Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
12/03/2014
ENTREVISTA | MARÍA OLIVIA MÖNCKEBERG
MERCANTILIZAÇÃO

Educação e lucro em debate no Chile

Por Grazieli Gotardo*
Educação e lucro em debate no Chile

Foto: Javier Barrera / Divulgação

María Olivia Mönckeberg

Foto: Javier Barrera / Divulgação

María Olivia Mönckeberg é jornalista e diretora do Instituto de Comunicação e Imagem da Universidade do Chile. Lançou, em 2013, o livro **Con Fines de Lucro – La Escandalosa Historia de las Universidades Privadas en Chile (Random House Mondadori, 2013), em um trabalho de investigação jornalística que expõe a origem de muitos dos problemas pelos quais o Chile vem passando nos últimos anos e que, em 2011, eclodiram nos protestos estudantis. No foco da questão, a educação privada como negócio e com lucros ilícitos, já que lá a Constituição considera ilegal lucrar com a educação. O que vem ocorrendo, no entanto, é que diversos grupos internacionais compram universidades, cobram preços abusivos nas mensalidades, gerando endividamento das famílias, e pouco investem na qualidade do ensino. María Olivia também é autora de outros quatro livros sobre o tema, que acompanha desde 2005. 

Extra Classe – Como teve início o processo de abertura da Educação Superior no Chile para o mercado privado e o que a lei previa naquela época?
María Olivia Mönckeberg – A capacidade de criar universidades privadas iniciou no Chile em 1981, durante a ditadura de Augusto Pinochet. Isto foi estabelecido por meio de um decreto-lei que determinava que as empresas poderiam ser criadas “sem fins lucrativos”. Naquela época, a oposição não tinha forças para discutir a medida. Não houve parlamento, imprensa livre nem poder judicial independente. Todo o poder vinha de Pinochet, que impôs essas mudanças de acordo com seus critérios e os de seus assessores.

Existiam naquela época, no país, oito universidades tradicionais: duas do estado, a Universidade do Chile, maior e mais antiga, nascida em 1842, com unidades em diferentes regiões, e a Universidade Técnica do Estado. Além disso, havia três universidades católicas, que recebiam apoio financeiro do estado – a Universidade Católica do Chile, a Universidade Católica de Valparaiso e a Universidade do Norte, hoje chamada de Universidade Católica do Norte. Junto a elas havia a Universidade de Concepción e a Universidade Austral do Chile, em Valdivia, ambas com caráter regional, embora de propriedade de empresas privadas; e a Universidade Técnica Federico Santa Maria, oriunda da Fundação de mesmo nome.

Todas elas, criadas por lei, foram assumidas pelo governo militar, que nomeou representantes das Forças Armadas como delegados. Isso durou 17 anos, com alguma variação no caso da Universidade Católica, que fez um acordo com o governo, mas manteve diretores e professores com raízes políticas e religiosas conservadoras.

Desde o final dos anos 50 e anos 60, a Universidade Católica foi o berço do modelo econômico neoliberal que implantou a ditadura a partir do golpe e do chamado “movimento operário”, que anos mais tarde deu origem à União Democrática Independente (UDI), fundada pelo ideólogo da Constituição de 1980, e do modelo de “democracia protegida”, de Jaime Guzmán Errázuriz, um dos assessores mais próximos de Pinochet. A UDI deu a base civil ao ditador e é o principal partido de direita até hoje. O próprio Guzmán e seus seguidores foram partidários do modelo econômico e de mudanças radicais na educação, saúde, assistência social e reformas trabalhistas.

“Desde o final dos anos 50 e anos 60, a Universidade Católica foi o berço do modelo econômico neoliberal que implantou a ditadura a partir do golpe e do chamado movimento operário”

Até o golpe militar, a educação era praticamente gratuita e nenhuma das universidades lucrava. Ninguém concebia que uma universidade pudesse fazer negócios com a educação. Por isso, no Decreto-Lei n º 1 de 1981 e, em seguida, em 1989, na chamada Lei de Educação Constitucional, foi salientado que as universidades não poderiam ter lucro, pois era algo impensável e até mesmo os militares eram contra tal situação. Os maiores defensores deste modelo de privatização foram os economistas de Pinochet, conhecidos como os “Chicago boys”, porque eles fariam pós-graduação na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Admiradores e seguidores de Friedric Von Hayek e Milton Friedman, os pais do neoliberalismo, com o apoio de Pinochet, instalaram seu modelo no Chile como se fosse um laboratório, sem possibilidade de oposição dos cidadãos. A privatização do ensino superior é parte de um modelo que se expressa de forma semelhante nas áreas de saúde, segurança social e vários aspectos da vida dos chilenos. Sempre houve educação privada no Chile, mas num percentual muito baixo.

“Até o golpe militar, a educação era praticamente gratuita e nenhuma das universidades lucrava. Ninguém concebia que uma universidade pudesse fazer negócios com a educação”

EC – O que ocorreu com o sistema educacional superior chileno nos últimos anos para que, hoje, apenas 20% das universidades sejam públicas?
María Olivia – De acordo com cifras do ano 2012, os estudantes de graduação das universidades públicas eram 161.424; os das tradicionais, não estatais, 124.624; e os das universidades privadas, depois de 81, eram 347.280. No total, havia mais de 630 mil alunos em universidades. Isso representa cerca de 25% de alunos nas universidades públicas – estatais –, o que efetivamente é uma proporção reduzida se comparada com o passado e com os alunos de privadas e de tradicionais não estatais. Cerca de 17% dos estudantes pertencem às universidades tradicionais, que recebem aporte estatal e que nos últimos tempos são qualificadas também como “públicas”, ou, ao menos, “com vocação pública”, como indicam, com a intenção de conseguir um tratamento similar ao das estatais. Cerca de 54,8% dos estudantes universitários no Chile estão nas universidades privadas nascidas depois de 1981. E o número aumenta se somar os estudantes de institutos profissionais e os centros de formação técnica que são entidades criadas a partir desse ano, as quais não têm categoria universitária, e se estipulou expressamente que podem lucrar. No âmbito da educação técnica, não há nenhum estabelecimento público. Portanto, pode-se concluir que de todos os estudantes de educação superior ou pós-secundária no Chile, que são mais de um milhão, somente 15,4 % estudam em universidades públicas.

Por trás desta situação, está o crescimento das universidades privadas, que desenvolveram manobras para poder lucrar, ainda que a lei proíba. Especialmente a partir do ano 2006, as particulares tiveram crescimento vertiginoso graças ao Crédito com Aval do Estado (CAE), que lhes permitiu ampliar as matrículas de forma considerável sem fazer os investimentos necessários em desenvolvimento acadêmico. Também cresceram os institutos profissionais, que representam 27 % da matrícula da educação superior no país.

“Entre os donos de universidades privadas que se beneficiam com o lucro, figuram grupos econômicos chilenos, fundos de investimento e figuras públicas. Se forem observados sob um prisma político, a maioria tem relação com a direita e, em particular, com a União Democrática Independente (UDI)”

EC – Qual é o cenário atual, de acordo com a propriedade das universidades?María Olivia – Atualmente existem no país 58 universidades. Destas, 25 são consideradas tradicionais e pertencem ao Conselho de Reitores das Universidades Chilenas (CRUCH).  Em resumo, hoje as universidades públicas são 16. A situação das universidades públicas regionais tem sido especialmente difícil, e elas não podem se desenvolver para cumprir adequadamente sua missão. O Estado não as provê com recursos e as obriga a se autofinanciar, o que, em muitos casos, tem causado uma queda de qualidade, sobretudo em relação às mais novas. As maiores têm se mantido com muito esforço de seus acadêmicos que têm conseguido sobreviver dentro destas lógicas de mercado. Isto explica também por que as universidades públicas cobram taxas de seus estudantes. É assim que o orçamento que se destina no Chile à educação superior provém, em grande porcentagem, de parte das famílias que pagam diretamente ou se endividam para cobrir este gasto.

EC – Qual foi o impacto na educação do Chile do Acordo Geral sobre Comércio de Serviços, assinado pelos países-membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995, em vigor desde 2005, que atribuiu à educação o valor de mercadoria a ser utilizada na economia global?
María Olivia – Ao menos aparentemente não teve especial impacto, ou não se percebeu o seu peso. Mas não é um tema que está na discussão pública. Em todo caso, no Chile, a cidadania a partir das mobilizações estudantis de 2011, e pelo que expressam as pesquisas, é totalmente contrária a considerar a educação como um bem de consumo. De fato, quando o ex-presidente Sebastián Piñera a qualificou assim, em 2011, houve um mal-estar e um rechaço.

EC – Quais são os indicativos de que o modelo mercantilizado da educação está prejudicando a qualidade de ensino?
María Olivia – A educação privada com fins lucrativos demonstrou com clareza no Chile que o objetivo de obter ganhos à custa das taxas pagas pelos estudantes, por parte de seus donos ou controladores, é inversamente proporcional à qualidade. De fato, um estudo que fizemos com uma equipe de sociólogos, cujo resumo publiquei no livro Con fines de lucro (Com fins de lucro), mostra que na realidade chilena as universidades que estão sendo investigadas por lucro perante a Promotoria da Zona Oriente de Santiago têm indicadores que podem ser associados a uma má qualidade acadêmica. Além disso, de acordo com os últimos relatórios da Comissão Nacional de Certificação e do Conselho Superior de Educação, universidades que lucram, como a Las Américas, do grupo Laureate, registram um investimento muito baixo em jornadas acadêmicas e em outros parâmetros que indicam melhoras de qualidade.

O modelo em aplicação no Chile, a meu ver, levou à forte crise da educação superior denunciada pelos estudantes a partir de 2011 e que hoje está no primeiro plano da discussão pública. É preciso esclarecer que não se trata de que a educação privada seja sinônimo de má qualidade. Por exemplo, há projetos educativos com sentido ideológico que podem ser de qualidade, de acordo com os parâmetros dos que sustentam estas posições.

Em 2011, estudantes do Chile foram às ruas confrontar o governo e protestar contra a educação cara e de baixa qualidade a que estão sendo submetidos

Foto: Divulgação Cryptone - Aliosha Marquez

Em 2011, estudantes do Chile foram às ruas confrontar o governo e protestar contra a educação cara e de baixa qualidade a que estão sendo submetidos

Foto: Divulgação Cryptone - Aliosha Marquez

EC – Como o governo do Chile vem atuando na discussão da lei que proíbe o lucro nas universidades?
María Olivia – Até agora a lei não foi modificada. O governo de direita de Sebastián Piñera que deixou o poder em 11 de março de 2014 não fez nada a este respeito. A Lei Orgânica Constitucional de Ensino (LOCE) ditada por Pinochet no último dia do seu mandato não foi modificada. Essa lei ratificou o contido no decreto-lei de 1981 no sentido de estabelecer a proibição do lucro. O grave é, em que pese a existência dessas leis, que a maioria das universidades privadas lucrou de forma considerável nestes anos, recorrendo a subterfúgios legais e figuras que permitiram tirar os ganhos das universidades. E ainda que o governo de Piñera tenha enviado um projeto para criar uma superintendência de Educação Superior que supostamente velaria pelo cumprimento da lei, não parecia determinado a terminar com o lucro, mas a permitir sua existência. Inclusive o próprio Piñera, quando Presidente, assinalou que a educação era “um bem de consumo”. E quando se abriu esta discussão, entre os de direita surgiram muitos argumentos a favor de “ganhos legítimos” e questões similares, tratando de justificar o lucro.

EC – Quem são os donos das Universidades privadas no Chile?
María Olivia – Entre os donos de universidades privadas que se beneficiam com o lucro, figuram grupos econômicos chilenos, fundos de investimento e figuras públicas. Se forem observados sob um prisma político, a maioria tem relação com a direita e, em particular, com a União Democrática Independente (UDI). Paradigmático é o caso da Universidade do Desenvolvimento, fundada em 1990 pelo ministro e secretário da Presidência de Piñera, Cristián Larroulet, e o ex-ministro de Educação e ex-candidato à presidência Joaquín Lavín Infante, junto com outro grupo de pessoas. Posteriormente se somou a eles o ex-ministro da Fazenda e também ex-candidato presidencial Hernán Büchi, que preside até hoje sua junta diretiva. Lavín disse que havia vendido sua parte na corporação e em uma imobiliária associada, mas nas últimas semanas se soube que em março de 2014 integrou-se novamente à UDI, onde foi nomeado decano da Faculdade de Economia. Também voltou a dar aulas na UDI, Cristián Larroulet que não havia vendido sua parte. Junto a eles, participa nesta universidade um dos grupos econômicos mais favorecidos com a ditadura, o grupo Penta, encabeçado por Carlos Eugenio Lavín e Carlos Alberto Délano, fortes na atividade financeira, nos seguros, na saúde privada e nos negócios imobiliários.

Outro grupo econômico muito influente é encabeçado por Juan Hurtado Vicuña, também próximo à UDI. Este grupo, que tem laços com a Opus Dei, adquiriu em 2009 a Corporação Santo Tomás, que reúne a Universidade com esse nome e também um instituto profissional e uma cadeia de Colégios no país.

A Universidade San Sebastián, assim como as duas anteriores, está sendo investigada por lucro na Promotoria Oriente de Santiago, e salientam-se entre seus diretores pessoas da direita. O mesmo ocorre com a Universidade Autônoma do Chile.

“No caso da Laureate, um dos maiores grupos investigados e dono das Universidades das Américas, Andrés Bello e Universidade de Viña del Mar, se acrescenta o fato de que mandaram dinheiro ao exterior, já que a polícia detectou, ao revisar suas condições financeiras, que destinavam importantes somas de dólares e euros a gastos sem justificativa”

EC – Dentre as 12 instituições privadas que estão sendo investigadas no Chile, quais as principais irregularidades encontradas?
María Olivia – Até agora a promotoria não divulgou com detalhes os avanços da investigação. Entretanto, pelo que tenho investigado há alguns anos, posso imaginar que o Ministério Público e a Polícia se depararam com anomalias, tais como a existência de imobiliárias e outras sociedades relacionadas com o destino que os donos das universidades dão aos recursos que obtêm das taxas dos estudantes. No caso da Laureate, um dos maiores grupos investigados e dono das Universidades das Américas, Andrés Bello e Universidade de Viña del Mar, se acrescenta o fato de que mandaram dinheiro ao exterior, já que a polícia detectou, ao revisar suas condições financeiras, que destinavam importantes somas de dólares e euros a gastos sem justificativa.

Outras formas que utilizam são a provisão de serviços, como os de computadores, higiene, restaurantes, ônibus de acesso. Também foram detectados empréstimos sem juros nem reajuste das universidades para suas empresas relacionadas. Por fim, o que se observa é que as corporações chamadas universidades não são proprietárias dos edifícios nem de bens, mas no final representam um canal por onde passa o dinheiro que vai parar nas mãos dos seus donos, que os gastam em outras atividades alheias à academia.

No livro Con fines de lucro (Com fins de lucro) demonstrei com a ajuda de uma equipe de sociólogos que os aumentos de matrículas foram notáveis, em especial a partir de 2006, quando entrou em vigor o Crédito com Aval do Estado (CAE), mas que os indicadores do que poderia ser “investimento em docência”, como contratação de professores, metros quadrados construídos ou livros na biblioteca por aluno não cresceram.

EC – E qual delas, na sua opinião, é a mais problemática? Por quê?
María Olivia – Pelo que se pôde observar até agora são problemáticos todos os que estão lucrando com os recursos dos estudantes e do Estado do Chile através do Crédito com Aval do Estado. O caso da Universidade do Mar, que se dissolveu em 2012, chega a ser grotesco pelos extremos a que chegaram seus donos em seu afã de lucrar, enquanto entregavam serviços educacionais de baixa qualidade. A situação foi de tal gravidade que, embora o Ministério da Educação não quisesse, em princípio, fechá-la, teve que finalmente tomar essa decisão.

O que eu sustento é que o problema é muito grave e afeta todo o sistema, se é que podemos chamar de sistema a caótica situação da educação superior no Chile, em particular a privada. Porque ainda que não se lucre com recursos públicos diretamente, como é o caso do CAE, também é abusivo que cobrem das famílias elevadíssimas taxas por uma educação medíocre ou de má qualidade.

É provável que nas 12 universidades investigadas por lucro, em particular as de maior tamanho, como a Santo Tomás, a São Sebastian e a Autônoma, além das do grupo Laureate, a promotoria demonstre que seus donos estão lucrando. Também em outras de menor tamanho, como a Uniacc ou a Pedro de Valdivia, é óbvio que houve lucro, ainda que em menor escala, porque contam com menos estudantes.

EC – Em que consistiu o escândalo da Comissão Nacional de Certificação (CNA)?
María Olivia – Em 2012, no mesmo ano em que estourou a situação da Universidade do Mar e justamente a partir de denúncias de seus trabalhadores, aconteceu também o escândalo da CNA, que está sendo investigado pela justiça através do Ministério Público. O que ocorreu foi um caso de corrupção que contaminou o processo de certificação. Algumas universidades, através de suas autoridades, pagavam “suborno” a Díaz Corvalán para que lhes dessem mais tempo de certificação e com isso poderiam se apresentar melhor perante os possíveis estudantes, sendo merecedoras do Crédito com Aval do Estado. Além disso, os estudantes podiam ter acesso a bolsas de estudo e outras ajudas.

Isso motivou, por exemplo, a negativa a certificar a Universidade das Américas do grupo Laureate e a rebaixar os anos de certificação da Universidade Andrés Bello do mesmo grupo. Ambas são as mais numerosas universidades privadas. A CNA também negou a certificação, em 2013, a outra lista de universidades menores.

Milhares de estudantes do Chile foram as ruas confrontar o governo

Foto: Divulgação Cryptome - Luis Hidalgo

Milhares de estudantes do Chile foram as ruas confrontar o governo

Foto: Divulgação Cryptome - Luis Hidalgo

EC – O Grupo Laureate conta agora com 11 instituições no Brasil, sendo duas no Rio Grande do Sul, recentemente adquiridas. Como esta instituição opera no Chile e o que podemos esperar dela?
María Olivia – Desde que o Grupo Laureate chegou ao Chile, quando ainda era Sylvan International, se passaram 14 anos, e as carteiras dos alunos chilenos lhe deram dividendos muito bons. Sua primeira aquisição foi a Las Américas, até fins da década de 1990. Depois comprou o instituto profissional AIEP, que tem permissão para lucrar, e em 2003 a Universidade Andrés Bello, uma das principais privadas, que nos últimos anos teve um espetacular aumento de rendimentos. Em 2009, adquiriu a Universidade de Viña del Mar. E, em 2010, um estabelecimento menor, a Escola Moderna de Música.

Como digo no livro, quando se fala de lucro no Chile em grande escala, os olhos se dirigem de forma natural ao Grupo Laureate. Um conglomerado que não pode negar seu objetivo de lucrar. Quando aterrissou no Chile, em 1999, com o nome de Sylvan International, não tinha experiência alguma em educação universitária, e seu currículo estava vinculado a empresas de apoio à educação. Dava então seus primeiros passos neste negócio com o foco colocado na América Latina, liderado por Douglas Becker, um norte-americano com epicentro em Baltimore que chegou a ser um magnata com fortuna consignada na revista Forbes.

EC –  O que representa em cifras o Grupo Laureate no Chile atualmente?  María Olivia – A Laureate International se transformou no principal grupo que opera universidades no Chile. Um verdadeiro gigante neste “mercado”. Se forem somadas as matrículas de todos os seus estabelecimentos de educação superior em 2012, e se forem comparadas com o total, tomando como base as estatísticas oficiais do Conselho Nacional de Educação, hoje representam mais de 13,3% de toda a educação superior no país.

Os estudantes de graduação de suas três universidades, mais o Instituto Profissional (AIEP), somaram 137.124 pessoas em 2012, de acordo com as bases de dados do Índice do Conselho Nacional de Educação (CNE). A comparação é impactante se se considerar que essa cifra implica apenas 24 mil estudantes, menos que toda a educação pública universitária chilena, que, em suas 16 universidades do Estado, matriculou 161.424 estudantes nesse mesmo ano.

O dinheiro obtido pelo Grupo Laureate chegou a CLP 255.929.835.162 pesos chilenos, segundo a mesma fonte oficial. Isto representava, no final de 2013, mais de US$ 500 milhões em um ano. A magnitude dos valores dá uma ideia do tipo de negócio de que se está falando. É interessante perceber também que, desde que se instaurou o Crédito com Aval do Estado (CAE), a curva de crescimento da Universidade Andrés Bello tem sido ascendente. Em 2005 tinha 19.160 estudantes e, depois de constantes aumentos, se encontra quase 40 mil em 2012. Por isso, os 46 bilhões de pesos chilenos que recebeu em 2005 se transformaram em mais de 111 bilhões em 2012.

No caso de Las Américas, que alcançou em 2012 31.228 estudantes, obteve ingressos por 61.403.154.679 pesos chilenos em 2012, o que representa cerca de US$ 110 milhões. E, em 2011, conquistou uma soma parecida. Outro dado interessante é que o Grupo Laureate é o que mais crédito com aval do Estado concentrou nos últimos anos, cerca de 14% do total ofertado pelo governo nos últimos anos, segundo dados do Banco Mundial.

EC – Como estas redes privadas funcionam em relação ao cumprimento dos direitos trabalhistas dos professores?
María Olivia – No Chile, nas universidades privadas, se veem muitas diferenças nisto. As mais lucrativas ou as que têm projeto ideológico têm decanos e alguns professores bem pagos, inclusive melhor que nas universidades públicas. No Grupo Laureate, por exemplo, ou em outras como a Universidade do Desenvolvimento, decanos e diretores têm salários comparáveis a gerentes de empresas. No entanto, na maioria dos casos os professores não têm contratos estáveis de trabalho, são pagos com honorários e não têm férias pagas.

EC – Como as universidades privadas no Chile se beneficiam dos fundos do governo e como isso afeta a escola pública?
María Olivia – As universidades privadas se beneficiam com os fundos do Estado através de vários mecanismos. Por um lado, desde que nasceram, depois de 1981, tornaram extensivas a elas as franquias tributárias que por lei tinham e mantêm as universidades públicas e as tradicionais particulares. Por isto estão isentas de Imposto ao Valor Agregado (IVA) pelos serviços educacionais que prestam. O IVA no Chile regula a compra e venda de todos os bens e serviços – inclusive os livros – e chega a 19% do valor de venda. Tampouco pagam, como as demais empresas, Imposto de Renda anual, e os locais destinados à educação estão isentos do imposto de imóveis.

A isso se soma a isenção por lei de doações às universidades, institutos e centros de formação técnica que implica aos doadores – tanto pessoas naturais como jurídicas – descontos importantes do Imposto Global Complementário ou Imposto de Renda, segundo o caso.

EC – Como se comportou a grande imprensa chilena nos protestos estudantis em 2011, no Chile, devido ao alto preço da matrícula?
María Olivia – A imprensa convencional no Chile é muito concentrada e de propriedade de dois grandes grupos: El Mercurio e Copesa, que abarcam mais de 85% dos diários. Ambos os grupos correspondem à direita e tiveram desde o começo uma posição adversa ao movimento estudantil de 2011 e ao que representa esse movimento até hoje. Tanto em seus editoriais como em suas informações durante uma primeira etapa trataram de estigmatizar o movimento e destacar uma imagem negativa dos estudantes sob a acusação de violentos.

Na medida em que o movimento continuou, buscavam, através de seus editoriais, dar um caráter técnico e pontual ao problema. Hoje, depois que as demandas estudantis já chegam a dois anos na mesa das discussões com amplo apoio cidadão, ratificado na última eleição presidencial e parlamentaria, estão em uma campanha tratando de frear as mudanças.

EC – Qual é o futuro da educação no Chile?
María Olivia – Como jornalista, prefiro investigar e detectar o que ocorre e desvendar o que se oculta, mas é difícil prever o futuro. Sobretudo porque são muitas as cartas que estão nesta partida. Por um lado, estão as demandas estudantis, compartilhadas pela cidadania e pelo programa de governo, que parece acolhê-las. Mas há setores que não estão dispostos a gerar mudanças profundas. Dentro da Democracia Cristã e do Partido Pela Democracia (PPD) há setores que não estão convencidos de que seja fundamental pôr fim ao lucro nem se mostram partidários da gratuidade da educação. Tampouco, todos estão cientes da importância que tem a educação pública para um país como o nosso.

Em recentes entrevistas de imprensa, por exemplo, o presidente do Partido Democrata Cristão (PDC), senador Ignacio Walker, apesar de participar da Nova Maioria, o conglomerado que apoia o novo governo de Michelle Bachelet, afirma que existem divergências frente a uma ideia básica do Programa que é amplamente sentida pela maioria dos cidadãos: a importância de fortalecer a educação pública. Não obstante, Walker assinalou para a CNN Chile que suas “diferenças com a esquerda” se devem a que esta é partidária da educação pública e ele da “educação  mista e da liberdade de ensino”. A ênfase que está colocando Walker nestes pontos que em parte coincidem com posições da direita permite prever que não seria o Senado um grande defensor das medidas que têm sido apoiadas majoritariamente e que se veem como necessárias.

Pelo lado da direita já se vê como estão se preparando para boicotar as mudanças. Os meios de comunicação convencionais vêm entrevistando personalidades que estão se preparando para a defesa do status quo. Também através de seus editoriais, os jornais vêm sustentando a legitimidade do lucro. O que antes era tabu, como as imobiliárias e suas operações, hoje é apresentado como “iniciativas de investimento”.

Entretanto, as primeiras ações do ministro de Educação, Nicolás Eyzaguirre, parecem interessantes: nomeou como assessores na semana passada dois ex-dirigentes estudantis de esquerda. O ex-presidente da FECH (Federação de Estudantes da Universidade do Chile) nos anos 90, Rodrigo Rocco, ex-comunista, que até agora trabalhava na  Universidade do Chile, e Miguel Crispi, ex-presidente da Federação de Estudantes da Universidade Católica (FEUC), muito próximo do recém-eleito deputado Giorgio Jackson e fundador com ele do movimento Revolução Democrática.

EC – Seu posicionamento é contra o lucro na educação ou simplesmente o benefício ilícito que se produz no Chile?
María Olivia – Creio que não pode nem deve haver lucro na educação. E não só na universitária. O quanto antes deve-se pôr fim ao lucro com recursos públicos, como vem ocorrendo com os créditos com aval do Estado e com as subvenções no caso dos colégios. Tampouco creio que deveria ser permitido nos institutos profissionais, nem nos centros de formação técnica, como ocorre hoje.

*Com tradução do espanhol por Clarinha Glock.
** O Livro Com fines de Lucro está disponível apenas em espanhol e o e-book pode ser adquirido aqui

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