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Nº 160 | Ano 17 | Dez 2011
SAÚDE

Câncer: meio milhão de novos diagnósticos por ano

A cada ano, surgem cerca de 520 mil novos casos de câncer no Brasil, conforme estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão do Ministério da Saúde
Por Clarinha Glock

Saúde

Foto: Ministério da Saúde/Divulgação

Foto: Ministério da Saúde/Divulgação

Por trás dos números está um amigo ou parente querido, a vizinha com um nódulo maligno, o colega de trabalho operado às pressas por um tumor que não desconfiava que tinha. Todo mundo conhece alguém que tem ou teve um câncer. Quanto mais a população envelhece, maiores as chances de fazer parte deste grupo. Palavras que antes não fariam parte do vocabulário popular, tumor e câncer entraram na rotina da população. Em parte porque os meios de comunicação divulgam com frequência informações sobre doentes famosos − os exemplos recentes são o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com um câncer de laringe, e o ator Reynaldo Gianecchini, com um tumor nos gânglios linfáticos. Ao mesmo tempo, há uma sensação de que a doença tem aparecido em pessoas mais jovens. É que o conceito de juventude mudou: se vive mais, e os jovens de hoje são os velhos de antigamente, que morriam antes de ter tempo de desenvolver a doença.

O câncer é uma doença crônica e degenerativa, resultado de uma falha no sistema imunológico e de um acúmulo de erros genéticos na divisão celular. Se hoje é a segunda causa de morte no Brasil entre as doenças não transmissíveis − atrás apenas das cardiovasculares −-, nem sempre foi assim. Séculos atrás, os jovens morriam cedo, de tuberculose e pestes, por exemplo. Mas a expectativa de vida aumentou. E quanto mais a pessoa vive, mais tempo é exposta a fatores como cigarro, poluição e alimentação que podem causar câncer.

“Estes eventos vão se acumulando”, explica o médico Marcelo Capra, do Hospital Conceição de Porto Alegre. Outros fatores podem estar associados, mas comprovar exige tempo e pesquisa. Como medir o quanto se ingeriu de alimentos industrializados, também suspeitos? O fato é que mudanças na alimentação e em hábitos, uma expectativa de vida maior e diagnósticos precisos resultam no crescimento das estatísticas. A Estimativa 2012/2013 sobre incidência de câncer no Brasil feita por pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (o Inca incorporou o nome do ex-vice-presidente que morreu de câncer em maio de 2011, depois de 15 anos com a doença) é feita a cada dois anos para ajudar a traçar o planejamento e a gestão da saúde pública neste setor e definir políticas de atendimento.

Inca: desafio é vencer desigualdades regionais

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Imagem: SXC.hu

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O Inca alerta que o desafio é vencer as desigualdades regionais e garantir o acesso ao tratamento para todos. Mesmo dentro das áreas melhor servidas pelos centros de saúde este problema é evidente. Quando o ex-presidente Lula anunciou que estava com um câncer de laringe, surgiu um movimento para que ele se tratasse pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e enfrentasse as mazelas por que passa a população em geral. Capra afirma que o tratamento e os remédios seriam os mesmos no SUS. O que mudaria seria o acesso ao sistema, que é lento e difícil.

Capra explica: “Lula consultou o médico porque estava rouco. Foi examinado no dia seguinte, fez tomografia, biópsia. Estava com o diagnóstico pronto em três dias. Se fosse pelo SUS, iria a um posto de saúde, que o encaminharia ao otorrinolaringologista, o que demoraria um ano talvez. Dali iria para o oncologista: mais umas quatro semanas para agendar o atendimento. O oncologista pediria uma tomografia. Pelo SUS, dependendo da cidade, levaria mais dois a três meses. Depois, esperaria duas a três semanas para marcar a quimioterapia. Para radioterapia, mais duas a três semanas”. Em alguns casos, a dificuldade de tratamento, demanda de exames e cirurgia faz com que poucos hospitais tenham condições de prestar o atendimento completo. Muitas vezes o paciente tem de peregrinar de um lugar a outro, com risco de o tumor entrar num estágio avançado, com menos chances de cura.

O oncologista Rodolfo Coutinho Radke, coordenador do Núcleo de Novos Tratamentos em Câncer da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, ressalta que existem tumores que poderiam ser evitados. “Países do Primeiro Mundo não têm tantos casos de colo uterino pelo simples hábito de as mulheres fazerem os exames preventivos regularmente e detectarem antes de virar tumor”, diz Radke. Ainda que desagradável, um exame de colonoscopia esporádico também seria suficiente para reduzir a agressividade dos tumores de câncer de cólon (o mais comum tumor do intestino).

Radke lembra que o tratamento de câncer ainda é muito recente na Medicina. “Há uns cem anos se retirava todo o seio de uma mulher com câncer, achando que resolveria o problema”, afirma. A meta da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre é abrir um Instituto de Ensino e Pesquisa para ampliar os estudos. Enquanto novas drogas não são descobertas, no que diz respeito ao câncer de mama ainda vale investir no diagnóstico precoce e seguir as recomendações do autoexame da mama e de mamografias a partir dos 40 anos de idade. Assim como para os homens é indicada uma avaliação da próstata a partir dos 45-50 anos de idade.

A maratona do câncer de mama continua 
Em dezembro de 2008, o Extra Classe entrevistou três mulheres que saíam de outras cidades para tratar o câncer de mama em hospitais de referência de Porto Alegre.

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Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Em dezembro de 2008, o Extra Classe entrevistou três mulheres que saíam de outras cidades para tratar o câncer de mama em hospitais de referência de Porto Alegre. Viajavam horas para exames, quimioterapia, radioterapia. Estavam em estágios diferentes de diagnóstico e tratamento. Na ocasião, a Secretaria Estadual de Saúde havia criado uma Força-Tarefa para combater os altos índices de mortalidade de câncer de mama no Rio Grande do Sul. Foi anunciada a instalação de mais cinco mamógrafos, e cursos de capacitação para agentes de saúde. O atual coordenador do Programa Saúde da Mulher da Secretaria, Fernando Anschau, diz que existem hoje no estado 250 mamógrafos, entre os quais 109 operam pelo SUS. O número seria suficiente para atender a população, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. “O problema não são os mamógrafos, que trabalham abaixo da capacidade”, observa.

Segundo Anschau, a Secretaria está criando um grupo tático para rastrear se estão sendo feitas as mamografias, sistematizar os problemas e atingir de forma mais eficiente a população-alvo. “O ideal é uma mulher com suspeita de nódulo ser atendida em no máximo 30 dias e fazer a cirurgia, se necessária, em 15 dias”, alerta. Há intenção de instalar Unidades de Diagnóstico Mamário, a exemplo do projeto-piloto do Rio de Janeiro. “Se existem usuárias saindo de casa às 4h da manhã para a radioterapia em outra cidade, algo está errado”, analisa.

O erro do sistema gerou muito sofrimento para Juraci Teresa Costa, moradora de Montenegro, que acordava às 3h30min e caminhava 15 minutos até o local de embarque para conseguir lugar no ônibus que a levaria ao tratamento na capital. Em 2008, quando foi entrevistada pelo Extra Classe, fazia quimioterapia. Havia sido diagnosticada dois anos antes. “Ela não chegou a passar por uma cirurgia, porque o câncer se espalhou”, explica Geneci Ferreira de Souza, 36 anos, filha de Juraci. Foi um doloroso processo, e não só pela doença. “Havia exames que teve de aguardar dois a três meses para realizar”, conta. Juraci morreu em 7 de novembro de 2009, e nem na hora da morte conseguiu um atendimento rápido. Era 2 de novembro, feriado, quando teve uma dor muito forte na perna. A filha a levou na emergência de um hospital referência na Capital. Chegou às 6h, foi atendida somente às 21h30min. Como não havia vagas para interná-la no momento, Geneci decidiu levar a mãe de volta a Montenegro e voltar depois do feriado. No dia 3, teve de brigar e chorar para garantir que fosse hospitalizada. “Era só para ela ter uma boa hora final”, admite. A próxima consulta de Juraci seria em 25 de janeiro de 2010.

Na maratona de Maria Helena Viana da Silva e Osnilza Pereira, elas foram vencedoras. Em 2008, quando deu entrevista, Maria Helena havia perdido os cabelos por causa da quimioterapia. Relatou então como a experiência de técnica de enfermagem fez com identificasse mais facilmente o próprio nódulo e corresse para o tratamento. Moradora de São Jerônimo, não desanimou nem quando a distância dos hospitais de Porto Alegre a separaram da família. Três anos depois, os cabelos cresceram, e ela, que já era risonha, ampliou o sorriso. Insiste: “Tem que fazer o autoexame. Não fosse isso, eu talvez não tivesse descoberto o câncer a tempo e nem estaria contando esta história” !

O grande apoio de Osnilza durante a fase mais difícil da doença até agora, quando comemora a recuperação, foi sua crença em Deus. Evangélica, agradece aos médicos, mas tem certeza de que a fé foi essencial para suportar a viagem do interior de Viamão até Porto Alegre e o mal-estar de efeitos colaterais. “Viver em Cristo, morrer é lucro”, não cansa de repetir. No hospital, durante o tratamento, ia nos quartos para levar otimismo aos demais. Faz revisão periódica de controle e recomenda: “Tem que acreditar em Deus e fazer o que precisa fazer, como exames e acompanhamento”.

Remédios mudaram a história de alguns tipos de câncer

O médico Marcelo Capra explica que, atualmente, as pesquisas de câncer se concentram em três frentes: a primeira visa a identificar as causas. A segunda é para detectar e tratar os tumores precocemente. E a terceira quer descobrir medicamentos direcionados especificamente a cada tumor, já que a quimioterapia em geral ataca as células boas e ruins, e tem muitos efeitos colaterais.

Alguns medicamentos recentes mudaram radicalmente a sobrevida dos pacientes. O Hospital Conceição, por exemplo, tem 150 pacientes com leucemia mielóide crônica, para a qual, até dez anos, não havia perspectivas de tratamento ou cura. Em geral, os doentes morriam em dois anos. Novos remédios permitem às pessoas conviverem com a enfermidade há uma década.

É o caso de Osni Romeu Dias, 41 anos. Quem o encontra na rua ou na pequena loja de produtos ortopédicos da família em Alvorada, na Grande Porto Alegre, conversando com os clientes, nem imagina que tem câncer. Diagnosticado com leucemia mielóide crônica – uma demanda desordenada de glóbulos brancos no organismo − em um exame de rotina em 2009, Dias vive normalmente graças ao remédio fornecido gratuitamente pelo SUS. Se tivesse que pagar, iria desembolsar em torno de R$ 12 mil. Um comprimido por dia e uma dieta especial o mantêm saudável. A vantagem de Dias é que tem um plano de saúde privado. Para os exames e consultas, utiliza o plano particular. Com o tratamento, o carinho e a atenção do médico, da mulher e dos filhos, o diagnóstico desesperador do início cedeu espaço à esperança. Dias explica que mudou seus valores. “Tenho mais gosto pela vida”, diz.

 

 

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