EDUCAÇÃO

Ameaças e terror psicológico na escola

Episódio de ameaças de atentados em escolas privadas no Rio Grande do Sul depois da tragédia numa escola pública em Suzano é analisado por sociólogo
Por Gilson Camargo / Publicado em 15 de abril de 2019

 

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto


Atos extremos de violência como a chacina de Suzano, São Paulo, em que dois adolescentes invadiram a escola Raul Brasil, na manhã de 13 de março, armados com pistolas e armas “medievais” matando sete pessoas e ferindo outras 11; e ameaças de ações semelhantes planejadas em fóruns de discussões na deep web, como a que envolveu a Rede Marista em Porto Alegre, no final do mês, podem estar relacionados a uma patologia própria de certas formações sociais ou a motivações diversas e muito isoladas. No entanto, é muito provável que estejam germinando no discurso de ódio que se disseminou pelo país com a ascensão e institucionalização do pensamento de extrema-direita

O historiador e doutor em Ciências Sociais pela PUCRS e professor visitante do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Ufrgs, Hugo Arend, recomenda cautela a qualquer análise sociológica desses ataques e dissocia o caso extremo de Suzano dos demais episódios em que os ataques não passaram de ameaças – caso do Colégio Rosário e do Campus do Vale da Ufrgs, em Porto Alegre, e da Escola Estadual de Educação Básica Padre Fernando, em Roca Sales, todos ocorridos no mesmo mês. “Há algumas analogias e inferências possíveis, mesmo que provisoriamente. A primeira analogia quanto aos ataques na escola de Suzano são as corriqueiras chacinas nas escolas norte-americanas: jovens fortemente armados adentram os estabelecimentos de ensino, matam quase aleatoriamente e, ao final, cometem suicídio. Esse tipo de evento é raro no Brasil e em muitos outros países. Pode-se dizer que se trata de uma patologia social própria de certas formações sociais onde os indivíduos sentem que a sociedade deve a eles mais do que eles recebem”, analisa. Nesse caso, o protagonista parece cobrar da sociedade algo que lhe falta em termos de bem-estar. “Há uma evidente frustração e cobrança desses indivíduos em relação à sociedade, cujo microcosmo, para um jovem, é sua instituição de ensino. E notemos que são homens, heterossexuais e brancos. Não há coincidência quanto a esse perfil”.

No que diz respeito às ameaças à rede Marista e à Ufrgs, afirma, as inferências mudam, até porque não há dados suficientes para analisar. “O que sabemos é que na Rede Marista houve uma forte manifestação contra o presidente Bolsonaro e contra o fascismo; mães e pais se mobilizaram para fundar a Associação de Mães e Pais pela Democracia, enfim, a escola foi palco de resistência ao fascismo e aos projetos excludentes que o governo pretende impor”, explica Arend. O professor contrapõe que, entre mães e pais de alunos do Rosário, também há pessoas dedicadas a destruir qualquer forma de representação democrática ou inclusiva. “São pessoas bem articuladas e poderosas e que muito se beneficiam do discurso do ódio, da exclusão e da necessidade da segurança se impor sobre as liberdades. As ameaças vêm favorecer o discurso de ódio, as necessidades de controle e vigilância, a privação das liberdades democráticas, como vimos com a imposição de homens fortemente armados nas portas da escola numa clara militarização da vida civil, como se isso fosse resposta ao problema mais denso e complexo que está no fundo”, avalia.

Quando o ódio se torna socialmente aceitável

Hugo Arend recomenda cautela em qualquer análise sociológica desses ataques e dissocia o caso extremo de Suzano dos demais em que os ataques não passaram de ameaças

Foto: Igor Sperotto

Hugo Arend recomenda cautela em qualquer análise sociológica desses ataques e dissocia o caso extremo de Suzano dos demais em que os ataques não passaram de ameaças

Foto: Igor Sperotto

São comportamentos que não passam por questões de influência ou causa, mas são derivados de certas condições, ressalva o professor da Ufrgs. “Conjuntos de condicionantes que motivam certos comportamentos, os encorajam e alimentam. É inequívoco que ter na presidência da República um homem que abertamente defende a tortura, defende milícias, faz apologia ao estupro, afirma que negros, índios e pobres são pessoas inferiores e que não merecem os devidos cuidados de políticas públicas e cujo símbolo de campanha é um gesto da “arminha” não ajuda em nada”, esclarece, referindo-se ao gesto de campanha do candidato e de seus simpatizantes, e que se manteve no comportamento do presidente Jair Bolsonaro.

Para o historiador, comportamentos violentos e discursos de ódio que estavam hibernando na sociedade brasileira encontraram na ascensão do ex-capitão do Exército o momento para se tornarem explícitos. “Se é possível que um candidato à presidência ou um presidente diga e faça o que ele diz e faz, então, eu também posso”, ilustra. “Torna-se socialmente aceitável proferir o ódio, a exclusão e agir com violência contra todos os diferentes. E, note-se: esses discursos de ódio, violência e exclusão se dão entre pessoas das camadas mais baixas da sociedade. Não são discursos e práticas que agem de cima para baixo – apesar de também haver esse movimento vertical. São discursos e práticas que visam destruir, combater e matar os vizinhos, horizontalmente, os que estão logo ali do outro lado da rua. Não há um ódio do pobre contra o rico, mas do pobre contra o pobre, da classe média contra a classe média. Quem ganha com esses discursos e práticas são justamente os ditos “donos-do-poder”, aqueles que se beneficiam das políticas de segurança que dividem a população em amigos e inimigos, pessoas de bem e criminosos. Para o poder estabelecido, nada melhor que divisão e cizânia entre os dominados e explorados”, aponta.

Quem ganha com o clima de medo no ambiente escolar

Se por um lado é incerto que haja motivação política para os casos pontuais de ameaças ou invasões de escolas, “é inegável que certos grupos políticos se beneficiam claramente de toda essa atmosfera de militarização e securitização da vida civil” e que “a maior ameaça a esses grupos, no momento, são os projetos democráticos e alternativos”. Em 2018, o Movimento Brasil Livre, articulado por figuras como o deputado federal Kim Kataguiri e o vereador de São Paulo, Fernando Holliday, lançou um braço para a formação de jovens liberais para disputar espaços nos diretórios acadêmicos e competir com a União Nacional dos Estudantes (UNE). Isso poderia ter alguma relação com os ataques? “Em primeiro lugar, o MBL não é liberal.

O MBL é fascista. Não tem o menor comprometimento com uma agenda liberal. Ele é ultraneoliberal, o que significa “fascista”, ou melhor, neofascista. “Neo” porque ele não se pretende de massas e não se sustenta em uma base popular trabalhista sólida para se manter no poder ou galgar posições. O MBL faz alianças com o grande capital e poderosos grupos financeiros e industriais para se manter no poder. É possível que haja articulações diretas ou indiretas de partidos políticos ou de membros de certas facções políticas de extrema-direita no ataque à escola de Suzano e às ameaças à Rede Marista e à Ufrgs. É cedo para dizer. Mas em um país cujo presidente tem uma vida íntima ligada a milicianos acusados de assassinar uma vereadora, nada deve surpreender”, conclui.

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