Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 144 | Ano 15 | Jun 2010
ESPECIAL | QUALIDADE DE VIDA
ENTREVISTA

Por Grazieli Gotardo

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A gerontologia, campo da ciência que estuda o envelhecimento do ser humano, está cada vez mais preocupada com inserção das pessoas com mais de 65 anos na sociedade para um alguém que produz. “O homem tem a capacidade de se transformar. A aposentadoria tem que ser vista como um tempo de reconstrução, de novos investimentos e descobertas”, afirma a doutora em Gerontologia Biomédica pela PUCRS, Gislaine Bonardi. Atualmente, a médica é geriatra do Núcleo de Geriatria do Hospital Moinhos de Vento, atuando principalmente com envelhecimento, estudos populacionais, saúde e terceira idade. Ela conversou com Extra Classe sobre as transformações pelas quais o mundo vai passar com o aumento da longevidade e a maior atuação de idosos em todos os campos do conhecimento.

Extra Classe – Como a Sra. avalia o papel das pessoas com mais de 60 anos hoje na sociedade?

Gislaine Bonardi – A pessoa tem que procurar a mudança na sua vida. Uma coisa que percebi é que faltam projetos. Quando a pessoa chega na idade de se aposentar, ela não acaba, apenas fechou um ciclo da sua vida. A sociedade precisa se voltar mais para o idoso cidadão. Sempre questiono meus pacientes: Qual seu projeto de vida agora? Quais são seus sonhos esquecidos? Fazer uma faculdade, aprender uma nova profissão, viajar, é isso que temos que resgatar. A mulher se adapta mais facilmente à aposentadoria, pois ela tem várias funções na vida, como mãe, mulher, profissional. Já o homem se sente bem no início, depois começa a ser um problema. Até mesmo os grupos de convivência para idosos estão mudando seu perfil, eles não oferecem mais apenas dança, jogos, é preciso mais do que isso, as pessoas têm projetos de vida e não passatempos. Temos que resgatar o valor de cidadania do idoso, pois a sociedade ainda tem essa visão distorcida de que não presta mais, porque nosso mercado é só produção..

EC – Pesquisas comprovam o envelhecimento da população mundial. Como isso tem afetado os estudos em geriatria e a forma de tratamento das doenças típicas de idosos?

Gislaine – Em 2002 a Organização Mundial da Saúde divulgou em Madri um documento em que diz que é preciso proporcionar ao idoso um envelhecimento ativo, uma nova reintegração dele na sociedade e prevenção de doenças. O que procuramos hoje na geriatria é o envelhecimento com qualidade de vida e o máximo de independência. No Brasil, o envelhecimento da população se baseou na assistência médica, medicina sanitária, vacinação, mas não tivemos a base, como em outros países, de melhoria das condições sócio-econômicas e qualidade de vida.
EC – O Brasil tem hoje políticas públicas eficazes para o envelhecimento da população?

Gislaine – Em algum tempo vamos ter um choque muito grande na sociedade. Em países desenvolvidos, em que a idade limite para o idoso era 65 anos, já querem passar para 70 anos, inclusive a idade produtiva, pois uma pessoa de 70 está muito bem. Na Europa, já está se mudando essa ideia de limite da idade produtiva, já que este é um parâmetro sócio-econômico e não biológico, pois teremos condições de trabalhar mais. Mas isso é muito complicado, pois altera a previdência social. Também não podemos esquecer que, segundo pesquisa do IBGE, uma grande maioria dos idosos sustenta sua família. Surge então uma nova visão do idoso. E não podemos esperar os 70 anos para reprogramar a vida, temos que ter um contínuo viver bem, porque quando largamos o trabalho perdem-se as relações, o valor que se tinha no trabalho, então é importante ir construindo outros valores junto, para quando chegar o momento da aposentadoria se tenha outros valores para serem trabalhados. E isso é fundamental, a gerontologia está se especializando para que o idoso redescubra seus valores.
EC – A Sra. acredita que os jovens de hoje estão se planejando para uma velhice longa e saudável? Por quê?

Gislaine – Os jovens ainda não pensam nisso, pois não temos esse preparo com o idoso. Muita gente mais jovem me procura com medo de doenças que causam dependência, mas como é uma fase muito produtiva, eles querem juntar para guardar ou para ter uma estabilidade, mas isso é uma consequência, o que temos que fazer é despertar a nossa consciência para viver o trabalho e ter essa noção do todo na vida. Mas acredito que em breve teremos uma nova visão disso. Uma pessoa de 30 ou 40 anos hoje, quando se aposentar, vai estar imbuída em outro sistema de aposentadoria e de vida. Isso está evoluindo porque a necessidade financeira está fazendo que isso mude. A parte financeira sempre movimenta mais as pessoas e então vão surgir políticas públicas, e com certeza o governo vai ter que se mobilizar para isso, porque é uma questão com o qual a América Latina e os países subdesenvolvidos vão sofrer muito. Quando conseguirmos resgatar o papel do idoso na sociedade, ele vai mostrar que ainda produz.
EC – Homens e mulheres se comportam diferentemente em relação ao envelhecimento?

Gislaine – A mulher historicamente faz mais prevenção que o homem, por sua natureza de precisar estar sempre bem em função de filhos e família. Mas isso também vem mudando um pouco, como stress, tabagismo, e álcool, elas já estão tendo com 30, 35 anos doenças como AVC e infarto devido ao hábito de vida. Até a menopausa, a mulher tem a uma proteção hormonal, mas depois disso nós vamos ficando igual ao homem em relação ao risco de doenças cardiovasculares.

Fatores que dificultam uma aposentadoria tranquila

• a improdutividade ou inatividade que faz a pessoa se sentir inferior;

• rompimento abrupto das relações sociais (colegas de trabalho, clientes);
• redução salarial (padrão de vida);

• falta de atividades alternativas, desenvolvidas ao longo da vida;

• falta de preparo familiar para receber aquele que esteve muito tempo fora do convívio diário.

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