Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 132 | Ano 14 | Abr 2009
LUIS FERNANDO VERISSIMO

motorista que me levava do aeroporto de Tel Aviv para o Mar da Galileia, onde me juntaria com um grupo de brasileiros que visitava Israel a convite do governo, ia identificando laconicamente os lugares pelos quais passávamos. Era como se eu fizesse um pequeno tour da Bíblia com um guia reticente: só o nome do lugar já deveria evocar tanta coisa, que maiores explicações eram supérfluas. Já tínhamos percorrido alguns quilômetros de estrada numa planície árida quando ele fez um gesto de apresentação e disse apenas: – Armagedon.

Armagedon! O Vale de Megiddo, onde se travará a batalha final entre o Bem e o Mal, entre as hostes do Cristo e as hostes do AntiCristo, depois da segunda vinda de Jesus, no fim dos tempos iníquos e o advento do Milênio! E eu sem uma reação adequada preparada para a ocasião. Como sou ateu (não-praticante), não acreditava no que estava programado para acontecer ali, mas não pude deixar de me decepcionar com o lugar. Parecia haver espaço suficiente para as hostes se digladiarem nos dois lados da estrada asfaltada, mas o cenário não estava à altura do que seria, afinal, o maior megaevento da História.Não sei o que eu esperava ver. Talvez montanhas mais dramáticas no horizonte e pedras mais significativas no chão. Pelo menos não havia tendas na beira da estrada vendendo camisetas e bonés para as torcidas dos dois lados. Nada parecido com o lugar em que Jesus foi batizado no Rio Jordão, onde hoje há uma loja de souvenires que vende até coroas de espinhos feitas de plástico.

Muita gente acredita em Armagedon, e não apenas fundamentalistas toscos. Ronald Reagan acreditava. A direita religiosa americana apoia a direita israelense porque Israel triunfante será um protagonista importante dos últimos atos: um dos sinais da vitória final do Bem em Armagedon será a conversão em massa dos israelitas ao cristianismo. Está na Bíblia. E cada novo capítulo da eterna crise no Oriente Médio é visto por cristãos milenaristas como mais um passo na direção da batalha final da qual os judeus também sairão vitoriosos, só que não mais judeus.

Pode-se imaginar fundamentalistas furiosos sonhando com mísseis nucleares iranianos cruzando no ar com mísseis nucleares israelenses num preâmbulo do “gran finale” desejado. Enfim, o Armagedon. Enfim, Cristo o único senhor do mundo. Israel precisa ouvir os seus sensatos. Precisa, principalmente, saber quem são os seus amigos.

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