Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 078 | Ano 8 | Dez 2003
NEI LISBOA

Teatro lotado até às galerias. Pano fechado, rumores na platéia. Um porta-voz se aproxima do microfone instalado às pressas no proscênio e pede desculpas pelo atraso de trinta minutos.

– Um pequeno imprevisto com a orquestra. Tivemos de suprimir os metais, em função do contingenciamento. Os arranjos já foram reformulados e o espetáculo do crescimento deve começar dentro de breves instantes.

Comoção do público. O porta-voz se retira. Ligeiro tumulto, alguém mais exaltado grita “reformulação neoliberal” e é expulso do teatro. Silêncio. Impaciência. Estranhos ruídos e estrondos vindos de trás da cortina. Depois de outra meia hora, o spalla da orquestra surge no proscênio.

– Peço a compreensão de vocês. Como já devem ter percebido, os juros e o risco-país caíram bastante. Infelizmente, caíram sobre os clarinetes e os oboés. Estamos revendo a situação na tentativa de formar uma orquestra de câmara. Obrigado.

Alvoroço total. Os camarotes puxam o coro de “emprego, cadê você, eu vim aqui só pra te ver”. O teatro é invadido por agricultores sem ingresso, que ocupam o corredor improdutivo central. Os alto-falantes pedem calma e anunciam uma mensagem do patrocinador. Entra o patrocinador, uma senhora com forte sotaque de fundo monetário.

– Apoiamos tudo o que está sendo feito, muito embora mais certo ainda fosse convocar a Orquestra de Pífaros de Caruaru. Com instrumentos mais baratos, sobraria mais dinheiro para pagar os juros, que continuariam caindo em cima dos instrumentos, mas com um prejuízo menor. Halloween e gudibai pra vocês.

Revolta generalizada. Parte do público ameaça ir embora, outra parte diz que não sai sem receber de volta o que pagou pelo ingresso. Alguém se lembra de convocar o regente da orquestra para resolver o problema. “O maestro, o maestro”, gritam todos. Entra o maestro.

– Meus companheiros. Vocês sabem que eu não vou descansar antes que consiga apresentar nem que seja um quarteto de cordas nesse palco. Mas é preciso tempo para isso. Não se pode dar um cavalinho-de-pau numa orquestra nem afundar o Titanic com apenas um ano de trabalho. É indispensável criar as condições indispensáveis antes de atingir os nossos objetivos indispensáveis. Por exemplo, estou seguro de que para amanhã, ou no máximo semana que vem, já poderemos oferecer aqui um solo de fagote. Por enquanto, o importante é que vocês estejam confiantes de que eu vou fazer todo o possível para que tenhamos um concerto muito antes do que se espera. Inclusive com a ajuda e a participação de vocês, porque na verdade vocês é que fazem o espetáculo, não tenham dúvida disso, e digam todos comigo, “É só você querer…”

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