Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 066 | Ano 7 | Out 2002
NEI LISBOA

Nei Lisboa

Que a coluna deste mês sirva apenas para desejar a todos uma ótima eleição. Não quero influenciar ninguém nessa hora em que a reflexão íntima deve pesar acima de tudo. Aliás, em nome da imparcialidade, ofereço espaço para o contraditório em episódio recente e pouco conhecido da campanha eleitoral – o caso da jornalista Renata Giraldi e da visita do candidato José Serra a Palmas, capital do Tocantins.

No tarde do dia 20 de setembro, matéria assinada pela repórter e veiculada no site da Agência Estado, com o horário de 13h07, descrevia em detalhes o sucesso da visita de José Serra à cidade – a sua participação em carreata por bairros pobres, pela avenida principal, o comício no qual reunira cerca de vinte mil pessoas. Apesar do visível empenho de Renata, no entanto, a extensa reportagem esteve disponível por pouco tempo. No horário de 17h40, surgiria outra matéria com a asinatura da mesma repórter, a qual aqui transcrevo:

“A assessoria de campanha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, informou nesta sexta-feira que foi cancelada a visita dele a Palmas onde participaria de uma carreata e comício. A explicação da assessoria é que o avião de Serra não consegue levantar vôo de São Paulo em função das fortes chuvas que caem na cidade.”

Capisce?

O cineasta Jorge Furtado, que trouxe à baila o assunto através de e-mail distribuído e muito bem documentado, qualifica-o como uma evidência extrema do “jornalismo de oportunidade”, o que suspeito seja um eufemismo para a publicação de mentiras em troca de mufunfa. Jorge, cuidado com a precipitação. Aparentes paradoxos podem derivar de singelos fenômenos naturais. Ou mesmo de preferências exóticas do divino, haja visto a Nossa Senhora dos Vidros do Brasil. Enfim, é aqui que pretendo oferecer, em defesa da Renata Giraldi e da Agência Estado, ao menos três hipóteses que desfazem a inconsistência entre as matérias veiculadas.

A) Qualquer um que assistiu aos episódios da série “De volta para o futuro” sabe que um simples raio pode fornecer a propulsão necessária para uma viagem no tempo. Se no caso do filme o veículo era um carro, o que dizer do avião do Serra, estacionado no aeroporto de Cumbica em meio a uma tempestade? Uma descarga elétrica de exata magnitude poderia levar o aparelho ao passado do mesmo dia em Palmas, e no seu retorno um outro (ou o mesmo) raio talvez apagasse tudo o que acontecera, exceto pela matéria da Renata, escrita durante o comício e guardada no bolso de um assessor do candidato. O que é que a matéria estava fazendo no bolso do assessor? Ora, não compliquem.

B) Estar ou não em determinada hora em algum lugar pode ser bastante relativo. O próprio José Serra já deu mostras disso, estando e não estando na posição de candidato do governo durante a campanha. Mas se acham que a hipótese não se sustenta sem uma referência corpórea, um sósia ou assemelhado que possa ter sido visto e confundido pelos habitantes de Palmas, aviso que a região é dada a ocorrências ufológicas e místicas de espécies variadas. E quem pode dizer onde andará o ET de Varginha?

C) Não é bem uma hipótese que vá inocentá-la, mas pode ao menos gerar alguma compaixão reabilitadora. No mesmo dia, com o horário de 17h41, portanto um minuto depois da notícia do cancelamento da viagem de Serra a Palmas, a Agência Estado publicava a seguinte notícia: “Mulher é presa com 1.036 pedras de crack.”

Pô, pega leve, Renata.

Como eu dizia no início, ótima eleição para todos. E, olha: nos candidatos que eu vou votar, quando se noticia que chegaram lá, é porque já estavam a caminho há muito tempo.

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