Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 080 | Ano 9 | Abr 2004
ELISA LUCINDA

São jovens senhores e senhoras
se despedindo dos agoras
desembarcam da vida
antes que se cumpra o destino
antes de escrito o percurso
sem giletes, sem tiros,
sem cortar os pulsos
sem se jogar dos edifícios
sem abrir o gás
dão pra trás na lida
focados no passado e suas dores
no pretérito de suas frustrações

no fungo dos rancores
esses personagens e suas ações
vão dando cabo do viver
começam a produzir a morte
e ninguém vê

Diante da televisão
preso à Internet
cativos de shoppings e doppings
clicam o delete
eliminam o enter e seus confetes
as comemorações para o novo dia
odeiam vésperas de alegria
desprezam os importunos sóis
que anunciam
que a vida continua

Sem cartas, sem avisos,
sem marquises
sem os comprimidos assassinos
e seus vidros vazios ao lado
que não têm jogada nenhuma

Os suicidas invisíveis
vêem esmola na cara do carinho
não suportam a esperança do vizinho
matam-se devagarinho
no meio da sala
na mesa do jantar
diante dos hambúrgueres
atrás das taças transparentes de vinho
e ninguém ora
Sem alarme, sem chavão
sem investigação
o suicida invisível
não sai no jornal
nem passa na televisão

Não virá o baile
não virá o passeio
o cinema
o novo amigo
o encontro
a compreensão

O suicida invisível
se mata na nossa cara
e como não se nota
não se pede explicação
aperta o botão da morte
encerra sua condição
sai antes do final do filme
antes de acabar a sessão

O amor não virá
não virá a felicidade
em sua homeopática e antipática dose
virá talvez o mais rápido possível
algum câncer ou trombose
alguma artrose de falta de movimento
filha da falta de caminho
o beijo não virá
não virá o sonho realizado aos pouquinhos

Os suicidas invisíveis
dizem com o seu não bom dia
com seu rancor
com o seu medo
com o seu horror
“ eu estou me matando agora”

E ninguém liga
e ninguém pára
e ninguém olha
e ninguém chora

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