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13/10/2017
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Os imitadores de Sérgio Moro

Os imitadores de Moro

Foto: Divulgação

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Alastra-se pelo Brasil uma aberração que já estava prevista entre os possíveis efeitos colaterais da Lava-Jato e do golpe de agosto. Os imitadores de Sérgio Moro proliferam como galgos em caçadas moralistas. São servidores da Polícia, do Ministério Público e do Judiciário inspirados na Justiça ‘liberal’ da força-tarefa de Curitiba.

Herdaram legados do sistema operacional da guerra que ajudou a derrubar Dilma Rousseff e continua a inspirar a perseguição a Lula e a tudo que for considerado de esquerda, em toda parte, nas escolas, nas exposições de arte, no jornalismo.

Mas não precisa ser do PT para cair na teia dos imitadores de Sergio Moro. O reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, sem nenhuma ligação formal com partidos ou militâncias, foi cercado e acabou se matando.

Em nome da cruzada contra a corrupção na universidade, Cancellier acabou preso e impedido de entrar no campus. Não era ladrão e não havia nada contra ele além da acusação de obstrução de Justiça, porque agora tudo passa pela denúncia de obstrução de Justiça. Mas ele foi encarcerado e humilhado.

Cancellier cometeu suicídio porque já estava condenado. Seria visto em Santa Catarina, e não só na universidade, como um corrupto. A tática consagrada pela Lava-Jato é devastadora.

As associações de delegados federais, de promotores e de juízes, em reação corporativa, emitiram nota em defesa da ação. A nota diz: “Ao contrário do que vem sendo afirmado por quem quer se aproveitar de uma tragédia para fins políticos, no Brasil os critérios usados para uma prisão processual, ou sua revogação, são controlados, restritos e rígidos”.

Critérios controlados, restritos e rígidos? Sim, negros, pobres (muitas mulheres e adolescentes) e delinquentes de pequeno porte conhecem bem esses critérios. As cadeias brasileiras estão cheias de gente especialista nos métodos controlados, restritos e rígidos das instituições.

A nota das associações esperou e não obteve o aval das vozes que potencializam as caçadas punitivistas no Brasil, principalmente na imprensa. Os jornalistas amigos ficaram quietos e constrangidos. Ninguém se levantou em defesa do que Polícia, Ministério Público e Justiça fizeram para acossar o ‘perigoso’ reitor.

Os mesmos critérios enaltecidos pela nota corporativa das autoridades devem ter levado a polícia, com autorização da Justiça de Paulínia, à casa de um filho de Lula, porque alguém denunciou anonimamente (denunciou mesmo?) que havia consumo de droga.

Marcos Cláudio Lula da Silva teve computadores e documentos apreendidos. Ele não seria traficante, mas consumidor. Polícia e Justiça de Paulínia caçam todos os consumidores de drogas da cidade em suas casas?

E se os delegados aderirem à moda de Paulínia e saírem a caçar, não os traficantes de cocaína (os de gravata e de helicóptero nunca serão caçados), mas os consumidores de maconha? E se os filhos e parentes de gente das esquerdas se transformarem em alvo de operações em massa de policiais e juízes em busca de manchetes e fama a serviço da direita?

Há no Brasil (converse com quem é da área) um ambiente favorável a conluios entre um delegado da cidadezinha e um juiz amigo, desde que eles entendam que fazem a coisa certa e nos ‘limites’ do que a lei permite. A onda agora é imitar a força-tarefa de Curitiba. Qualquer um pode fazer seu espetáculo e ganhar manchete.

O show dos imitadores é assistido de longe pelos pensadores liberais brasileiros. A Lava-Jato e seus atos de exceção anestesiaram o chamado centro democrático. As imitações prosperam em meio a silêncios e omissões.

Calaram-se as vozes que poderiam enfrentá-las. Acovardaram-se os representantes de uma classe média envergonhada pelo apoio ao golpe. Encaramujaram-se os estudantes. Sumiram das ruas ou envelheceram precocemente os manifestantes do inverno de 2013.

Mas aguardem. Os imitadores de Sérgio Moro irão um dia bater em outras portas. Se ficarem à vontade, chegarão às casas de parentes não só de lideranças da esquerda. Delegados e juízes tramam, onde menos se espera, gestos que lhes garantam visibilidade e o respeito do golpe.

Os genéricos de Sergio Moro buscam cumplicidade, fama e ascensão profissional. A disseminação do terror institucionalizado, em um ambiente de fragilização da democracia, é a sequência do projeto que derrubou Dilma e persegue Lula.

Se não forem contidos, continuarão derrubando portas e fuçando em gavetas atrás de provas de obstrução e de maconha ou de algo que lhes assegure um agrado ou a confiança dos que estão no poder. O Brasil está montando uma fábrica de justiceiros de imitação.

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