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Nº 167 | Ano 17 | Set 2012
ESPECIAL | CULTURA DOADORA
ESPECIAL

Por Clarinha Glock

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O médico Rafael Matesanz, diretor da Organização Nacional de Transplantes (ONT) da Espanha e presidente do Conselho Ibero-americano de Doações e Transplantes (CIDT), considerado um dos responsáveis pela liderança da Espanha na lista dos países com mais doações e transplantes de órgãos em todo o mundo – 35,3 doadores por milhão de habitantes em 2011 –, fala nesta entrevista sobre os avanços na América Latina e os desafios de países como o Brasil para melhorar as estatísticas em transplantes.

Como a Espanha conseguiu se manter na liderança da doação e transplantes de órgãos? O sistema tem funcionado em muitas partes do mundo quando aplicado corretamente. O problema é entender que as coisas funcionam se a organização é correta e se mantém no tempo com independência das mudanças de governo e de pessoas. Não é algo fácil de fazer e, por isso, não são muitos os países que desenvolvem um sistema semelhante ao espanhol.

Como o Brasil pode aumentar as doações e transplantes?
É relativamente simples organizar uma região determinada ou um estado pequeno e, de fato, há zonas do Brasil com resultados muito bons. O difícil é levar essa organização estado por estado, com suas enormes diferenças. O que se conseguiu na Espanha foi manter elevados os índices de doação em todas as regiões. Daí a necessidade de uma organização eficiente em cada estado e uma estrutura nacional forte que coordene todos esses esforços.

Quanto o governo espanhol economiza fazendo transplantes renais? O custo de um transplante renal é ligeiramente mais alto que a diálise só no primeiro ano. A partir daí, pode chegar a, no máximo, 20% do que custa um paciente em diálise. Na Espanha, existe o mesmo número de doentes transplantados e em diálise, algo difícil de se conseguir. Isso pressupõe uma economia superior ao dobro do custo de todo o sistema de transplantes de todos os órgãos.

Quantas pessoas esperam por transplante na Espanha?
O número absoluto se mantém estável ao longo dos anos em cerca de 5,5 mil doentes, o que, na realidade, supõe uma diminuição, uma vez que a população da Espanha aumentou em quase 10 milhões de pessoas nos últimos 15 anos. Desses, cerca de 4,5 mil são de rins e os mil restantes, dos demais órgãos.

Existe algum programa de treinamento ou troca de experiências com o Brasil?
Através do Programa Alianza foram treinados na Espanha mais de 300 médicos de toda a América Latina durante períodos de dois meses. Entre eles, um número crescente de brasileiros. São realizados cursos de comunicação com as famílias através de um sistema de formação pelo qual passaram mais de 2 mil profissionais – Confira a íntegra dessa entrevista no site www.fundacaoecarta.org.br

RS é pioneiro em transplante de pele

Especial | Cultura Doadora

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Uma das dúvidas mais comuns, quando se fala em doação de pele ou tecido, é se o cadáver do doador fica mutilado ou exposto. O cirurgião plástico Eduardo Chem, diretor do Banco de Tecidos Humanos da Santa Casa, esclarece que a pele é retirada de áreas que não ficam visíveis durante o velório, como tórax, abdômen, coxas e braços. Não há sangramento, nem deformações. “Em hipótese alguma há qualquer tipo de mutilação no corpo do doador”, afirma. A doação consiste na raspagem de uma camada de um a dois milímetros de tecido, que é analisado, armazenado em freezers e redistribuído conforme demanda registrada na Central Nacional de Transplantes.

Toda pele transplantada é rejeitada pelo organismo do receptor em até 30 dias após a cirurgia. Mas o tecido retirado de uma pessoa morta ajuda a aliviar dores e dá tempo para que indivíduos com grande superfície corporal queimada ou com vários traumatismos se recuperem para receber um autotransplante de pele. Até 2007, este tipo de transplante era feito com sobras de tecidos de cirurgias estéticas. O problema é que eram segmentos pequenos, com estrias e enrugados. A partir de 2007, o governo instituiu uma portaria possibilitando a retirada de tecidos de pessoas falecidas. Pode ser doador quem não teve doença infectocontagiosa ou cutânea (câncer de pele, eritemas, pustulações).

O Banco de Tecidos Humanos de Porto Alegre é pioneiro no Brasil e funciona no 7º andar do Hospital Dom Vicente Scherer, da Santa Casa. Em 2010, recebeu o nome de seu fundador, o médico Roberto Corrêa Chem – pai de Eduardo –, morto no acidente do voo 447 da Air France, em 2009. De janeiro a julho de 2012, o Banco registrou 25 captações de pele que, após ser processada, foi implantada em 39 pacientes. O cirurgião afirma que é necessário aumentar a captação. “Se tivéssemos quatro ou cinco vezes mais doadores, nem assim atenderíamos à demanda”, diz Chem.

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