Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 222 | Ano 23 | ABR 2018
FRAGA

Ilustração: Sica

Ilustração: Sica

Assaltaram a realidade. Na hora a coitadinha ficou tão histérica que os bandidos não conseguiram tirar nada dela, nem conclusões. Aí a realidade foi fazer B.O. na delegacia: ao ver um cartaz de Procura-se a Realidade, saiu de fininho.

Puizé, a realidade brasileira anda tão tensa que até os barômetros precisam de anti-hipertensivos. Tudo porque na calçada da realidade é mais fácil encontrar desempregados que dez empregados. Calcule a fome por vagas, pra não falar de comida. Se realidade aumentada faz sucesso no país, imaginem realidade alimentada.

A realidade ocorre em 360°. Porém, a grande mídia – omissa, submissa – prefere ângulos obtusos ao enquadrá-la. Daí a exaustão com a imprensa e a aniquilação com as fake news. Não é a vista que tá cansada. É a realidade que esgota o olhar.

Pero, se a gente não encarar a realidade, ela também vai nos olhar meio de lado, né? Mas ninguém precisa fugir da realidade. Ela também está em fuga. Por isso a realidade adora pessoas perturbadas, que a compreendem muito melhor.

Do jeito que o Brasil vai, a realidade afeta até a gramática: indicado e indiciado agora são sinônimos. A realidade aprendeu a conjugar e então ensina: Eu suporto; tu toleras; ele aguenta, nós nos impacientamos; vós perdeis a calma; eles explodem.

Ao amanhecer, a realidade é nítida demais, por isso muitos não a enxergam. Nas manhãs com neblina, a paisagem e a realidade se parecem mais. E por mais dura que seja a realidade, de noite ela ainda serve de colchão sob as marquises.

Tamanha desigualdade social pelaí só pode gerar angústias e agonias no lado menos igualitário, enquanto o lado mais igual se esbalda em benesses e benefícios. Não custa lembrar: na vida, só a realidade não tem patrocínio.

Pra complicar, também não ajuda muito o senso irreal da classe política e do judiciário. Há muito tempo essa gente vive uma falsa realidade, num território entre o ilusório e o fictício, no seu país particular chamado Fodasse.

Aí, quando a realidade fica descontrolada, entra num boteco e toma uns coquetéis molotov. Cuidado com a realidade nacional: todo dia ela liquida milhões de realistas.

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