Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 134 | Ano 14 | Jun 2009
CULTURA

Por Renato Dalto

Hoje está cinza, é segunda-feira, e me sobe à garganta a vontade de chorar por Mario Benedetti. Dizem que foi ontem (17 de maio), em Montevidéu, que ele morreu, aos 88 anos. Foram os versos de Benedetti que tiraram o bandonéon da vida das mãos de Deus e o colocaram nos dedos á geis de Aníbal Troillo. Foram os versos de Benedetti que falaram de um comandante guerrilheiro com estrela na testa que seria encontrado no céu, em qualquer céu onde fosse possível a esperança de um mundo melhor. Foram os versos dele que desenharam um país pequeno, verde e terno chamado Uruguai.

Mas não sei de onde vem essa vontade de chorar. Oitenta e oito anos é um bom tempo de vida e Benedetti fazia, há muito tempo, uma espécie de testamento literário. Já era celebrado num país que mergulhou na treva da ditadura – onde ele resistiu bravamente – e agora assistia a primeira vitória da Frente Ampla. Emblematicamente, um dia depois do povo não ter dormido comemorando, na véspera em que a esquerda assumiria o poder, avistei Benedetti ensimesmado, sentado a um canto num café no centro de Montevidéu. Deu um discreto buenos dias com a cabeça, levantou e saiu. Na sacolinha plástica, creio que vi uns potes de iogurte e talvez um saquinho com medias lunas. Vi-o caminhar sob os plátanos e ganhar a rua em passos miúdos. Talvez tivesse dormido cedo na noite anterior e acordado ao nascer do dia, alheio à festa que ele ajudou a construir. Porque os versos de Benedetti não foram necessariamente feitos para a festa mas para a ternura, o silêncio, o amor de carne e partilha e o prenúncio da alvorada de um novo país.

Esse poeta me lembra um tempo de luta e utopia, que traz também um pouco de melancolia da juventude perdida e da escassez de certas dignidades intelectuais. Cláudio Abramo, quando escreveu sobre Julio Cortazar, lembrava de “um homem grave, desses que estão em desuso”. Mario Benedetti era com certeza um dos últimos dessa estirpe. Guardo intacto, e a cada vez que lembro toca muito, o dilacerante romance A Trégua, talvez o mais fiel retrato existencial da alma uruguaia. É a novela das alegrias escassas, do cotidiano morno que se ilumina com o amor de um aposentado por uma jovem. Mas é também o derradeiro retrato da perda. E o homem que perde a mulher amada é também o país da juventude perdida nos anos de chumbo.

Talvez por isso tenha me dado vontade de chorar. Porque Benedetti é também sinal de coisas que perdemos e não poderíamos ter perdido. Sobre a mesa, repousa Memoria y Esperanza – Un mensaje a los jóvenes, um de seus últimos livros. Fala em manter a alma jovem com o sentido permanente da descoberta.

Benedetti era o cerne de sua própria poesia e parecia imortal. Por isso me deu vontade de chorar por ele.

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