Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 163 | Ano 17 | Mai 2012
CULTURA

Violência na escola é tema no teatro

Teatro

Foto: Creative Fotografia/Divulgação

Foto: Creative Fotografia/Divulgação

Em uma sala de aula com paredes riscadas, cadeiras e mesas quebradas, seis alunos esperam por um professor que nunca chega − alguém que possa lhes ajudar a recuperar a esperança, aliviar a dor e acolher sem preconceitos. Eles acabam de expulsar violentamente uma professora e, enquanto não chega o substituto, fazem um jogo: cada um tem de ensinar para o outro alguma coisa. Em meio a agressões físicas e verbais, em suas lições improvisadas, os alunos pedem ajuda. Na única cena da peçaInimigos de Classe em que a figura do responsável pela escola responde a esse pedido, a mensagem é acusatória: aqueles estudantes são incorrigíveis, não há o que fazer por eles. Baseada na obra do dramaturgo inglês Nigel Williams − encenado pela primeira vez em 1978, em Londres −, a montagem do diretor gaúcho Luciano Alabarse traduz uma realidade que se repete ainda hoje, em várias escolas do Brasil.

É a segunda vez que Alabarse monta o texto, que já foi encenado em lugares tão distintos quanto Berlim, Sarajevo e Cingapura. “Violência, em tese, é igual em toda a parte. Mas penso também que há características locais, que têm a ver com a formação cultural do povo. Mulheres apedrejadas no mundo árabe, mãos cortadas dos ladrões são exemplos dessa violência localizada, e já banida em algumas culturas. A violência escolar, o bullying entre alunos, a agressão de alunos a professores é, no entanto, cada vez mais generalizada no mundo ocidental, de países pobres e ricos, sem distinção. Por isso, o espetáculo é tão emocionante, porque cumpre uma das funções da arte, a de servir de espelho da sociedade que vivemos”, acredita.

Vinte anos separam a primeira montagem realizada por Alabarse e a atual que, depois de fazer o circuito de teatros da capital, segue sua agenda de apresentações em escolas públicas e privadas. Além dos atores, o contexto histórico também mudou. O termômetro que Alabarse utiliza são as notícias publicadas em jornais sobre tiroteios nas escolas, falta de educadores, uma sociedade cada vez mais marcada pela violência. A reação do público confirma isso: “Quando uma professora que está abandonando a profissão, por absoluta angústia e falta de forças para suportar a rotina de seu trabalho numa escola de periferia, disse que a peça havia lhe despertado um sentimento de culpa por estar desistindo, fiquei realmente engasgado. Foi arrepiante”, observa.

PROFESSORES − A professora Esther Pillar Grossi, coordenadora de pesquisa e presidente do Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação (Geempa) de Porto Alegre, já assistiu três vezes ao espetáculo e levou professores para discutir o tema. “Não são só os alunos que estão abandonados. Os professores também se sentem impotentes diante de uma situação que extrapola a boa vontade individual de cada um. Educação é uma questão de governo, sim. Investimento em qualificação, em instrumentos adequados, em prédios mantidos de forma adequada”, diz o diretor.

A realidade dos personagens de Inimigos de Classe é conhecida de Esther Grossi. “Aprender é muito bom e une as pessoas”, lembra. “Quando alguém não está aprendendo, se desgarra”, explica. E acrescenta: “Para aprender, eu preciso ser agressivo com a minha ignorância. Se não estou aprendendo, o meu prazer vai requerer outra violência, como, por exemplo, as drogas. A forma de atingir esse aluno é… ensinar!”. Para Esther Grossi, é mais fácil aceitar o senso comum de que os alunos são violentos, os professores são vítimas, a família não assume e entrega para a escola. No entanto, o fundamental, diz ela, é compreender que o papel das escolas não está sendo cumprido: não está ensinando. “Ficam oferecendo esporte, teatro, quando os alunos sabem que têm que aprender outras coisas, como matemática”, afirma. Ela acredita que é preciso ir mais a fundo e rediscutir o próprio papel das universidades, que estão formando mal os professores.

Alabarse quer percorrer as escolas para estimular o debate. “O que interessa a mim e ao grupo é o contato com alunos, o retorno dos professores, a conscientização de que todos precisamos de um pouco de paciência e determinação para ajudar a funcionar. Essa é mensagem final da peça, dita pelo Bola, o aluno que sofre bullying, juntamente com a informação do Anjo de que um professor, com livros na mãos, está vindo na direção daquela classe. Oxalá!”

AUDIODESCRIÇÃO − O espetáculo Inimigos de Classe deu mais uma lição: incluiu a audiodescrição em uma apresentação do Theatro São Pedro, em Porto Alegre. O alto custo do equipamento e a falta de estrutura de algumas salas impedem que a experiência se repita com mais frequência. Mas quase 50 deficientes visuais puderam usufruir do serviço.

Os números da violência nas escolas

A Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (Pense), realizada pelo IBGE em 2009, mostrou que quase um terço dos alunos (30,8%) respondeu ter sofrido bullying alguma vez, cuja ocorrência foi verificada em maior proporção entre os alunos de escolas privadas (35,9%) do que entre os de escolas públicas (29,5%). Nos 30 dias anteriores à pesquisa, 12,9% dos estudantes se envolveram em alguma briga com agressão física, chegando a 17,5% entre os meninos e 8,9% entre as meninas, inclusive com o uso de armas brancas (6,1% dos estudantes) ou arma de fogo, declarado por 4% deles.Viviam na companhia do pai e da mãe 58,3% dos estudantes, sendo que 31,9% moravam apenas com a mãe, 4,6% somente com o pai e 5,2% sem a presença da mãe e nem do pai. Quase 10% dos alunos declararam ter sofrido agressão por algum adulto da família.

Em 2007, o Sinpro/RS realizou uma pesquisa para investigar a opinião de seus associados sobre a violência nas instituições de ensino privado de Porto Alegre, Região Metropolitana e interior do estado. Os 440 professores que responderam ao formulário-padrão atribuíram a violência a alunos em quatro casos: desconstituição da autoridade do professor, agressões físicas, agressões via internet e assédio sexual.

AGENDA DE MAIO
Inimigos de Classe em Porto Alegre:
Dia 8 de maio – 19h30min
Local: Escola Municipal de Ensino Médio Emilio Meyer
Endereço: Avenida Niterói, 472, Bairro Medianeira

Dia 15 de maio – 19h30min
Local: Escola Estadual de Ensino Fundamental Antão de Farias
Endereço: Rua Bom Jesus, 505 − Bairro Bom Jesus

Dia 22 de maio – 19h30min
Local: Instituto Estadual Dom Diogo de Souza
Endereço: Rua Adão Baino, 206 − Bairro Cristo Redentor

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