CULTURA

Pelas páginas de Erico Verissimo

Livro do professor Márcio Miranda Alves traz uma contribuição para a leitura e análise de O Tempo e o Vento tecendo uma fronteira entre literatura e história, por meio dos jornais reais e ficcionais
Por Wagner Coriolano de Abreu* / Publicado em 21 de agosto de 2019

Foto: Arquivo Nacional/Reprodução

Foto: Arquivo Nacional/Reprodução

Erico Verissimo e o jornalismo: fontes para a criação literária (Paco Editorial, 2019), do professor Márcio Miranda Alves (Universidade de Caxias do Sul), traz uma contribuição para a leitura e análise de O Tempo e o Vento, romance em três partes – O Continente, O Retrato e O Arquipélago, editado em sete volumes. O autor explora o trabalho de citação por dentro do romance, tecendo uma fronteira entre a literatura e a história, por meio dos jornais consultados pelo escritor e dos jornais existentes apenas no mundo ficcional da obra.

Erico ainda era vivo quando saiu a coletânea Contador de histórias (Globo, 1972), sobre sua vida e trajetória de escritor, com textos de acadêmicos, escritores e críticos literários, trabalho que se antecipou a uma proliferação de estudos críticos das últimas décadas. Àquele elenco reunido por Flávio Loureiro Chaves, veio se juntar depois o nome de Maria da Glória Bordini, cuja dedicação à obra de Erico Verissimo se tornou notória, sendo responsável por inúmeros estudos e preservação do arquivo literário.

Foto: Reprodução

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Partindo de uma experiência de leitor de ficção, Márcio Alves retorna ao campo do jornalismo para mostrar como o escritor se vale de periódicos em busca da verossimilhança no romance, mesmo que tenha um olhar crítico sobre o material recolhido dessa imprensa e de revistas ilustradas. No capítulo que trata da relação entre Imprensa e Literatura, Alves examina o episódio Chantecler (O Retrato) à luz de reportagens da revista L’Illustration, levado pelo personagem Rodrigo Cambará, leitor desta publicação. Em nota de rodapé, informa que a referência constante a textos da revista está prevista no projeto de criação, de acordo com uma agenda do escritor. Ao final de Erico Verissimo e o jornalismo, há uma “relação dos episódios, principais eventos e títulos de jornais, revistas e almanaques citados no romance O Tempo e o Vento”.

Ao pesquisador de arquivos e jornais, distante da historiografia e temáticas sul-rio-grandenses, o livro contribui como registro da vivacidade que o jornalismo carrega para dentro da literatura e/ou que a literatura resgata do jornalismo, do bom jornalismo. E também pela forma como o autor recoloca a história do Rio Grande do Sul, de modo panorâmico e didático, através de cenas do romance construídas com registros de jornais da época, os quais teve o cuidado de consultar em arquivos e coleções de periódicos no Rio Grande do Sul, em São Paulo e na Alemanha.

 

*Wagner Coriolano de Abreu é professor de literatura e pesquisador. Licenciado em Letras, com mestrado e doutorado em Teoria da Literatura, autor de Quando o teatro encena a cadeira (Unisinos, 2001) e Sempre aos pares (Carta Editora, 2012), leciona na Oficina de Literatura do Projeto Guardiões da Água (Secult/Semae), em São Leopoldo

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