Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 066 | Ano 7 | Out 2002
ENTREVISTA | JOHN B. THOMPSON

Paulo César Teixeira

Nascido em Miniapolis (Estados Unidos), o professor John B. Thompson está radicado na Inglaterra desde 1970. Aos 51 anos, leciona Sociologia na Universidade de Cambridge e tenta desvendar os meandros das relações da mídia com o poder e as instituições. Ganhou o prêmio Amalfi, um dos mais importantes na área de Ciências Sociais, na Europa. No Brasil, tem três livros publicados – “Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa”, “A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia” e “O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia”, pela editora Vozes. Este último ele lançou na PUCRS, durante o Seminário Internacional de Comunicação “Cultura, poder e tolerância em um mundo complexo”, em setembro. Em entrevista ao Extra Classe, Thompson esmiuça sua teoria do escândalo político e se mostra curioso diante da “especificidade” da política brasileira.

Extra Classe – O fenômeno do escândalo político é um atributo de sociedades desenvolvidas ou é um fenômeno universal?
John B. Thompson
– A idéia do escândalo é muito antiga. Pode ser remetida ao início da era clássica grega e até mesmo ao pensamento judaico. A palavra escândalo surge ainda, no século 16, nas línguas romana, francesa, portuguesa e inglesa. Você pode encontrá-la também na literatura panfletária do século 17 e do século 18. Mas, neste caso, era uma literatura de agressão e blasfêmia contra os monarcas. Uma mudança significativa acontece na virada do século 18 para o 19, quando o termo é desvinculado do sentido de blasfêmia e passa a se referir a um tipo particular de evento, intimamente ligado à imprensa. Temos aí a emergência de um novo fenômeno, que é o escândalo como um evento de mídia. É, portanto, um fenômeno moderno.

EC – Qual é a principal característica do escândalo político?
Thompson
– É o fato de revelar, através da mídia, uma série de atividades que, até então, eram escondidas e caracterizavam alguma forma de transgressão. No século 19, havia uma série de escândalos na Inglaterra, na França e em outros lugares. Então, você situa o século 19 como o local de nascimento do escândalo político. Mas é o século 20 que se torna, de fato, o lar do escândalo político. Uma vez que ele foi inventado, torna-se um gênero narrativo e, logo adiante, uma arma da luta política. Essa arma ganha importância e fica cada vez mais forte a partir da década de 60 por uma série de razões.

EC – Que razões são essas?
Thompson
– Uma delas é o desenvolvimento das tecnologias de comunicação. Os líderes políticos já tinham grande visibilidade através da imprensa escrita. Mas, com o desenvolvimento da mídia eletrônica, em especial a televisão, essa visibilidade se acentua. Eles se tornam personagens com características identificáveis. Cada vez mais, buscam se apresentar como indivíduos comuns. E a questão da personalidade, do caráter, passa a ser mais importante para a vida política. Tudo aquilo que, antes, permanecia oculto nos bastidores da ação política, vem a público com as novas tecnologias de vigilância e investigação – câmeras escondidas, fitas de gravação, grampos de telefone, etc. Com isso, é possível captar, documentar e depois veicular o que está escondido. Neste sentido, a fronteira entre eventos públicos e privados torna-se obscura. Ações e posicionamentos que, até então, os políticos julgavam manter no domínio do privado, passam a ser transmitidos para uma ampla audiência. Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky descobriram o fenômeno na própria carne.

EC – De que forma o escândalo é resultado de uma transformação política?
Thompson
– Há também a mudança da cultura política. A política tradicional estava fundamentada nas diferenças entre as classes sociais. Havia crenças muito fortes e uma nítida oposição entre esquerda e direita. Mudanças estruturais da sociedade contemporânea provocaram um crescimento de fatias do eleitorado não conectadas aos partidos de direita ou esquerda. Surge um novo eleitor, cujas opções políticas não estão comprometidas com as convicções das gerações anteriores. Emerge o que eu chamo de política da confiança. Nesta nova cultura política, o escândalo assume uma significação poderosa, porque coloca em questão a credibilidade dos líderes. Por outro lado, quanto mais os partidos encontram dificuldades de se identificar com as bases da política tradicional (esquerda e direita), mais eles têm que procurar novos meios de se diferenciar um do outro. Se conseguem identificar transgressões de normas praticadas pelos adversários, como corrupção ou abuso de poder, podem usar isso como arma para tirar vantagem política.

EC – O senhor quer dizer que o embate ideológico está condenado a segundo plano? Vale mais a imagem que remete a características pessoais do político?
Thompson
– Não significa que seja uma coisa ou outra. Certamente, continua sendo muito importante que os partidos tenham os seus programas. Mas, junto com isso, a política da confiança tem se tornado mais e mais relevante. Não são coisas que se excluem mutuamente, porque estão intimamente ligadas. O que me parece indiscutível é que a política da confiança se tornou quase inevitável. Tanto mais a concepção de uma política sustentada em classes se dissolve, mais importante se torna a questão do caráter. Se um líder político apresenta uma proposta ou programa, a tendência do eleitor é perguntar: “Afinal, esta pessoa é confiável? Será que manterá a palavra?” A questão da credibilidade se torna cada vez mais ligada à plataforma programática de qualquer político.

EC – Mas o eleitor não corre o risco de ser manipulado pela imagem do político, construída pela mídia? Os escândalos não podem ser forjados ou, pelo menos, explorados por quem domina a mídia?
Thompson
– Sim, você tem toda a razão. A questão que eu exploro é: por que o escândalo ganhou tanta importância? Para entender o problema, você tem que reconstruir a evolução da cultura política. Nas sociedades de democracia liberal, a aquisição e o exercício do poder político dependem de uma outra forma de poder, que eu chamo de poder simbólico. É a capacidade de persuadir e influenciar as pessoas, ou seja, conseguir que os outros acreditem em você. Como se exercita o poder simbólico? Quando você exercita o poder econômico, precisa de dinheiro. Agora, se quiser exercer o poder simbólico, terá que recorrer à reputação, credibilidade, confiança. Só assim terá condições de persuadir os outros. O escândalo é absolutamente perigoso neste contexto, porque ameaça diminuir ou esgotar estes preciosos recursos.

EC – O exemplo da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, ilustra bem este processo de esgotamento da credibilidade?
Thompson
– Quando você olha o caso de Roseana, percebe que, quando o dinheiro foi identificado nos cofres de sua empresa, ela e o marido Jorge Murad tentaram várias vezes dar explicações para o fato, mas faltou credibilidade. Quanto mais eles tentavam explicar, menos crível se tornava a versão que apresentavam. A reputação e a credibilidade dela foram esgotadas. Você pôde perceber isso nas pesquisas eleitorais, com uma queda absolutamente dramática da governadora, em março e abril. Nas hierarquias do próprio partido, o PFL, ficou evidente que ela perdera a credibilidade para persuadir os seguidores que deveriam apoiá-la. Então, teve que se retirar da corrida presidencial.

EC – No Brasil, alguns políticos aparentemente ficam imunes à onda de escândalos que se abate sobre suas carreiras públicas, como Paulo Maluf, em São Paulo. A popularidade do ex-presidente Fernando Collor de Melo, em Alagoas, não demonstra ter arrefecido após o impeachment. A própria Roseana Sarney mantém intacta sua base de apoio no Maranhão. Como explicar estes fenômenos?
Thompson
– Algumas vezes, os recursos do poder simbólico podem ser esgotados permanentemente. A carreira do político é destruída para sempre, como a de Richard Nixon no episódio de Watergate. Mas há casos em que ele se atira a uma luta constante e permanente para reconstruir os recursos danificados do capital simbólico. Na Inglaterra, o exemplo clássico é o de Peter Mandelson, coordenador de mídia e comunicação do Partido Trabalhista. A carreira de Mandelson – uma das lideranças do novo trabalhismo inglês mais próximas do primeiro-ministro Tony Blair – tem sido atingida por um escândalo após o outro. Em certos momentos, ele se retira de cena e começa a trabalhar para reconstruir o capital simbólico. Acredito que o mesmo aconteça no Brasil.

EC – Aqui, alguns políticos, como Maluf, não precisam necessariamente sair de cena. Ao contrário, para setores do eleitorado, seu prestígio permanece inalterado, apesar da avalanche de denúncias contra ele. No Maranhão, Roseana Sarney igualmente preserva a credibilidade.
Thompson
– Embora eu não seja, de forma alguma, um perito nas questões da política brasileira, me parece interessante analisar as conseqüências do escândalo político no Brasil. Creio que é necessário estabelecer diferenças dos níveis regional e nacional. Roseana Sarney perdeu a credibilidade em nível nacional, mas ela tem boas razões para acreditar que, no Maranhão, onde sua família tem uma grande quantidade de capital simbólico acumulado, a situação continua sob controle. Ela pode construir uma campanha política viável, focada para aquela região. O poder simbólico da família Sarney no Maranhão é abundante, mas, por outro lado, é completamente insuficiente na arena nacional. Gostaria de acrescentar que esta me parece ser uma especificidade do cenário brasileiro, que é extremamente curiosa para mim.

EC – O senhor estudou a fundo a relação entre mídia e sociedade, em seus múltiplos aspectos. O que poderia dizer a respeito do papel do educador diante da influência dos meios de comunicação de massa na formação de crianças, jovens e adolescentes?
Thompson
– No âmbito do processo educacional, é preciso que os professores trabalhem mais a natureza e o processo de construção e desenvolvimento das mensagens da mídia. É muito importante romper com a idéia de que a mídia é algo convencional, habitual, quase natural, restrita ao senso comum. É necessário perceber que ela constrói ativamente o mundo em que vivemos. Me parece importante que tenhamos uma atitude reflexiva e uma abordagem crítica a respeito da natureza e do papel da mídia nas sociedades modernas.

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