EDUCAÇÃO

Pegos de surpresa, professores e alunos relatam desrespeito e clima de caos no IPA

Alunos do Centro Universitário Metodista IPA relatam postura desrespeitosa da instituição. Em reunião com Sinpro/RS, mantenedora se esquiva de assumir o encerramento das atividades
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 7 de agosto de 2023

Foto: Igor Sperotto

Decisão da Rede Metodista de encerrar as atividades do IPA, como fez com outras instituições, criou caos na vida acadêmica

Foto: Igor Sperotto

Preocupação, surpresa, tristeza, estado de pânico em meio ao caos, além do sentimento de terem sido enganados. Esta é a síntese do estado de espírito dos alunos do Centro Universitário Metodista (IPA) diante da notícia do encerramento das atividades da instituição de ensino superior privada, dada em primeira mão pelo Extra Classe no sábado, 5.

Em reunião virtual com o Sindicato dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), a mantenedora resiste em formalizar a expressão “encerramento” e alega que a consultoria contratada precisa de 60 dias para fazer um diagnóstico.

Concretamente, mesmo com a presença do diretor-geral da Rede Metodista, Ismael Forte Valentim, quem mais fez uso da palavra no encontro foi Rodrigo Villa Lobos D’Amico, representante da Heartman House, a consultoria que se apresenta como “especializada em ajudar empresas em crescimento, com problemas ou em estruturação”.

Valentim, que chegou à Porto Alegre na manhã desta segunda-feira, 7, é pastor metodista e Reitor Interino na Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), que fechou três campi em 2021 nos mesmos moldes do que está ocorrendo no IPA.

“Eles estão resistindo porque, é claro, não querem configurar uma circunstância na qual teriam que fazer as rescisões. E, é óbvio, que os professores dificilmente vão comprar essa tese”, diz o diretor do Sinpro/RS, Marcos Fuhr.

Alunos do IPA se sentem enganados

A mantenedora terá as mesmas dificuldades em explicar o ocorrido para seus alunos, que fizeram relatos sobre o caos criado em suas vidas acadêmicas.

Um professor do IPA que aguardava a reunião com a reitoria e prefere não se identificar, foi objetivo: “além dos professores que já vêm sofrendo há anos com esse desrespeito total, os alunos serão os maiores prejudicados com essas mudanças”.

“Eu entendo que a universidade esteja fechando, entendo que foi mal administrada e, ok, vai fechar. O que eu considero ruim da parte deles foi a forma, de esperar o dia de começar a aula para marcar uma reunião, depois do semestre já ter iniciado em outras universidades”, critica a estudante de educação física do IPA, Alexsandra Jegorschki Leal.

Ela, que é formada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) estaria entrando para o quinto semestre no curso, que diz estar fazendo para “uma realização pessoal”.

“Eu paguei a matrícula faz pouco, então estou me sentindo enganada. Eles não deveriam ter aceitado as matrículas”, reclama Alexsandra.

Priscila Meneghetti também está em sua segunda graduação e se formaria em Farmácia no IPA no próximo ano. Há dois anos na instituição, relata que a matéria do Extra Classe “clareou o que ia acontecer”.

Caos e pânico 

Segundo ela, “na verdade, sempre teve histórias, os professores na sala de aula sempre anunciaram a situação crítica, mas a faculdade nunca sinalizou nada diferente. Tipo assim, vamos continuar, estamos num processo, as coisas vão melhorar com o tempo. E o que aconteceu? Nós fomos pegos de surpresa”, desabafa.

Priscila diz ainda: “a gente ia voltar a aula na segunda-feira; estava tudo certo. Eu, por exemplo, me encontrei com o meu coordenador de curso ali no dia 15 de julho para fazer minha grade de horário. A gente fez a minha grade de horário como se fosse fazer o semestre normal e planejando já 2024. Acredito que para ele e para os professores também foi uma surpresa”.

Relatando um estado de pânico entre o corpo discente, Priscila diz que os colegas estão vendo formas de se ajudarem uns aos outros em meio ao caos que se instalou.

“Eu já entrei em contato com o Conselho Estadual de Farmácia para ver se a gente consegue algo, porque, pelo andar da carruagem, que foi feito anteriormente, dá duas opções: ou tu vais para a PUC ou para a Ulbra. Só que os valores pagos por nós na instituição e os valores pagos para essas outras instituições é bem diferente. E não é apenas o valor. Por exemplo, como eu vou me deslocar até a Ulbra? Eu não moro perto, pegaria todo o rush, é de noite. E se eu vou para a PUC? Como é que eu vou para a PUC se eu estudo de noite e o curso é de tarde?”, indaga.

Alunos que tentam buscar informações junto a seus professores não obtêm resposta, “porque nem os professores sabem dizer o que está acontecendo, parece que está sendo um caos”, opina Priscila, que acredita não ter sido pensado do dia para a noite o que ocorreu no IPA.

“Se isso tivesse sido organizado, terminou o semestre passado, avisou os alunos, deu 30 dias. Não! Na sexta-feira, 4, veio um comunicado do coordenador, dizendo que as aulas não iam começar e que nós iríamos ter uma reunião com a reitoria, e na terça uma reunião de curso com ele. Os alunos estão perdidos e desamparados, assim, sabe?”, relata a estudante ao pedir desculpas pelo tamanho do desabafo. Ela diz que ficou a par da situação pelo Extra Classe. “Estou olhando, por exemplo, o Jornal do Almoço para ver se apresenta e ninguém fala nada sobre isso, né?”, conclui.

Rafael Leães, aluno de educação física do IPA, afirma que está muito preocupado com a situação caótica.

“Paguei a matrícula e o mês de agosto. Me parece que hoje darão mais informações nessa reunião e na reunião de terça-feira, 8, no IPA com o coordenador. Não acredito que irão me reembolsar. Caso opte por uma transferência para a PUC, teria que pagar matrícula e o mês de agosto. Sem o reembolso vou perder o semestre.  Situação muito triste”, lamenta.

Como já pagou 33% do semestre, Leães vai buscar a alternativa de tentar fazer o oitavo semestre ainda esse ano e se transferir para a PUCRS em 2024.

Para ele se graduar, faltam 80% do sétimo semestre, duas cadeiras do sexto e “umas cinco cadeiras que ficaram para trás”.

Justificativas

O dirigente do Sinpro/RS, Marcos Fuhr, relata que, na reunião com representantes da Instituição, as justificativas apresentadas pela mantenedora são a falta de alunos e a dificuldade de reestruturação financeira. O IPA não estaria “conseguindo dar a volta por cima” e, por isso, a decisão de suspender suas atividades”.

No sábado, 5, quando apurava a série de relatos de professores e alunos, o Extra Classe fez contato com a assessoria de imprensa do IPA e, não obtendo retorno, fez chegar seu interesse de ouvir a versão da instituição por intermédio de uma coordenadora à reitora, Vera Maciel.

Com a matéria publicada e passado o fim de semana, mais uma vez buscamos um posicionamento do IPA, nesta segunda-feira, 7.

Desta vez, em nota, a direção do Centro Universitário diz que, sobre o IPA, o publicado no Extra Classe “não são informações oficiais” e que “a instituição deverá emitir um comunicado sobre o assunto assim que reunir sua comunidade interna”.

Para o IPA, há informações a serem esclarecidas, termos que não deveriam terem sido utilizados na matéria, que se absteve de ter se manifestado e que os professores e alunos ouvidos não representam a posição oficial.

Em Santa Maria, continua a nota emitida, “em razão da necessária reestruturação estratégica e financeira da Educação Metodista, a Faculdade Metodista Centenário terá seus cursos de graduação (Direito e Educação Física) descontinuados neste semestre acadêmico, no entanto, permanecendo as turmas dos alunos formandos”.

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