Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 194 | Ano 20 | Jun 2015
LUIS FERNANDO VERISSIMO
COLUNISTA

Combinaram de se encontrar para o almoço. Ela tinha uma coisa importante para dizer. Decidiram que ela diria o que tinha para dizer antes de pedirem a comida. Seguinte, disse ela. Nosso namoro acabou.
Ele levou um choque.
– O quê?
– Ganhei uma bolsa de estudos no Canadá. Vou ficar fora um ano.
– Mas…
– Nenhum namoro resiste a um ano de separação. É melhor parar agora.
Dito o que tinha para dizer, ela passou a estudar o menu, enquanto ele tentava se recuperar do choque.

Misto Quente

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado


– Mmm… – disse ela. – Acho que vou pedir uma saladona, depois uma vitela ao molho branco com batatas a vapor e, deixa ver… Purê de maçã. E umas alcaparras. E você?
Ele continuava a olhar fixamente para ela, como se estivesse em transe. Finalmente falou:
– Um misto quente.
– Um misto quente? No almoço? A comida aqui é muito boa. Pede outra coisa.
– Eu quero um misto quente.
– Você ficou sentido…
– Não fiquei sentido. Só quero um misto quente.
Quando tomou os pedidos, o garçom apiedou-se dele.
– O senhor quer alguma coisa com o misto quente? Ketchup? Mostarda? Fritas?
Só um misto quente. Um simples misto quente. Um despretensioso misto quente. Presunto e queijo entre fatias de torrada. Só. O básico.
Sem adornos. Sem complicações. Intocado pela inconstância humana. Incapaz de uma desfeita ou de uma crueldade, seja com quem for.
O garçom desculpou-se e foi tratar dos pedidos. Ela disse:
– O misto quente é contra mim. É isso?
– O misto quente não é contra nada nem ninguém. Um misto quente é um misto quente.
– Você está revoltado comigo, e…
– Não estou revoltado. Estou em paz. A perspectiva de um misto quente me aquece o coração. Estou pairando sobre as maldades do mundo, a mesquinhez dos homens e a traição das namoradas. Você sabe que existe uma seita no Nepal que só se alimenta de mistos quentes? Dizem que purifica o espírito, ajuda a digestão e leva à sabedoria suprema. Parece que o queijo e o presunto representam a dualidade alma/corpo em todos os seres, o queijo simbolizando a alma e o porco o corpo, e a torrada o envelope cósmico que…
– Quer parar com isso?!
– E, além de tudo, eu nunca simpatizei com o Canadá.

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