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07/04/2014
AMBIENTE

Augusto Carneiro, pioneiro da Agapan, morre aos 91 anos

Ele era uma das principais referências do ambientalismo gaúcho e sua trajetória se transformou em livro, escrito pela jornalista Lilian Dreyer e lançado na última Feira do Livro
Por Cristiano Goldschmidt
Augusto Carneiro, pioneiro da Agapan, morre aos 91 anos

Foto: Igor Sperotto

Ambientalista foi um dos fundadores da Agapan

Foto: Igor Sperotto

O ambientalista Augusto Cesar Cunha Carneiro, faleceu aos 91 anos na madrugada do dia 07 de abril, no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, onde estava hospitalizado no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) desde fevereiro. Ele foi dos fundadores da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), em 1971, junto com José Lutzenberger, ambos considerados pioneiros do ambientalismo no Rio Grande do Sul.

Na manhã de sua morte, seu perfil no facebook trazia um texto em homenagem ao ecologista. Um trecho dizia: “Augusto Carneiro viveu para salvar um número incontável de seres vivos, em sentido literal e figurado. Pouca gente no mundo tem tão extenso currículo de iniciativas e de envolvimento, total e apaixonado, na defesa da Vida. A Vida boa, digna de ser vivida. Desde que a Rosa, sua derradeira esposa, morreu, ele volta e meia dizia coisas assim: “quando eu for atrás da Rosa…”. Esperou um ano, esperou dois, aí deu mais três dias e zummm! Pegou o rumo, foi gastar as sandálias em outras estradas, no pó das estrelas…”

Histórico
Berço da nacionalmente pioneira Agapan, o Rio Grande do Sul possui uma expressiva lista de ecologistas da qual Augusto Carneiro fez parte e protagonizou, a maioria deles contemporâneos de José Lutzenberger, o mais conhecido do grupo. Antes deles, no entanto, dois nomes chamaram a atenção por suas iniciativas, mesmo que individuais, na defesa da fauna e da flora de nosso estado. O padre Balduíno Rambo, que não era geólogo, paleontologista ou geógrafo de profissão – como ele próprio gostava de frisar –, com sua obra A Fisionomia do Rio Grande do Sul, editada pela primeira vez em 1942, apresenta uma consistente radiografia do estado. Traçada durante dez anos de pesquisa e minuciosas observações, sua finalidade, conforme consta no prólogo da primeira edição, é descrever fielmente o Rio Grande do Sul, atendendo três aspectos: o científico, porque a monografia natural necessita do fundamento das ciências naturais; o didático, pois se propõe a orientar sobre as ‘cousas rio-grandenses’; e o aspecto estético, já que a monografia “deve corresponder à beleza natural das paisagens”.

Contemporâneo de Rambo, o ambientalista Henrique Luís Roessler, falecido em 14 de novembro de 1963, se notabilizou por combater a ação de caçadores, desmatadores e empresas poluidoras do Rio dos Sinos e adjacências a partir dos anos 1940. Funcionário público de São Leopoldo, Roessler trabalhou para a Capitania dos Portos da Marinha desde 1939. Em 1944, assumiu como Delegado Florestal Regional, cargo vinculado ao Ministério da Agricultura. Apesar de ser uma função não remunerada, o título lhe oportunizava confeccionar panfletos e cartazes para conscientizar a população a respeito dos problemas resultantes da caça e pesca predatórias, mortandade de peixes a partir do despejo de águas usadas na irrigação de lavouras e a matança de passarinhos, bastante comum à época. No entanto, foi como articulista do jornal Correio do Povo, no qual publicou 301 crônicas, alertando sobre os impactos da ação humana no meio ambiente, que Roessler conquistou um número expressivo de admiradores, dentre os quais Augusto Carneiro, que viria a ser um dos principais nomes da geração seguinte de ecologistas, ao lado de José Lutzenberger.

Augusto Carneiro, pioneiro da Agapan, morre aos 91 anos

Foto: Igor Sperotto

Maio de 2013: Augusto Carneiro (camisa xadrez) militou pelo meio ambiente até o fim de sua vida

Foto: Igor Sperotto

Influenciado por Roessler e herdeiro de vasto material gráfico por ele produzido, Carneiro foi o responsável pela organização, manutenção e principal articulador da Agapan, cujas ações em defesa do meio ambiente marcariam a cultura de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. O ambientalista Francisco Milanez, biólogo, arquiteto e ex-presidente da entidade, e que trabalha junto ao governo do estado com a criação e coordenação do Plano Rio Grande do Sul Sustentável), diz que, com persistência e determinação, Carneiro conseguiu manter a Agapan com uma memória hoje valiosa para o estudo do passado. Colecionador de documentos, fotografias e recortes de jornais, é graças a Carneiro que se preservam os registros do início do movimento ecológico no Brasil. “Como grande pesquisador, ele sempre lutou para recompor a memória de Roessler, que hoje é amplamente reconhecido”, avalia Milanez.

Livro

Capa do livro da jornalista Lilian Dreyer, que conta a vida de Augusto Carneiro

Imagem: Divulgação

Capa do livro da jornalista Lilian Dreyer, que conta a vida de Augusto Carneiro

Imagem: Divulgação

Nos tempos da faculdade, a jornalista Lilian Dreyer lia os textos de Lutzenberger, que circulavam em xerox. Interessava-lhe a maneira como escrevia sobre a natureza e como ele propunha a mudança de certos paradigmas. Os textos faziam sentido e provocavam um encantamento na jovem estudante. Assim, ao longo do tempo ela foi colecionando os artigos. Ao organizá-los numa sequência, viu que o farto material poderia resultar em livro. Bateu então na casa de Lutzenberger e, desse encontro, nasceu a obra Do jardim ao Poder. A empatia recíproca acabou por aproximá-los. Dali em diante, Lutzenberger a procurava sempre que desejava publicar e a parceria entre os dois rendeu vários títulos.

Na mesma época, Lilian Dreyer conheceu Augusto Carneiro. Mas foi só recentemente  e depois de finalizar dois outros projetos, que conseguiu revisitar sua trajetória, num trabalho que lhe exigiu dedicação exclusiva. Para a jornalista, “a história do Carneiro e do Lutz eram sobrepostas, de tanto que eles atuavam em sintonia, a ponto de muitas vezes não se saber quem havia protagonizado determinado episódio”. Em novembro de 2013, o ambientalista voltaria à Feira e à Praça da Alfândega como personagem de livro. É protagonista de Augusto Carneiro – depois de tudo – um ecologista, obra que resultou de um trabalho de dois anos antes da jornalista, autora também de Sinfonia Inacabada – a Vida de José Lutzenberger (lançado em Porto Alegre, Manaus, Salvador e Rio de Janeiro). Motivada pelo peso e pela proximidade da ação dos dois ambientalistas, Lilian debruçou-se sobre as memórias e os arquivos de Carneiro, captando daí os elementos para compor o que ela classifica como um “retrato biográfico”.

“Quando Augusto Carneiro nasceu, em 1922, a área onde depois seria erguido o Estádio Olímpico, do Grêmio, ainda era zona de trânsito de animais silvestres”, conta Lilian. Ela assinala que o ambientalista amava animais, mas a infância em meio à natureza exuberante, no então bucólico bairro da Glória, em Porto Alegre, não foi propriamente uma bênção. Carneiro foi testemunha involuntária de inúmeras agressões a animais e o matraquear de espingardas de caça frequentemente o impedia de brincar na rua. Ele cresceu assustado com seu meio cultural, que em seu modo de ver aceitava também violências contra crianças, jovens, mulheres e negros. “O desejo de opor-se a isso o constituiu”, define Lilian.

Ainda adolescente, Carneiro tornou-se um ativista antirracista e antifascista, o que o levou à adesão ao Partido Comunista Brasileiro. Militante durante anos, afastou-se do partido por desencanto com o que entendeu como “desvirtuamento do regime comunista”, especialmente o soviético, de que chegou a ser colaborador direto. Mas esta proximidade fez com que descobrisse a profissão de livreiro. Como administrador da Livraria Farroupilha, ligada ao PCB, Carneiro viria a integrar o time de 14 pioneiros que, em 1955, promoveu a primeira Feira do Livro de Porto Alegre. O trabalho com livros nunca mais cessou e representou uma ponte para outras formas de pensar o mundo, tornando-o receptivo ao ideário e ao ativismo ecológico de Henrique Luís Roessler e, mais tarde, José Lutzenberger.

Augusto Carneiro participa de ato em Defesa de uma Política Ambiental e Apoio à Operação Concutare em frente a sede da Polícia Federal, em maio de 2013 na capital

Foto: Igor Sperotto

Augusto Carneiro participa de ato em Defesa de uma Política Ambiental e Apoio à Operação Concutare em frente a sede da Polícia Federal, em maio de 2013 na capital

Foto: Igor Sperotto

Servidor concursado do Tribunal Regional do Trabalho, Carneiro se aposentou em 1981 e passou a dedicar tempo integral à luta ambiental, destacando-se pela defesa das árvores. “Começou com a Agapan e seguiu a vida toda defendendo a arborização da cidade, constantemente agredida por motivos fúteis”, acrescenta Milanez. “Através de seu contínuo trabalho de ‘panfletagem’ em sua banca de livros na feira ecológica, aos sábados, na José Bonifácio, em Porto Alegre, será sempre lembrado como um exemplo de humildade, perseverança, dignidade, sinceridade e coragem”, conclui.

Depoimentos
“Eu conheci o Carneiro quando assumi como Secretário da SMAM, em 1996. e instalamos o primeiro Conselho Municipal de Meio Ambiente de POA. Ele era membro do COMAM, muito ativo. Me impressionou a contundência dele contra as podas indiscriminadas. Ele conhecia as situações mais do que os técnicos da SMAM. Direto, sem papas na língua, mas sempre muito equilibrado, nas situações mais tensas. Sempre que vejo alguma agressão à arborização urbana (aqui em Brasília tem muitas), me lembro do Carneiro. Depois, vieram as lutas contra o Sambódromo no Parque da Harmonia, e em defesa do Morro do Osso. Eram tempos em que no nosso meio político, havia muito preconceito e estigmatização contra os ambientalistas. Já quando criamos a SEMA, naqueles bons tempos dos Fóruns Sociais Mundiais, interagi muito com ele e com o Lutz, entre outros militantes daquela que foi (e é) a melhor geração do ambientalismo gaúcho, e pude enxergar a importância da sua trajetória política ímpar, na política, no ambientalismo e na luta contra o racismo. Quando eu estava no MMA, sempre procurava programar minhas idas a POA para poder passar na Feira Ecológica no sábado pela manhã para encontrar o Carneiro e atualizar as conversas. O ciclo de diálogos sobre o movimento ambientalista gaúcho promovido com ele na ARI, no início dos anos 2000, foi uma grande e emocionante oportunidade para poucos – aqueles depoimentos merecem uma publicação. Singelo, mas com uma grande formação intelectual. Combativo, mas terno. Firme, mas flexível. Sempre aberto aos novos ventos. Esse é o Augusto Carneiro”. Claudio Langone – Consultor em meio ambiente e sustentabilidade Ex-secretário da SMAM/POA, primeiro Secretário da SEMA/RS, foi Secretário Executivo do MMA na gestão de Ministra Marina Silva.

“Tive a grata oportunidade de conhecer o Augusto Carneiro não apenas como militante ambientalista, mas também como pessoa e como intelectual, com um profundo envolvimento com as principais questões da atualidade. Como militante ambientalista, ele nos ensina a necessidade da persistência, de buscar o conhecimento das diversas nuances que envolve cada tema, de aproximar, mas sem perder a noção do todo e, principalmente, acionar o bom senso em sua radicalidade máxima. Convivi intensamente com ele entre os anos de 1974 e 1976 e nunca esqueço suas palavras ao me despedir dele quando retornei para Minas Gerais: Minas é a terra das montanhas, de muitas nascentes. Não deixe que a exploração dos minérios acabe com suas águas. A experiência que tive com ele venho repassando a entidade para a qual trabalho desde os anos 1980, na luta contra o avanço das monoculturas de eucalipto sobre os cerrados e, agora, enfrentando a cobiça da mineração que quer avançar sobre as montanhas que geram suas parcas e preciosas águas para o sertão. Lembrando do trabalho miúdo e persistente, vendendo seus livros, repassando suas ideias, por aqui vamos interagindo com os povos desde os gerais até as vazantes sanfranciscanas, na defesa de seus territórios, de suas águas, de suas múltiplas vidas” – Carlos Alberto Dayrell – Engenheiro Agrônomo – Ficou conhecido nacionalmente ao subir em uma Tipuana da Faculdade de Direito da UFRGS, em 1975, evitando seu corte para o alargamento da Av. João Pessoa. Atualmente integra o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas/ Montes Claros MG.

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