CULTURA

Renato Dornelles e Tatiana Sager lançam Paz nas prisões, Guerra nas ruas

Livro-reportagem investiga organização das facções e mostra como as gangues produzem violência do lado de fora dos presídios
Por Gilson Camargo / Publicado em 9 de dezembro de 2021

Foto: Falange/ Divulgação

Novo livro aprofunda investigações sobre a relação entre o que ocorre dentro dos presídios e a criminalidade nas ruas, com ênfase no Central, uma prisão há décadas abandonada pelo Estado e sob o controle das fações

Foto: Falange/ Divulgação

Para produzir o livro-reportagem Paz nas Prisões, Guerra nas Ruas (Falange, 264 p.), os jornalistas Renato Dornelles e Tatiana Sager mergulharam de cabeça na mais degradada das cadeias do Rio Grande do Sul, o Presídio Central, rebatizado de Cadeia Pública pela Secretaria de Segurança – uma prisão há décadas abandonada pelo Estado e sob o controle das fações do crime.

O livro será lançado nesta sexta-feira, 10, Dia Internacional dos Direitos Humanos, às 19h, no Centro Municipal de Cultura, em Porto Alegre. Apresenta um raio-x detalhado dos gargalos e desafios da segurança pública e do sistema prisional no estado ao investigar o surgimento, a organização e as formas de atuação das facções nos presídios: toda a tensão produzida no interior das gangues e na rivalidade entre elas explode em violência nas ruas.

Foto: Gabriel Sager Rodrigues/ Divulgação

A partir de investigação de mais de uma década, autores já produziram livros, documentário, longa e série de tevê

Foto: Gabriel Sager Rodrigues/ Divulgação

Os autores encaram a publicação como uma grande reportagem, resultado de 13 anos de trabalho. Além de compilar dados oficiais sobre violência e criminalidade, a obra apresenta entrevistas exclusivas com autoridades, detentos, menores infratores, ex-apenados e mães de presidiários e descreve em detalhes os principais episódios que marcaram o avanço das estatísticas da violência em solo gaúcho.

Dornelles, ex-repórter da editoria de Polícia do jornal Zero Hora investiga as origens das facções do crime forjadas principalmente nas celas do Central, mas com ramificações por outras casas do sistema prisional gaúcho.

O livro reconstitui as aventuras e fugas dos líderes mais conhecidos, como Dilonei Francisco Melara e a invasão do Hotel Plaza São Rafael com reféns a bordo de um táxi e que durou três dias, em julho de 1994; e de Claudio Adriano Ribeiro, o Papagaio, “campeão de fugas” de presídios no RS. Assaltante de bancos e carros-fortes, Ribeiro atuou até como consultor de quadrilheiros catarinenses para explodir caixas eletrônicos. Na narrativa, estão retratadas figuras não menos famosas e emblemáticas do crime no estado, como Humberto Brás de Souza, o Carioca; Vitor Mahuz Fonseca, o Vico; Jorge Luiz Devitz, o Piá, Papagaio, João Clóvis de Oliveira Vieira, o Topo Gigio, Celestino Linn.

“A rigor, Melara foi o primeiro a conseguir efetivamente criar uma organização dentro dos presídios gaúchos”, revela o jornalista.

Trilogia

O livro é complementar a outras realizações dos autores. O documentário Central – o poder das facções no maior presídio do Brasil, a dupla trouxe à tona os problemas gerados pelo encarceramento em massa dentro e fora das cadeias. O livro apresenta agora a relação direta entre o domínio dos presídios pelas facções e a criminalidade nas ruas.

Em 2008, Dornelles já havia incursionado pelo submundo das facções gaúchas e escreveu Falange Gaúcha, que mapeou o crime organizado no estado. “A ideia de um novo livro surgiu juntamente com a finalização do primeiro, Falange Gaúcha. Já naquela época, entre 2006 e 2008, eu percebia mudanças no sistema prisional e criminalidade nas ruas. Quando comecei a trabalhar com a Tatiana Sager, no curta-metragem O Poder Entre as Grades, e por saber que ela sempre teve grande interesse no assunto, idealizei um livro escrito a quatro mãos. O projeto foi consolidado com as produções do longa-metragem Central e da série de TV Retratos do Cárcere”, relata.

Foto: Falange/ Divulgação

Foto: Falange/ Divulgação

O livro Paz nas prisões… marca a estreia da jornalista Tatiana Sager como escritora. Ela ressalta a abordagem que o livro traz sobre o papel das mulheres no sistema carcerário. “O universo feminino é bastante amplo no sistema prisional. A mulher está inserida de diferentes formas: como apenada, servidora e visitante. Em todas as formas, há questões de gênero que tornam o envolvimento peculiar e mais dramático, quando comparado ao masculino. No caso das apenadas e das mulheres familiares que realizam visitas, os estigmas, preconceitos e estereótipos são ampliados”, aponta Tatiana.

A apresentação é do cientista político Bruno Paes Manso, autor do livro A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, e o prefácio do sociólogo Michel Misse. Flávio Ilha assina a edição e Weldey Fey, a revisão. A capa e as ilustrações são de Gilmar Fraga. O projeto gráfico foi produzido por Paola Rodrigues. O livro conta ainda com uma seção de fotos captadas dentro das celas do Presídio Central de Porto Alegre pelo juiz de execuções penais Sidinei Brzuska, titular da 3ª Vara Criminal de Porto Alegre.

“O livro relembra desde os tempos em que as bocas eram tocadas por pequenos vendedores, isolados entre si, o surgimento das primeiras gangues, como a Falange Gaúcha, Os Manos e Os Brasas, vinculadas ao cárcere, até o período em que os conflitos explodem nos bairros em torno de grupos como os Bala na Cara (BNC) e os Antibala. Prenda a respiração e encare esta obra imprescindível. Afinal, para superar, só nos resta compreender”, adianta Bruno.

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