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20/10/2016
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Como Sergio Moro pode se salvar

Como Sergio Moro pode se salvar

Fotos: Nelson Jr./ABr (esq) e Lula Marques/AGPT (dir)

Fotos: Nelson Jr./ABr (esq) e Lula Marques/AGPT (dir)

Sou contra – radicalmente contra – qualquer iniciativa que sugira o desejo de afastamento do juiz Sergio Moro da Lava-Jato. Sergio Moro é o juiz da direita, pelo menos até agora, enquanto a própria direita é preservada. Ser da direita, por enquanto, não significa necessariamente ser de direita.

Mas Sergio Moro deve ter a chance de mostrar, apesar de ter sido eleito pelo Brasil mais reacionário e antiPT e antiesquerda como o super-herói dos golpistas que derrubaram Dilma (e dos que pretendem esfarelar qualquer projeto progressista nos próximos anos, ou décadas), que há um equívoco em transformá-lo em ídolo da direita.

Não pode ser negada a Moro a oportunidade de provar que estão errados a seu respeito. E que todos os que desconfiam de suas intenções, à esquerda, e os que confiam demais em suas decisões, à direita, são ingênuos ou mal-intencionados.

Que os apostadores na sua parcialidade e os que a temem vão se dar mal. Que a prisão de Eduardo Cunha não é um truque para pedir depois a prisão de Lula. E que o Judiciário terá, em seus próximos gestos, atitudes de engrandecimento da instituição e das leis, do estado democrático e de todos os clichês que se repetem nessa linha.

E como então Sergio Moro pode escapar da enrascada de ser marcado para sempre como o juiz adorado pela direita? Primeiro, deve evitar o que Joaquim Barbosa fez, depois de julgar o mensalão do PT, pedir aposentadoria precoce e deixar a faxina incompleta.

Sergio Moro não pode ser um segundo Joaquim Barbosa e largar a Lava-Jato pelo caminho, mesmo que continue em atividade como magistrado. Moro sabe que terá de pegar a direita, não só a do PMDB que será delatada por Eduardo Cunha, mas principalmente a direita tucana corrupta.

Só assim não será mais um Barbosa. Celebrado pelos conservadores, depois de se afastar do Supremo, Barbosa transformou-se em comentarista de Twitter.

Quando a torcida esperava que Barbosa fosse o grande pensador do Judiciário, com longos e complexos textos sobre a restauração da ordem no Brasil, o juiz do mensalão começou a fazer o que qualquer um faz: dispara comentários de 140 toques sobre algum assunto, mas geralmente depois que qualquer leigo comentou o fato por ele comentado.

Barbosa virou um comentador do senso comum, um repetidor de análises prontas, previsível e repetitivo. Não há nada de aproveitável nos comentários de Joaquim Barbosa que já não tenha sido dito antes pelo seu Mércio, guarda de rua na Aberta dos Morros.

E Moro? Alguns dizem que Moro não teria condições nem mesmo de ser um comentarista de Twitter. Que Moro seria apenas um juiz mediano, com voz travada, consumido pela ideia de que recebeu uma missão quase religiosa que o consagrará internacionalmente.

Dizem até que Moro não consegue copiar o que há de mais elementar na Operação Mãos Limpas da Itália. Que sua única tática é a prisão preventiva que desmoraliza o encarcerado até a delação. E que ninguém (com exceção de grupos de procuradores e juízes corajosos), mesmo no Supremo, se atreve a questionar seus métodos, para não passar a imagem de que conspira contra a caçada aos corruptos.

Por tudo isso, sou contra o afastamento de Sergio Moro da Lava-Jato, como propõe um abaixo-assinado que corre na internet. E não concordo que se recorra à ONU ou a qualquer organismo internacional com o argumento de que ele se dedica apenas a uma caçada implacável contra Lula e o PT. Por enquanto, não.

Deixem Moro ir adiante. Ele deve ter a oportunidade de provar que pega grandões da direita. Mas não Cunha. Nem Temer (que pode ser a próxima vítima, para que o PSDB faça o golpe dentro do golpe). Moro tem condições de chegar aos tucanos, que articulam o grande projeto de poder da direita no Brasil.

Sabe-se que não pode, ainda, chegar a Aécio e Serra, por exemplo, porque ambos têm foro privilegiado. Mas pode chegar a outros que levem aos chefes do ninho e – e que as altas cortes se encarreguem do resto.

Moro, que liberou Pedro Barusco para sua boa vida em Angra, sem esclarecer de quem eram os US$ 98 milhões que ele guardava (até seu Mércio sabe que o dinheiro não era do Barusco), está na encruzilhada da Lava-Jato. Ou segue em frente, mas andando também para outros lados, ou se firma como justiceiro.

Sabemos que pode continuar agindo como agiu até agora e pegar Lula, sem pegar mais ninguém além de Cunha e outras galinhas mortas.

Mas eis a questão: Moro será mesmo um impulsivo incontrolável a ponto de enfiar a mão, a cabeça, seu futuro e sua história apenas na cumbuca da prisão de Lula? Ou tem a ambição e o destemor de entrar nos pântanos da direita impune que o idolatra?

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