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Nº 224 | Ano 23 | JUN 2018
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

Diversidade étnica nas escolas e racismo

Foto: Freepik

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Foram divulgados, recentemente, os resultados de uma interessante pesquisa realizada na Inglaterra pela London School of Economics (LSE) e pela Bristol University sobre a diversidade étnica nas escolas. O estudo (relatório disponível em: https://goo.gl/vXRga7) foi feito em quase cem escolas públicas inglesas, envolvendo 4 mil alunos britânicos, de dez anos de idade, brancos, negros e asiáticos. Ele identificou os sentimentos das crianças, lidou com suas relações de amizade, com suas atitudes frente ao multiculturalismo, além das características pessoais e escolares. Os dados foram cruzados com outras informações, como, por exemplo, a composição étnica das áreas onde estão localizadas as escolas. A pesquisa procurou medir as diferenças de percepção e de atitudes das crianças, levando em conta uma grande variação de composições étnicas nas escolas públicas inglesas, onde é possível se encontrar estabelecimentos de ensino, por exemplo, com 0% a 40% de alunos asiáticos, ou com 14% a 98% de alunos brancos.

As evidências encontradas demonstram, primeiro, que as crianças possuem sentimentos mais fortes e solidários com relação ao seu próprio grupo étnico – uma diferença que oscila de 9 a 18 pontos em uma escala de 100. Até aí, nenhuma surpresa pois é comum que os grupos humanos manifestem o fenômeno da homofilia. Descobriu-se, entretanto, que, nas escolas onde há maior variedade étnica, a distância que separa os sentimentos mais favoráveis ao seu grupo dos demais é menor. As posições dos alunos brancos quanto aos alunos negros, por exemplo, são mais favoráveis na medida em que há mais estudantes negros na mesma escola. Para cada acréscimo de 10% de alunos negros, a posição favorável dos alunos brancos frente aos negros aumenta 1.74 pontos, o que reduz em 14% a distância das posições mais solidárias expressas quanto ao seu próprio grupo. Esse resultado é verdadeiro, com pequenas variações, para todos os grupos étnicos, o majoritário e os minoritários.

Mais do que isso, o estudo sugere que o contato das crianças brancas, negras e asiáticas na escola possivelmente promova relações intergrupais mais amistosas nas comunidades. Escolas com grande diversidade étnica colaboram, assim, para uma menor incidência de racismo. Esses achados possuem extraordinárias repercussões práticas, especialmente na Inglaterra e nos demais países europeus onde há quem sustente, com base em uma interpretação sobre o “respeito ao multiculturalismo”, projetos para sistemas de escolas segregadas por etnias.

A literatura especializada lida com o fenômeno das relações intergrupais desde o trabalho seminal de G.W. Allport (The Nature of Prejudice. Cambridge, MA: Addison-Wesle,1954) que formulou a Teoria do Contato. Sua principal hipótese é a de que o maior contato entre os grupos sociais pode conduzir a visões recíprocas mais favoráveis. Estudo recente de Schindler & Westcott (Shocking racial attitudes: Black G.I.s in Europe. CESifo Working Papers 6723, 2017) demonstrou que a presença de destacamentos militares negros americanos em regiões do Reino Unido, na época da II Guerra Mundial, teve um impacto positivo nas atitudes dos residentes, sendo que essas áreas demonstram até hoje níveis menores de preconceito racial e menor representação de partidos de direita (que são os que verbalizam posições xenófobas e racistas). O estudo mostra como mudanças de atitudes resultantes do contato intergrupal podem ser transmitidas através das gerações.

Allport, entretanto, apontou que haveria “bons” e “maus” contatos. Um mau contato teria o efeito inverso de estimular o ressentimento, a competição e o racismo. Ele delineou quatro condições que seriam as mais adequadas para que os contatos intergrupais produzissem consequências positivas: a) os grupos se relacionam em um contexto onde todos possuem o mesmo status; b) eles compartilham objetivos comuns; c) a cooperação entre grupos é necessária para completar as tarefas; e d) há uma figura de autoridade sancionando a cooperação. Como se pode perceber, as condições mencionadas para um “bom contato” se encaixam perfeitamente nas dinâmicas típicas da escola.

Penso que se deveria pensar a respeito da importância dos contatos intergrupais no Brasil, especialmente entre as crianças e os adolescentes. Desde que se operou entre nós uma divisão de classes entre as escolas públicas e privadas (com as classes médias e ricas matriculando seus filhos em escolas privadas), criamos também uma espécie de apartheid racial, já que a grande maioria de famílias negras é pobre e se obriga a matricular seus filhos em escolas públicas. Temos, então, no Brasil, escolas privadas mais brancas e homogêneas socialmente do que escolas suecas. Uma parte expressiva das crianças e adolescentes filhas de nossas elites econômicas só conhece pobres e negros pelo vidro fechado do carro de seus pais. Essa distância se amplia para alguns cursos superiores, como é o caso da Medicina, e para algumas carreiras como a dos operadores do Direito. Médicos, magistrados e agentes ministeriais negros ou com origens humildes são uma pequena minoria no Brasil, o que, ao invés de vergonha nacional, é tratado como um dado da paisagem.

Resultado do “contato zero” assinala uma das dinâmicas de reprodução do racismo no Brasil e estimula a homofilia, fenômenos que nos empobrecem culturalmente e pavimentam o caminho para os discursos de intolerância e ódio.

*  Marcos Rolim é sociólogo e jornalista | marcos@rolim.com.br

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