Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 197 | Ano 20 | Set 2015
ENTREVISTA | PATRICK COCKBURN

O horror como estratégia

Por Gilson Camargo (com tradução do inglês por Grazieli Gotardo)

O horror como estratégia

Foto: Martin Hunter

Foto: Martin Hunter

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O grupo fundamentalista Estado Islâmico (Isis) surgiu em meio à guerra civil do Iraque e Síria e se fortaleceu após a invasão do Iraque pelos EUA, aproveitando-se da marginalização da minoria sunita, da corrupção arraigada no estado iraquiano e ainda da omissão da comunidade internacional em relação à insurreição popular contra o governo sírio. O autodeclarado califado passou a aterrorizar o mundo com mais intensidade a partir de 2014, com a divulgação de vídeos dos seus rituais de mutilações e execuções coletivas de civis julgados e condenados por “infidelidade ao Islã”. No livro The Rise of Islamic State: ISIS and the new sunni revolution (2014), lançado no Brasil em julho deste ano pela editora Autonomia Literária com o título A origem do Estado Islâmico – O fracasso da guerra ao terror e a ascensão jihadista, o veterano jornalista irlandês Patrick Cockburn, 65 anos, descreve o conflito criado pela política externa norte-americana. Ele demonstra nessa obra – com prefácio do professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser – como o Ocidente “criou as condições ideais para o explosivo sucesso do Isis, ao fracassar na Guerra ao Terror no Iraque e fomentar a guerra civil na Síria”. Patrick Cockburn, autor de outros dois livros sobre o Iraque, é correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent desde 1990. De 1978 a 1990 trabalhou para o jornal norte-americano Financial Times, sempre cobrindo conflitos na região. No ano passado, em plena ascensão do Estado Islâmico, foi considerado o melhor jornalista estrangeiro pela British Journalism Awards e melhor repórter do ano pela The Press Awards. Nesta entrevista exclusiva ao Extra Classe, Cockburn analisa as condições geopolíticas que favoreceram o surgimento e a ascensão do Isis, que alia estratégias militares altamente sofisticadas e fanatismo religioso para aterrorizar os inimigos e ocupar territórios: “O Isis está intoxicado com o próprio poder”.

Extra Classe – Como surgiu e o que quer o Estado Islâmico?
Patrick Cockburn – O que as pessoas geralmente chamam de Estado Islâmico é de fato o califado e foi criado em 29 de junho de 2014 em consequência da captura da cidade iraquiana de Mossul pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isis, Isil ou Daesh), no início daquele mês, quando eles tinham conquistado grande parte do Iraque setentrional e ocidental, bem como a maior parte do leste da Síria. Desde o início, o Estado Islâmico reivindicou a lealdade dos muçulmanos em todo o mundo. O movimento nunca demonstrou qualquer inclinação para dividir o poder com ninguém.

EC – É correta a designação desses combatentes como jihadistas?
Cockburn – Jihadis é um termo frequentemente usado, embora muitos muçulmanos tenham objeções, alegando que a luta contra a Jihad é uma questão de fé islâmica. Eles não gostam que jihad seja usada exclusivamente para designar grupos fundamentalistas como o Estado Islâmico ou Al-Qaeda.

EC – Como justificam tanta barbárie e espetacularização das execuções coletivas que executam?
Cockburn – As atrocidades públicas cometidas e deliberadamente divulgadas pelo grupo têm a intenção de aterrorizar todos os potenciais adversários. Isso tem sido muito eficaz contra os exércitos da Síria e do Iraque. Ações como matar um piloto da Jordânia queimado dentro de uma gaiola visam assustar, mas também são para mostrar que o Isis tem força e que qualquer ataque contra eles será recebido com retaliação imediata e violenta. Finalmente, vídeos de xiitas ou yazidis sendo assassinados demonstram que eles são totalmente diferentes de seus inimigos e que o mundo está dividido nas forças da luz e escuridão.

EC – Qual a relação do Isis com a Al-Qaeda – que ampliou seu raio de ação e poder após a morte de Osama Bin Laden?
Cockburn – O Isis tem uma ideologia muito semelhante à Al-Qaeda, apesar de suas táticas e objetivos serem diferentes. Ambos estão relacionados com o Wahabismo Saudita, que foi iniciado no século 18 e destaca-se pelo monoteísmo obsessivo, em que xiitas são considerados hereges e mulheres possuem um status abaixo dos homens. O Estado Islâmico remonta à época de Abu Musab al-Zarqawi, um jordaniano jihadista extremista, que via os xiitas como mais inimigos do que os norte-americanos no Iraque após a invasão americana de 2003. Ele foi morto por bombardeiros dos EUA em 2006, mas o Estado Islâmico mantém as mesmas crenças.

EC – Quais condições políticas favoreceram a rápida ascensão do Estado Islâmico?
Cockburn – O Isis é filho da guerra. Floresce em situações de total conflito, particularmente quando é um conflito sectário. Ele combina o fanatismo religioso e experiência militar. Este último vem principalmente a partir da longa experiência militar entre 2003 e 2015. Eles desenvolveram táticas tais como o uso de homens-bomba em massa, bombas nas estradas, franco-atiradores, morteiros, armadilhas. Eles operam como uma força quase de guerrilha, especialmente diante de ataques aéreos norte-americanos.

O horror como estratégia

Foto: Acervo pessoal

Foto: Acervo pessoal

EC – A tese central do seu livro The Rise of Islamic State é de que a captura das cidades iraquianas Fallujah, Mossul e Tikrit foram facilitadas pelo descontentamento da minoria sunita com o governo de maioria xiita e pela inoperância do exército iraquiano, minado pela corrupção. A partir disso, pode-se dizer que o sucesso do Estado Islâmico se explica pela falta de alternativas dos muçulmanos sunitas, sobretudo no Iraque pós-Saddam?
Cockburn – O Isis certamente se beneficiou da falta de uma liderança sunita alternativa eficaz no Iraque. Se beneficia também da discriminação e opressão contra sunitas do Iraque, que tem sido forte desde 2003. Isto é particularmente grave em um país onde o governo (que recebe as receitas do petróleo) é de longe o mais importante empregador. Para um sunita jovem isso pode significar que ele nunca vai conseguir um emprego. Ele ainda é vulnerável a ser preso e torturado, o que pode gerar uma confissão que o levará a ser executado. Mesmo assim, o Iraque alcançou uma espécie de balanço sangrento, insatisfatório, mas relativamente estável de poder entre sunitas e xiitas em 2010. Foi a revolta dos sunitas da Síria em 2011 o evento político crucial que desestabilizou o equilíbrio de poder sectário no Iraque.

EC – Como ocorreram as ocupações dessas cidades sunitas? O que o senhor testemunhou como correspondente e qual a importância desses territórios para o sucesso do Estado Islâmico? 
Cockburn – A ocupação dessas cidades ocorreu com facilidade surpreendente e com muito pouca resistência. O Isis capturou Fallujah, que fica a apenas 40 milhas a oeste de Bagdá, em janeiro de 2014. Inicialmente, eles estavam trabalhando com outros grupos islâmicos que mais tarde foram descartados. Mas o que eu achei surpreendente na época foi que o exército iraquiano foi incapaz de lançar um contra-ataque eficaz e o governo iraquiano e seus aliados estrangeiros deram muito pouca atenção a isso. Havia guerra na província de Anbar, uma vasta área no oeste do Iraque, durante a primeira metade de 2014, mas cinco divisões iraquianas foram derrotadas. Eu estava certo da debilidade do governo e exército iraquiano e a força crescente do Isis, mas fiquei espantado quando Mossul foi conquistada depois de quatro dias de combate, em junho de 2014, e Tikrit depois de um único dia. O exército iraquiano simplesmente rachou e fugiu. E nunca se recuperou de fato.

EC – O senhor afirma que já não há mais cobertura jornalística confiável na região. Como é ser correspondente de uma guerra em que o sequestro e o desaparecimento de defensores dos direitos civis e de jornalistas são frequentes?
Cockburn – A dificuldade de ser um bom correspondente de guerra é enorme em qualquer área de conflito. Os exércitos não gostam de correspondentes independentes andando nos campos de batalha e reportando suas atividades. Isto é particularmente verdade no Iraque e na Síria, onde tornou-se impossível trabalhar em qualquer lugar controlado pelo Isis. Também é muito perigoso trabalhar em qualquer área rebelde da Síria, áreas não dominadas pelo Isis, mas onde você pode ser sequestrado e vendido para o Isis. Grande parte da oposição militar síria é criminalizada e assim muitos repórteres descobriram o seu preço.

EC – A ocupação de Mossul foi mais estratégica para o Isis?
Cockburn – A ocupação de Mossul foi a vitória crucial para o Isis. Eles mostraram sua força e a fraqueza do exército de governo iraquiano. Uma das partes mais importantes da propaganda do Isis é a capacidade deles de divulgar que suas vitórias tiveram ajuda divina contra um inimigo muito superior. Em Mossul, as forças de segurança iraquianas contavam com cerca de 20 mil homens e seus inimigos (o Estado Islâmico) com aproximadamente 3 mil. Seus comandantes eram nomeados políticos sem habilidade militar. Eles e os seus oficiais haviam pago por seus empregos para que eles pudessem ganhar dinheiro se apropriando dos salários de soldados que não existiam. O governo iraquiano admite a existência de 50 mil “soldados fantasmas”. Certamente, a maioria sunita árabe em Mossul odiou e temeu o exército e a polícia federal e ficaram satisfeitos de se livrar deles. Imediatamente após a queda da cidade, árabes sunitas locais
se chocaram ao ver suas mesquitas explodindo, as mulheres obrigadas a usar o Niqab (véu) e a extrema violência do Isis. Mas eles também estão com medo do exército iraquiano e das milícias xiitas. O Isis ficou intoxicado com as vitórias. Para eles suas vitórias mostraram que Deus está do lado deles e que podem fazer qualquer coisa.

EC – Quem comanda o Isis? É possível estimar quantos combatentes tem e que controle tem essa liderança sobre o grupo?
Cockburn – Abu Bakr al-Baghdadi é o Califa. Mas é difícil saber exatamente como a autoridade é exercida. As lideranças locais do Isis aparentemente têm grande autonomia em assuntos militares. Todas as outras organizações são excluídas do poder. O Estado Islâmico é altamente secreto. Quantos combatentes eles têm? Eu estimaria entre 50 mil e 100 mil.

EC – A sofisticação militar e o fanatismo do Isis ameaçam o Ocidente?
Cockburn – Eles não são uma ameaça existencial para o Ocidente como às vezes é afirmado. Mas as células do Isis são peritas em dominar a agenda da mídia com atrocidades praticadas por um pequeno número de indivíduos ou até mesmo por um apenas, como aconteceu quando um único atirador matou 30 turistas britânicos na Tunísia. Geralmente, eles não hesitam em atacar qualquer um que se oponha a eles.

EC – Por que os EUA fracassaram na guerra ao terror? Por que as investigações do 11 de setembro blindaram a Arábia Saudita e o Paquistão?
Cockburn – Os EUA fracassaram na guerra contra o terror porque após o 11 de setembro eles não focaram na Arábia Saudita (de onde vieram 15 dos 19 sequestradores) como fizeram Osama bin Laden e os financiadores particulares que custearam a operação, de acordo com o a investigação oficial dos Estados Unidos. Da mesma forma, não houve confronto dos EUA com o Paquistão, que apoiou os talibãs. O problema é que os EUA sempre quiseram evitar a segmentação dos seus aliados sunitas – Paquistão, Arábia Saudita, Turquia, Qatar – apesar das suas ligações com organizações terroristas como Al-Qaeda ou Isis.

O horror como estratégia

Foto: Reprodução/Aljazeera

Foto: Reprodução/Aljazeera

EC – Não faltam exemplos de ações militares e diplomáticas equivocadas por parte dos EUA, que só fortaleceram o Isis. Por que os EUA hesitam?
Cockburn – Eles hesitam pela mesma razão descrita acima: sempre quiseram evitar a segmentação dos seus aliados sunitas. Aqueles mais claramente envolvidos no apoio a organizações como o Isis e Al-Qaeda são os estados sunitas, que são o apoio essencial do poder dos EUA no Oriente Médio e Sul da Ásia; Turquia, Arábia Saudita, Monarquias do Golfo e Paquistão. Aqueles que estão lutando no terreno do Isis são o exército sírio, os curdos na Síria, o Hezbollah do Líbano, as milícias xiitas no Iraque – todos esses são “terroristas” ou inimigos aos olhos de Washington.

EC – Ao fornecer armas aos opositores do presidente da Síria, Bashar al-Assad, para que aqueles combatessem os terroristas, os EUA favoreceram o Isis? Como?
Cockburn – Na prática, os EUA admitem que não têm parceiros locais confiáveis na Síria e que a oposição militar para Assad é totalmente dominada por jihadistas radicais. A tentativa dos EUA de construir uma força moderada falhou recentemente de forma humilhante, com apenas 54 homens treinados e alguns deles capturados por Jabhat al-Nusra (organização jihadista autodenominada Frente da vitória para o povo da Grande Síria, que teve origem na atual guerra civil síria em oposição ao regime de Bashar Al-Assad e é representante da Al-Qaeda na região).

EC – Israel, que apoiou os jihadistas na Síria, exerce que papel no combate ao Isis?
Cockburn – A atitude de Israel é estranha na medida em que considera o Isis uma ameaça menor que (o presidente sírio) Assad e o Hezbollah. Isso não me parece ser muito sensato.

EC – E os demais, Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes, Bahrein, Qatar?
Cockburn – Os demais estados estão com medo do Isis porque eles desafiam sua legitimidade, mas gostam da ideia de que eles (os rebeldes do Estado Islâmico) causam problemas ainda maiores para os xiitas. Existem células do Isis na Líbia, Egito, Iêmen, que são pequenas mas têm uma influência muito além de seu tamanho.

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