Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 100 | Ano 11 | Mar 2006
EDUCAÇÃO

Por Marcia Camarano

De dezembro de 2005 até a segunda quinzena de fevereiro deste ano, 1.051 professores de escolas e universidades particulares perderam seus empregos — e estão previstas mais demissões para março. O total de rescisões é considerado alto não só pelo Sinpro/RS, mas também por quem responde por essas instituições. A “varredura” foi aleatória, atingindo tanto docentes com muitos anos de casa quanto quem tem titulação de mestrado ou doutorado.

Exemplos dessa aleatoriedade são as demissões verificadas na Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), 35 no total. Estranha, principalmente, quando se verifica o que aconteceu com professores do curso de Direito. Ao se encontrarem no Departamento Jurídico do Sindicato para efetuarem suas rescisões, três ex-colegas se depararam com uma contradição: para os mais antigos, foi dito ser necessário privilegiar os que tinham titulação, e, para mestres e doutores, foi alegado ser preciso manter quem estava há mais tempo.

“ Fui demitida com cinco minutos de conversa. Disseram que a minha rescisão era mais barata que a do Doval (professor com quase 20 anos de casa), e agora fico sabendo que ele foi também demitido”, espantou-se a professora Paula Martins, mestre em Sociologia, especializada em Direito Internacional. “Pois para mim falaram que eles precisavam prestigiar a titulação, por isso estavam me demitindo”, manifestou o professor de Direito Tributário Ápio Cláudio Beltrão, 38 anos lecionando naquela faculdade.

Letícia Albuquerque, com especialização, mestrado, MBA e concluindo o doutorado, também se surpreendeu ao ver os colegas mais antigos serem demitidos. “Para mim, falaram que estavam privilegiando quem estava há mais tempo.” Ela acrescentou que, “no meu caso, de nada valeram meus títulos, meus artigos publicados, palestras pela PUC, minhas pesquisas, as aulas que dei na especialização”.

Letícia recorda que, quando entrou, teve de entregar uma certidão de depósito de dissertação para comprovar seu mestrado, se não, não seria contratada. Vinculada apenas à PUC, a professora procurou aprimorar-se e continuar estudando. “Entrei no doutorado ano passado, sem diminuir minha carga horária de 32 horas. Foi um sacrifício, e agora que eu não tenho mais os créditos para fazer, que não preciso mais viajar, me tiram fora.”

Paula também precisou apresentar certificado de mestrado para ser contratada. “Mas, depois de nós, entrou gente que não tinha sequer uma aula de mestrado.” Conforme ela, “em detrimento dos anos (de faculdade) de alguns e da qualificação de outros, houve um privilegiamento”. Para o mestre mais antigo, Apio, houve um processo de limpeza, uma mudança ideológica.

Ápio não escondia estar constrangido e aborrecido com a forma escolhida para dispensá-lo após todo esse tempo: apenas o anúncio, de forma seca, sem qualquer encontro ou reunião em agradecimento pelos anos dedicados ao curso. Tão chateado ficou que, ao se despedir das ex-colegas, ouvindo delas um “nós nos vemos por aí”, respondeu que apenas num lugar não o veriam nunca mais: na Faculdade de Direito.

No dia anterior a esse encontro, o professor Pedro Ruffone Doval que, em setembro, faria 20 anos lecionando na Faculdade de Direito da PUC, assinou sua rescisão. “Mudou o coordenador, com ele veio gente estranha.” Há quatro anos, Doval apresentou problemas respiratórios, segundo ele, causados pelo tabagismo associado ao estresse. A gravidade foi constatada pelos alunos, com quem ele convivia intensamente. Foi hospitalizado, ficou um tempo fora. “Quando voltei, no dia 2 de dezembro de 2002, era meu aniversário, ouvi simplesmente que não tinha mais vaga para mim.” Para o professor, era o início de uma perseguição. Outro episódio que ele lembra com revolta: “No dia da colação de grau do meu filho (no final de 2005), o coordenador me cortou o ponto e eu nunca tinha tido uma falta”. Ao mesmo tempo em que diz dar risada da forma como foi desligado, Doval não negou a nostalgia, sem saber como será não entrar mais em uma sala de aula. “Tinha uma história lá dentro, não está sendo fácil sair, fica uma mágoa.”

Diversos contatos foram feitos com a assessoria de comunicação da PUC na busca de uma entrevista com um representante da instituição. Seus representantes optaram por enviar um texto assinado pelo coordenador de comunicação, Luiz Antônio Nikão Duarte, transcrito a seguir:

“A PUC faz um esforço em tempo integral para a qualificação de seu corpo docente, por compromisso com a sociedade e em atendimento às diretrizes educacionais orientadas pela legislação brasileira. A PUC também está atenta às circunstâncias que se impõem à conjuntura nacional, bem como aos cenários possíveis. É na combinação dessas condições e dos esforços ditados por sua vocação que a PUC tem conseguido alcançar o seu objetivo de oferecer à sociedade um ensino cujo nível representa um diferencial importante na busca por oportunidades profissionais”.

Sentimento de luto

Não foi só a quantidade de professores demitidos que chamou a atenção, mas também a indignação demonstrada por muitos na hora da rescisão. Em razão disso, o Sinpro/RS colocou um novo serviço à disposição dos associados, uma assessoria psicológica. “Chamam a atenção, além da quantidade, a revolta e a mágoa, o sentimento de injustiça e de não reconhecimento nos casos que chegam até mim”, relatou a psicóloga Eliege de Oliveira. Ela acolhe e escuta o que chama de “sentimento de luto, de perda”. O serviço passou a ser oferecido em dezembro em uma sala junto à assessoria jurídica.

Na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos – foram 78 demissões. A professora de Matemática Ana Tagliarini contava 26 anos de docência. “Minha demissão não foi institucional, o que sei é que não tenho o perfil determinado pelo coordenador da área”, relatou. Durante o tempo em que esteve ligada à Universidade, ela procurou ampliar seus conhecimentos, fazendo especialização em Administração Financeira e mestrado em Engenharia de Produção. “O coordenador prefere alguém formado apenas em Matemática, algo mais fechado, mas, mesmo com minha demissão, continuo achando que a minha formação é a correta, pois há 15 anos trabalho com cursos de Matemática Financeira e presto assessoria para empresas; pela minha experiência, sei que necessidades as empresas têm, e eu transmitia isso para os alunos.”

Ana contou que estava sendo pressionada, pressentindo que sua demissão iria acontecer. “Por um lado, senti um alívio da tensão, mas saí em função de gente que entrou no outro semestre.” A professora não sabe como se sentirá daqui para frente: “Foi uma vida lá dentro, tenho uma ligação afetiva com a Universidade”.

Já a notícia da demissão de Miriam Dias, da Faculdade de Serviço Social, pegou de surpresa inclusive os estudantes, acostumados a convidá-la para as formaturas como professora homenageada ou paraninfa. Quando soube da demissão, Viviane Borges, formada em 2004, e outros ex-colegas começaram a trocar e-mails se solidarizando com a professora. “Ficamos indignados pela perda, que significa perda de qualificação do curso, pois a Miriam sempre foi uma referência para os alunos.”

Miriam completaria 18 anos de Universidade em março. Além das aulas, ela também foi consultora da Unesco e representava a Unisinos na Comissão Nacional de Avaliação do Enade. Com larga experiência em gestão do planejamento, está entrando no quarto ano do doutorado, tendo ficado em primeiro lugar na seleção. Mesmo tendo sido homenageada pelos formandos em todos os semestres e paraninfa em outros tantos, a professora já pressentia o que iria acontecer. “Há uma onda de demissões que não tinha chegado ainda no Serviço Social”, constata.

Universidade-empresa

O presidente e o secretário da Associação dos Docentes da Unisinos (Adunisinos), Sérgio Trombetta e Jaime Zitkoski, consideraram que a Universidade perde em qualidade com a demissão de professores, alguns inclusive com prestígio nacional. Para os dirigentes, o problema está na forma de gerir a instituição, que a vê somente como uma empresa em busca do lucro, sem levar em conta sua vocação maior, que é a educação.

“São três grandes questões: uma gestão centralizadora, sem a participação de professores e demais agentes da vida acadêmica; o desrespeito à história, pois não há critérios para as demissões; e o gerenciamento da Universidade como uma empresa, o que levou a Unisinos a quebrar seu princípio filosófico, não levando em conta o ser humano”, destacou Zitkoski. Trombetta acrescentou que o clima de insegurança já está repercutindo em sala de aula.

O diretor de Recursos Humanos da Unisinos, Vanderlei Langoni de Souza, reconheceu ser grande o número de demissões, mas explicou que a instituição necessitou fazer ajustes em seus quadros para redução de custos. Com uma folha de pagamento considerada pesada, Langoni manifestou que “tivemos de tomar medidas de austeridade”. Conforme ele, não houve qualquer perfil demissional. “A Universidade é bastante complexa e dinâmica; precisávamos rever o quadro de professores e otimizar de acordo com a oferta de nossos cursos”, acrescentando que houve redução do número de alunos e, por conseqüência, redução de horários e contratos.

Quanto aos critérios, Langoni afirmou que não foi o tempo de serviço ou a titulação. “Hoje, 90% do quadro da Unisinos é composto por mestres e doutores; então, se há redução, fatalmente esses também serão atingidos.” O diretor informou que a instituição não gostaria de ter chegado a essa situação, “mas não podemos negar uma realidade que está posta”.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS