alegria de viver

Os participantes do grupo têm em média 65 anos de idade. Eles moram nas vilas no entorno do Presídio Central de Porto Alegre e vêm ao Centro de Saúde Escola Murialdo para participar das reuniões coordenadas pela médica de família e comunidade Maria Eugênia Bressilin Pinto. Eles chegam para tratar de depressão, diabetes, pressão alta e todas as doenças crônicas possíveis, além da carga emocional de viverem problemas financeiros, famílias desagregadas, maridos omissos, violência na comunidade, assalto, grito na vizinhança, tiroteio etc. etc. Durante os encontros semanais eles resgatam a habilidade de rir da vida: “É a oportunidade de trazer o riso de volta para a vida deles”, pondera.

A contação de histórias já faz parte do cotidiano dos pacientes mirins

Foto: Igor Sperotto

A contação de histórias já faz parte do cotidiano dos pacientes mirins

Foto: Igor Sperotto

Conforme a epidemiologista, a literatura médica dá conta de que a maioria dos pacientes que consegue lidar de forma mais amena com sua própria doença, que busca fazer com que isso não seja o mote principal de suas vidas e procura manter atividades normais como ver tevê, conversar com amigos, ler, trabalhar, ‘apesar da doença’, “o prognóstico desses indivíduos é muito melhor em qualquer situação”, garante. Maria Eugênia conhece vários casos de pacientes com câncer em estágio avançado que conseguem viver mais tempo e com maior qualidade de vida porque se mantêm fazendo outras coisas além de se focar na enfermidade.

Para ilustrar, recorda o caso ocorrido há 15 anos, durante sua residência em Psiquiatria, quando recebeu uma paciente depressiva, que se recusava tomar medicação. Uma das técnicas utilizadas em circunstâncias como essa é o paciente tomar o medicamento na frente do médico ou enfermeiro. Como Maria Eugênia convivia com Renata (nome fictício) muitas horas por dia, coube a ela ministrar os remédios nos horários determinados. Nesse caso, entretanto, foi acrescentada uma medicação peculiar: Renata só seria liberada após tomar o remédio seguido de um sorriso. “A intenção era fazer com que voltasse a sorrir, porque isso já não fazia mais parte de sua vida, vivia carrancuda”. Depois de dois meses de ‘sorrisos forçados’, Renata já chegava rindo ao ambulatório: “É claro que também era efeito da medicação, mas o fato dela se dar conta de como estava levando a vida fez diferença, e rir voltou a fazer parte de sua vida”.

Com relação aos pacientes do grupo que Maria Eugênia coordenava, o resultado obtido comprova que a recuperação da saúde não se restringe a comprimidos ou frascos de remédios, e sim à capacidade de manter o bom humor. O pesquisador da Universidade de Loma Linda, na Califórnia, Lee Berk, fez um teste neste sentido. Ele reuniu 14 voluntários para assistir a um famoso programa humorístico da televisão americana, o Saturday Night Live. Os participantes tiveram seu nível de colesterol e pressão sanguínea medidos antes e depois de assistirem o programa. Esses níveis realmente caíram e a pressão sanguínea se regularizou, em uma proporção que, segundo os cálculos de Lee Berk, equivale a 20 minutos de trabalho pesado. Para comparar, ele fez o mesmo teste com os voluntários assistindo o filme Resgate do Soldado Ryan, extremamente sério, e não houve nenhuma melhora naqueles indicadores de saúde.

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