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14/11/2018
CARMEN SILVEIRA
OPINIÃO

Fotos: Reprodução Facebook/Reprodução TV Globo/Divulgação/Arquivo Ag. Brasil

Fotos: Reprodução Facebook/Reprodução TV Globo/Divulgação/Arquivo Ag. Brasil

A apresentadora Fernanda Lima gerou controvérsias nas redes sociais ao fazer um discurso sobre o empoderamento feminino na primeira exibição de seu programa de TV após o término do processo eleitoral. Recusando a designação de loucas às mulheres inconformadas e que desafiam as regras, ela fez uma convocatória à sabotagem das engrenagens do sistema de opressão patriarcal.

Um dos comentários que teve grande repercussão midiática se referiu à Fernanda como “imbecil”, reproduzindo o velho discurso misógino que põe em dúvida a capacidade cognitiva das mulheres. Outras críticas foram feitas interpretando a sua chamada como um suposto boicote ao presidente recém-eleito ou sinal de seu antipatriotismo, em meio à atualização de velhas consignas do tipo “ame-o ou deixe-o”. Em comum, estas diferentes reações expressam o mal-estar daqueles que esperam a submissão dos supostamente vencidos.

Na fala de Fernanda Lima escutamos uma imensa multidão de insubmissos, homens e mulheres que reivindicam o acesso a um mundo melhor. Como refere Márcia Tiburi, trata-se de pensar o feminismo a partir de “outra política, outro poder, outra educação, outra ética, outra economia”. Esta forma de compreender a luta feminista não é recente pois historicamente o movimento de mulheres busca a reversão de um sistema de injustiças.

Na medida em que o patriarcado sempre legislou sobre as mulheres – assim como fez com os negros, os pobres ou minorias em geral – o feminismo defende uma democracia radical em que haja espaço para as vozes silenciadas e esquecidas. Por isto, uma das bandeiras do feminismo sempre foi a defesa do pensamento livre não apenas das mulheres, mas de todas as pessoas coagidas e humilhadas.

Sendo o feminismo um chamado para o diálogo, não seria contraditório o apelo à sabotagem? Seria ele apenas um sinal do ressentimento de quem não aceita a derrota? Já que a organização da coletividade continua a ser uma prerrogativa basicamente masculina só restaria às mulheres vandalizar a ordem social? A estas indagações, respondo com um enfático não.

O enunciado de Fernanda Lima é, em primeiro lugar, uma recusa aos pretensos “atributos femininos” de docilidade e coquetismo. Não queremos ser caladas tampouco fugir do conflito, pedir desculpas ou intermediários, especialmente no contexto de neo-conservadorismo em que a virilidade tradicional vem sendo mais insuflada. Nesta onda que exacerba o orgulho fálico e atualiza os privilégios masculinos nos domínios sexual, doméstico e profissional, as mulheres têm boas razões para não aceitar passivamente a subalternidade e o ideal de “verdadeira mulher” que a civilização patriarcal lhes reservou.

Por isto, quando falamos em sabotar as engrenagens da opressão estamos enunciando formas de resistência para além do confronto com os governantes eleitos e seus programas austericidas de Estado Mínimo. A luta das mulheres é mais ampla: trata-se de efetuar contragolpes ali onde a vida estiver ameaçada. Portanto, não é de estranhar que os contragolpes surjam em momentos de crise pois do ponto de vista das subjetividades existe uma coextensividade entre catástrofe e criação, ou seja, sempre que se apresenta um sentimento de fim de mundo também se faz presente um esforço de reconstrução.

Neste sentido, ao invés de resistência (associada no senso comum a estratégias reativas de boicote) melhor seria falarmos de re-existência, como um processo de construção permanente de novas formas de vida. A revolução feminista que se pretende não se dá apenas por uma tomada de poder, mas por insurreições cotidianas que operam descolamentos em relação às formas dominantes de subjetivação e aos clichês que mediam e amortecem nossa relação com o mundo. Assim sendo, a sabotagem não advém apenas dos resultados das urnas pois o foco da disputa é muito anterior ao recente processo eleitoral.

Desejamos um duplo processo de descolonização e despatriarcalização e isto pressupõe também as desindentificações com os modos de vida do capitalismo contemporâneo que apequenam a vida, a favor da criação de novas formas de laços sociais, de relação com o consumo, de produção da informação, de organização política, entre outros possíveis.

Como diria Giorgio Agamben, resistir é também um ato de des-criação da realidade em que os sujeitos se afirmam mais fortes do que o fato que aí está. Logo, no enunciado de Fernanda Lima encontramos a recusa do determinismo de certas formas de existência e de um certo projeto de Brasil em favor da criação de jurisprudências vivas ali onde a lei tende a virar letra morta. Nesta perspectiva, não se trata de uma fala endereçada a alguém que esteja do “outro lado”. Ao contrário, funciona como um agenciamento coletivo direcionado às almas que conhecem um segundo nascimento e que somente por que elas ultrapassaram o medo, a crise de confiança e o ressentimento podem se abrir para o permanente recomeço.

Precisamos imaginar coletivamente novas formas de resistir/re-existir e a interrogação de milhões de Fernandas pode ser um bom ponto de partida: “Bora sabotar tudo isso? ”.

*Carmen Silveira de Oliveira é psicóloga e escreve mensalmente para o site do jornal Extra Classe.

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