Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 159 | Ano 17 | Nov 2011
PALAVRA DE PROFESSOR

Margot J. C. Andras*

Há algumas semanas, eu comentava com colegas sobre como gostara da ideia da paralisação no domingo, dia 2 de outubro, pelo simples fato de que precisávamos abrir os olhos das pessoas sobre o quanto vinha aumentando nosso trabalho em casa. Afinal, cada vez mais o trabalho invade o ambiente familiar, o espaço de descanso e os momentos de lazer.

Havia combinado com colegas que, já no sábado, colocaríamos respostas automáticas nos e-mails pessoais, avisando do nosso estado de greve, mesmo sabendo que naquele sábado eu teria atividades com alunos. Mas havia organizado o domingo para não me envolver com escola. Estava decidida: não faria nada vinculado à escola.

Assim foi. Organizei algumas coisas minhas (me policiando para evitar livros e papéis), fui almoçar com a família. No retorno avisei que faria uma caminhada pela Redenção. Fizeram uma cara de surpresa; nem lembravam da última vez que eu tinha feito isso num domingo.

Eu sabia que já era tarde para encontrar alguém da roda de chimarrão organizada pelo Sinpro/RS, mas pelo menos tinha sol e era bom fazer um pouco de “fotossíntese”. Mal chego ao parque, encontro um amigo, também professor, que não via há tempos. Comentou sobre o “domingo de greve”, que a paralisação estava tirando as pessoas de dentro de casa, e ficamos um bom tempo sentados ao sol, dando risadas de tempos passados. Às 17h estava chegando em casa.

Ao subir as escadas recebo uma mensagem de outro amigo dizendo que estava no Gasômetro, que sua esposa faria um ensaio aberto dos Contos Gauchescos de Simões Lopes Neto. Tempo de subir, dar uma olhada no povo de casa, avisar que ia até o Gasômetro. Novamente, caras surpresas, comentários irônicos, e eu continuava meu passeio. Muita gente na Beira-rio – já nem lembrava quantas atividades havia por lá: skate, patins, rollers, patinetes, basquete, futebol, música, água de coco.

Retornei leve, tranquila, feliz. Não lembrava de outros domingos assim, pelo menos não tão próximos. Aliás, não havia notado o quanto eu estava perdendo, quantas simples coisas não fazia há tempos, quantos domingos passados sem ao menos eu perceber, trabalhando em casa. Estava impressionada com a falta de domingos verdadeiros na minha vida.

Então terminei de organizar minhas coisas e, claro, para não perder o costume, liguei o computador. Levei um susto! Apenas no domingo, havia cinco mensagens da escola. Segunda-feira iniciava o Salão Jovem da Ufrgs e eu precisava confirmar como os alunos iriam; havia a avaliação especial de um aluno para encaminhar; um convite para acompanhar os alunos na Refap; solicitações “urgentes”. Eram 23h de domingo e eu respondia mensagens para a escola. Está quase impossível permanecer fora do trabalho!

*Professora de Química. Educação Básica
Especialista em Educação e Química pela Unicamp
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