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Nº 157 | Ano 17 | Set 2011
IDEIAS

Baianos na Revolução Farroupilha

No período regencial, gaúchos e baianos se uniram contra a opressão da Corte portuguesa em duas guerras civis. Além dos ideais libertários, no entanto, a conexão entre a Sabinada e a Guerra dos Farrapos te
Por Euclides Torres*

Baianos na Revolução Farroupilha

Foto: Óleo sobre tela de José Wasth Rodrigues

Foto: Óleo sobre tela de José Wasth Rodrigues

Entre 1817 e 1850, o Brasil conviveu com longa crise política, com dezenas de rebeliões. Com tantos conflitos internos, é de admirar que o imenso território não tenha se fragmentado em repúblicas como aconteceu na América Espanhola, tendo perdido somente a província Cisplatina, atual Uruguai. As revoltas regionais, intrigas na Corte e constantes rebeliões escravas assustavam as autoridades portuguesas que farejavam nelas o gosto nativo por liberdade política, administrativa e comercial, ou seja, a luta pelo poder. Começavam as rebeliões e a repressão ganhava força. Havia temor de que ocorresse no Brasil uma interminável guerra civil como aconteceu no Haiti a partir de 1791, que dizimou a população branca e inviabilizou a produção de açúcar.

Motins, revoluções, rebeliões militares, levantes de escravos e violentas repressões transtornaram a vida dos brasileiros durante as décadas de 1820, 30 e 40. Até o príncipe ser declarado maior em 23 de julho de 1840, com apenas 14 anos de idade, o Brasil enfrentou turbulências de Norte a Sul. Dizia-se que o país estava à beira do abismo. Houve revolução para todos os gostos.

O ciclo inicia em 1817, em Pernambuco. Líderes separatistas e republicanos são fuzilados. A ideia reacende em Recife, na Confederação do Equador em 1824, cativando os vizinhos da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O governo imperial dominou a insurreição e executou os chefes. Os conflitos acirram-se, perduram e terminam onde começaram: em Pernambuco. Iniciada em 1848, a Revolução Praieira acaba em 1850 com a morte de dezenas de “praieiros”, apelido derivativo de Rua da Praia, em Recife, onde se localizava o jornal Diário Novo, ponto de encontro dos rebeldes.

Com um imperador menino de cinco anos e regentes governando do Rio de Janeiro um país com dimensão continentais em nome do príncipe D. Pedro II, as províncias rebelavam- se contra as autoridades da Corte, contra os portugueses que dominavam a política, contra injustiças e discriminações, mas, principalmente, reclamavam dos impostos.

Os farrapos se rebelavam contra a condição de “estalagem do Império”, “davam os primeiros tiros de canhão nas guerras de fronteira e levavam os últimos”. Queriam menos impostos. A tributação do charque sulino levava os compradores a procurá-lo no rio da Prata, onde era abundante e vendido pela metade do preço. Quando a Corte quis cobrar imposto pela prataria usada em estribos, esporas, freios e outras peças de montaria, a gauchada gritou e ninguém pagou. Em Pernambuco, os moradores de Recife reclamavam de uma taxa cobrada para custear a iluminação pública do Rio de Janeiro.

Teve revolução republicana com prazo de validade na Bahia, a Sabinada, que devia durar somente até D. Pedro II alcançar a maioridade. Outra queria o retorno da Monarquia, pretendendo a volta de D. Pedro I, de Portugal, a Cabanada, no Ceará, em 1831. Em 1835, no Pará e Amazônia, eclodiu a Cabanagem, que durou cinco anos e se notabilizou pelo extermínio que causou, principalmente de índios.

Mil cavalos para um general

Essas revoltas regionais pouco se relacionavam devido à vastidão do território e também porque defendiam interesses locais, havendo em comum o descontentamento popular. Somente a Bahia e o Rio Grande do Sul uniram-se em suas rebeldias, originando uma peculiar aliança que venceu distâncias e perdurou.

A Bahia e o Rio Grande do Sul ocupam posições especiais na família brasileira. Tudo no Brasil começou pela Bahia: o descobrimento, a fixação do homem branco entre índios, a administração portuguesa, bispado, faculdade de medicina, tudo. Quando começou a Revolução Farroupilha, Porto Alegre tinha 10 mil habitantes e Salvador 65 mil.

No período regencial, os dois estados-irmãos rebelaram-se com a política familiar monárquica imposta por Portugal: queriam ser independentes. Distantes entre si no território brasileiro, rio- -grandenses e baianos cultivaram ideias libertárias que os aproximou: queriam um Brasil republicano, livre do jugo da Corte portuguesa. Desprezaram a fatalidade geográfica e se uniram em duas guerras civis que fizeram o Império balançar: a Revolução Farroupilha e a Sabinada.

Ambos os estados cultivam identidades regionais vigorosas, com costumes e folclore próprios. Gaúchos e baianos são tão apegados à terra natal que muitos a tratam por “Pátria” e quando passam o riacho mais próximo de casa já sentem saudade e vontade de voltar. Quando foi declarada a Independência, as tropas portuguesas em Salvador não admitiram a separação. Muitos brasileiros fugiram da cidade e só retornaram em 2 de julho de 1823, dia em que 9 mil milicianos nacionalistas expulsaram os portugueses, maior data cívica do calendário baiano. Também no Rio Grande do Sul a grande comemoração popular não é o 7 de setembro de 1822, mas 20 de setembro de 1835, que marca o começo da Revolução Farroupilha.

No Sul, os farroupilhas lutaram contra o Império durante nove anos, cinco meses e dez dias. No Nordeste, os baianos rebelaram-se e a luta durou quatro meses e oito dias, mas o tributo em sangue e recursos foi imenso. Salvador teve 160 casas incendiadas, a maioria em 14 de março de 1837, dia em que os legalistas retomaram a cidade ocupada pelos rebeldes desde 7 de novembro. A revolução separatista baiana teve quase o mesmo número de vítimas da Revolução Farroupilha, em torno de 4 mil: mortos em combate, executados nas prisões, queimados vivos, deportados para Fernando de Noronha e exilados. A repressão visou eliminar líderes negros, executados depois de presos. O major comandante do Regimento Libertos da Pátria matou-se para não se entregar. Alguns prisioneiros foram atirados nas casas e sobrados em chamas.

O líder da Sabinada, médico Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, já devia três mortes à Justiça quando foi julgado como criminoso político e duas vezes condenado à morte. Passou temporadas em porões de navios-prisão, foi anistiado por D. Pedro II, em 1840, degredado para Goiás e, dali, expulso para Mato Grosso, onde terminou seus dias servindo como médico humanitário e incomodando adversários políticos. Professor de Fisiologia na Faculdade de Medicina de Salvador, foi acusado de assassinar um homem e provocar a morte da própria mulher, que o surpreendera na rede com um escravo, sendo absolvido de ambos os crimes. Depois, com um golpe de bisturi, eliminou um alferes que comentara suas preferências sexuais. Absolvido no primeiro júri, foi julgado outra vez e condenado a seis anos de cadeia, dos quais cumpriu um. Publicava jornais, era um dos homens mais cultos da Bahia e tinha uma biblioteca invejável.

Apesar de feroz perseguição, muitos rebeldes baianos conseguiram escapar e daí a meses já andavam no Rio Grande do Sul, amparados pelo braço, espada e poncho de Bento Gonçalves da Silva, recém-fugido do Forte do Mar. O general gaúcho chegara a Salvador no dia 26 de agosto de 1837 e fugira 15 dias depois com a ajuda dos “sabinos” e amigos maçons. Quer dizer, o preso político mais importante do Império fora transferido para uma província onde uma revolução separatista e republicana era anunciada pelos jornais. A fuga de Bento Gonçalves do Forte do Mar em Salvador impulsionou os “sabinos” à revolução, que começou em 7 de novembro de 1837. Iniciava aí uma ligação entre gaúchos e baianos que perdurou. Dezenas de republicanos derrotados na Bahia escaparam e aliaram-se aos farrapos. Outros, designados para o Sul, desertaram e também se aliaram aos farroupilhas.

A participação dos baianos na Revolução Farroupilha foi ampla, duradoura e importante. Pelo menos dois oficiais desempenharam funções relevantes no exército farroupilha. O ministro da Guerra da Sabinada assinou a Paz de Ponche Verde como oficial farroupilha. O coronel Francisco José da Rocha foi chefe de Polícia e comandante de regimento.

A “fuga” de Bento custou em dinheiro o suficiente para comprar mais de mil cavalos, mesmo com os valores inflacionados pela guerra, mas o general teve de pagar um preço muito mais alto quando chegou a hora de saldar essa dívida. O financiador da fuga na Bahia, Manoel Gomes Pereira, um dos organizadores da Sabinada, ourives e agiota, estava, em 1840, em Caçapava, e cobrou os 5 mil e tantos contos de réis emprestados. O ministro da Fazenda da República Rio-grandense, Domingos José de Almeida, não queria pagar. Bento precisou intervir. O agiota Gomes Pereira recebeu e foi para Montevidéu. Lá, delatou os rebeldes em troca de anistia, provocando polêmica no Estado Maior Farroupilha, onde servia como coronel.

*Jornalista e escritor, autor de Os baianos na Revolução Farroupilha, livro a ser lançado pela Já Editores, cujo conteúdo é abordado neste artigo com exclusividade ao Extra Classe. Torres também escreveu A Patrulha de Sete João (2005), foi coautor de A paz dos Farrapos (2005) e pesquisador de Lanceiros Negros (2006), de Geraldo Hasse e Guilherme Kolling.
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