Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 107 | Ano 11 | Out 2006
SAÚDE

Por Stela Rosa

Especialistas alertam que os ambientes de trabalho estão desencadeando doenças ocupacionais. Problemas como o estresse despontam nas pesquisas como a principal causa de adoecimento. No entanto, esse sintoma é apenas a ponta do iceberg, apontam psicólogos e estudiosos da medicina do trabalho. Segundo eles, por trás da tensão diária, decorrente do alto grau de exigência imposto pelas instituições, podem ser desenvolvidas doenças que comprometem de tal forma a saúde física e mental que o profissional corre o risco de ficar incapacitado para o trabalho. Nos docentes, soma-se a esse quadro o risco de ter problemas na coluna e na voz, bem como a síndrome de burnout, essa última caracterizada por uma extrema exaustão emocional e com alta incidência entre professores.

As estatísticas não são nada alentadoras no que se refere aos problemas decorrentes do sofrimento psíquico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que até 2020 a depressão será a segunda maior causa de incapacitação para o trabalho, perdendo apenas para doenças cardíacas. No que diz respeito a problemas na voz, os docentes têm 14,8 vezes mais chances de serem acometidos do que trabalhadores em saúde, 3 vezes mais do que bancários e 1,5 vez a mais do que os profissionais de rádio e tevê – todos utilizam a voz como ferramenta de trabalho. Mesmo assim, um levantamento realizado pelo Laboratório de Saúde do Trabalhador da Universidade de Brasília mostrou que é praticamente inexistente entre os docentes do Rio Grande do Sul o afastamento pelo INSS decorrente de disfunções da voz, e apenas um caso de depressão foi registrado. Essa realidade foi publicada na reportagem Professores no Limite
(http://www.sinpro-rs.org.br/extraclasse/jun05/educacao.asp).

Tais fatos demonstram que muitas dessas enfermidades passam despercebidas e, geralmente, não é feita a relação entre os sintomas e o trabalho. O pior: as normas e estruturas organizacionais que propiciam essa realidade, tais como a carência de aporte e de equipamentos preventivos para desenvolver as tarefas, falta de autonomia, pressão, sobrecarga de trabalho, inclusive com demandas enormes de tarefas extraclasse, e o medo de perder o emprego são encaradas como normalidade da rotina de trabalho pela instituição e até mesmo pelos próprios professores. Diante do contexto, os estudiosos alertam para a necessidade de mudar a lógica de atribuir a responsabilidade do adoecimento aos profissionais que, muitas vezes, se sentem culpados e até mesmo incapazes diante dos sinais de alerta do corpo. Para eles, o empregador deve rever suas práticas, sob pena de comprometer a qualidade do ensino, que está diretamente ligada à saúde do professor.

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Arte de Claudete Sieber sobre foto de Tânia Meinerz

Arte de Claudete Sieber sobre foto de Tânia Meinerz

Ambientes de trabalho causam doenças

Para os especialistas, pesquisadores e professores, tratar unicamente as conseqüências decorrentes das doenças ocupacionais não irá solucionar e nem minimizar os problemas de saúde. Eliana Perez Gonçalves de Moura, professora da Feevale, que está desenvolvendo uma pesquisa sobre saúde do professor nas escolas privadas de Novo Hamburgo, avalia que há uma realidade de adoecimento coletivo e sutil que se expressa através de perturbações do sono, insônia, irritação e no aumento do consumo de drogas, como cafeína e calmantes, para aliviar o estresse crônico. “Em geral, as pessoas têm medo de confessar que não estão bem, porque isso pode significar confessar incompetência”, pontua. Para ela, as instituições se beneficiam desse silêncio, sem discutir a necessidade de fazer alterações organizacionais para promover espaços e relações mais saudáveis. “Os professores ocultam de si mesmos sua fragilização e trabalham de qualquer jeito. Mas o momento é de poder se abrir para a compreensão de que doença ocupacional não é um fracasso individual, mas resultado de um processo coletivo, e a categoria precisa discutir essa questão”, alerta.

Essa opinião é compartilhada por Sérgio dos Santos Pacheco, médico psiquiatra forense, doutor pela Escola Paulista de Medicina (Unifespe), com mais de 15 anos de experiência na atividade de docência. Ele ressalta que, nas instituições de Ensino Superior, não há mecanismos internos para intermediar os diversos conflitos, prevalecendo a lógica empresarial, na qual, muitas vezes, as peculiaridades da docência não são levadas em conta. Ele ressalta ainda que, para manter o emprego, os docentes precisam, além de desenvolver atividades em sala de aula, correr atrás de titulação e publicar artigos. “Há um clima constante de insegurança, competição e autopromoção que resulta em sofrimento psíquico e estresse.” Para Pacheco, é necessário criar espaços extra-institucionais, como um conselho de ética, para pontuar os abusos e não deixar os professores à mercê das pseudolideranças, sem espaços de participação. (Stela Rosa)

Pesquisa mostra dados do ensino privado

Pesquisa feita pela Comtexto Informação e Marketing, encomendada pelo Sinpro/RS, divulgada e abordada anteriormente na edição de 10 de junho de 2005 na matéria Professores no Limite (www.sinpro.org.br/extraclasse/abr06), mostra que essa realidade alertada em outros estudos e por diversos organismos internacionais atinge profissionais do ensino privado de todos níveis também no Rio Grande do Sul. Dos 750 docentes entrevistados, 45,8% apontaram o estresse como o principal problema de saúde, seguido das lesões, problemas de postura e coluna que afetam 29,9%. Já as lesões na garganta e alterações nas cordas vocais foram apontadas por 29,4%. O estudo constatou ainda que 83% dos professores desprezam os sinais do corpo e trabalham mesmo doentes, para atender aos compromissos com os alunos e a escola.

A direção do Sinpro/RS ressalta que os dados apontados na pesquisa traduzem uma situação de fragilidade que vivenciam os docentes. Freqüentemente, o Sindicato é procurado por professores que se dizem constrangidos, muitas vezes sem apoio, outras vezes ainda se sentindo adoecidos, em função de uma situação na escola muito aquém do que eles gostariam de ter. Conforme análise do Sindicato sobre a pesquisa, esse quadro é decorrente dos diversos papéis que os professores vêm assumindo, resultando em sobrecarga de trabalho e responsabilidade. Ou seja, o professor sozinho tem dado conta dos múltiplos problemas que envolvem os alunos, que são naturais, porque as pessoas aprendem em tempos e de formas diferentes. No entanto, a posição do Sindicato é de que é necessário que a direção das escolas, o setor pedagógico e o de orientação educacional atuem de forma mais concreta, caso contrário, os professores continuarão adoecendo. O Sinpro/RS orienta que os profissionais que estiverem vivenciando essa situação podem procurar orientação e auxílio visando a soluções, tanto no diz respeito à questão jurídica como na busca de um especialista da área da saúde, sem correr o risco de ter seu nome divulgado sem consentimento.

Jussara Maria Rosa Mendes, coordenadora de um grupo de estudos de Saúde do Trabalhador da PUC, avalia que há uma hipersolicitação devido às novas exigências e rapidez necessárias para atender às demanda dos empregadores, fatos que têm levado ao desgaste físico e mental. “E essa hipersolicitação vem trazendo aumento significativo de doenças e acidentes de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que essas enfermidades serão responsáveis pela morte de 2 milhões de trabalhadores por ano no mundo”, pontua. Por outro lado, ela ressalta que a legislação não acompanha o ritmo acelerado do adoecimento, por isso, ainda é difícil fazer o nexo causal entre estresse e o trabalho. (S.R.)

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