EDUCAÇÃO

Maioria dos professores do colégio Americano adere à paralisação de um dia

Atrasos salariais, não depósito do FGTS e não pagamento das multas são alguns dos problemas elencados para justificar o protesto em uma das mais tradicionais instituições de educação básica de Porto Alegre
Por Valéria Ochôa / Publicado em 27 de junho de 2019

Foto: Divulgação

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“Estamos vivendo nesta situação há dois anos. Só que agora não dá mais pra aguentar. Além de sofrermos os reflexos financeiros pelos frequentes atrasos salariais, estamos ficando doentes”, desabafou uma professora que aderiu à paralisação de um dia, deliberada pela Assembleia dos Professores na noite desta quarta-feira, 26. “Sabe o que é ficar dois anos sem férias porque o salário só foi pago em março, no início do ano letivo?”.

O Colégio Americano tem 133 anos e integra a rede metodista de educação. É um dos primeiros colégios privados de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O corpo docente é formado por 90 professores. Em 2019, foram realizadas 1.430 matrículas da educação infantil ao ensino médio. Em Porto Alegre, integra a rede metodista o Centro Universitário (IPA), que também ainda não pagou o salário de maio aos seus professores.

Segundo os professores do Americano, além dos frequentes atrasos nos pagamentos dos salários desde 2017, o Colégio não paga as multas pelos atrasos nos pagamentos, não cumpre os acordos salariais e não deposita o FGTS. “Está virando uma bola de neve”, avalia um professor que também aderiu à paralisação. A decisão pelo protesto foi tomada após a instituição descumprir o compromisso de integralizar o salário de maio no último dia 25 de junho, jogando, agora, o pagamento para o dia 5 julho.

Os professores que aderirem à paralisação estão se reunindo na sede do Sindicato dos Professores (Sinpro/RS). “Uns três ou quatro apenas não paralisaram”, contam.

O Sinpro/RS vem acompanhando e assessorando os docentes desde o início, tanto do colégio Americano como de toda a Rede Metodista de Educação do Sul. “Sempre tentamos buscar uma solução negociada para os recorrentes problemas financeiros e judiciais da instituição. A interlocução com a gestão, centralizada em São Paulo, é muito difícil e os dados da situação da rede metodista não são esclarecidos”, explica Margot Andras, diretora do Sinpro/RS. “O Sindicato já recorreu a todas as instâncias possíveis, inclusive, acionando os bispos da Igreja Metodista”.

Em nota enviada aos pais e responsáveis de estudantes do Colégio, o Instituto Metodista de Educação e Cultura, entidade mantenedora do Colégio Metodista Americano, informou que “tem realizado intensos esforços na regularização do pagamento de salários e compartilha sua expectativa para mudanças positivas nesse cenário em breve. Independentemente de qualquer situação de dificuldade passageira, o Instituto Metodista de Educação e Cultura e seu corpo docente, discente e administrativo sabem o valor que a Instituição constrói e possui na sociedade de Porto Alegre. Continua, dessa forma, prezando pelos valores Metodistas de confessionalidade, como também pela qualidade no ensino, demonstrado nos resultados positivos que se desenham para o cenário futuro como, por exemplo, a inovação dos projetos pedagógicos na educação básica”.

Apoio dos pais e responsáveis

“É importante que a pais e responsáveis de estudantes entendam o que está acontecendo para que possamos juntos defender a manutenção do Colégio, que respeitamos e gostamos tanto de trabalhar”, destaca outra professora.

Ela conta que, nas inúmeras vezes em que recorreram à direção, ouviram que era para “terem fé em Deus. Acreditar que tudo daria certo”. “Onde fica nossa dignidade diante de explicações tão vagas?”.

“Hoje me sinto mais uma vez entristecida. Em meio ao caos do país, o caos causado na vida pessoal e financeira de um grupo de trabalhadores da educação nos coloca em foco. Seremos condenados por alguns, compreendidos por outros, mas ninguém que não tenha passado por esses últimos dois anos de salários atrasados, férias sem dinheiro para descansar devidamente, sabe exatamente a dimensão do estrago e do desgaste físico e emocional. Como professora, estar em casa hoje, sem cumprir meu papel com os alunos e alunas que tanto amo, é uma das coisas mais difíceis que já vivi. Estamos nos expondo a críticas e a julgamentos porque já não era possível, endividados e exaustos, seguir sorrindo como se tudo estivesse bem. Espero que, de alguma forma, não estar em sala de aula hoje, seja educativo para que se valorize mais a educação, em todas as dimensões”.

Depoimento da professora Simone Horlle de Campos
nas redes sociais nesta quinta, 27.

 

 

Nota da editora: os professores ouvidos preferiram não se identificar por medo de represálias.

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