OPINIÃO

Agrotoxismo, o Brasil pulverizado

Por Fraga / Publicado em 14 de agosto de 2019

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Como toda criança ou ministro da educação em idade escolar sabe, o Brasil atravessou grandes ciclos produtivos até chegar ao pujante brejo atual. Foi-se o ouro, a cana, o café e o Brasil se perguntou: e agora, o que vai ser da minha vasta economia informal? Muita crise, pouco rivotril.

A saída foi desmanchar com os pés o que as gerações anteriores haviam feito com as mãos. Ainda bem que o Brasil aprendera, em apenas uma eleição presidencial, a jogar pela janela valores e princípios de uma nação. Era um janelão no alto, certo, mas pontaria precisava treino, e muita coisa tinha de ser destruída num curto espaço de governo. Havia que ter fé num projeto arrasador.

Idealizado pelo deprimente da nação, um mutirão logo reuniu os menos capazes do país e logo apareceram ideias estúpidas o bastante para despertar entusiasmo geral. A principal delas derivava do conceito universal da Terra Plana: se a Terra é plana então o Brasil tem a vantagem de uma geografia planificada. E com uma situação geográfica tão favorável à lavoura, nada há de nos deter.

O plano era encontrar no gigantesco território nacional descomunais jazidas de agrotóxicos, prontas para extração e aplicação. Não era possível que, com tanto dejeto químico fluindo por rios e córregos, não se houvessem formado ricas reservas subterrâneas. Logo esperançosas sondagens se espraiaram através de zonas industriais.

Foi quando o deprimente da nação teve um estalo: Peraí, isso vai ser muito caro! O raciocínio, se é que pode ser chamado assim, concluía: seria mais barato abrir as comportas brasileiras para trocentos tipos de agrotóxicos. O mundo não estava ficando sem mercado, com tudo quanto país proibindo pesticidas? Venham pra cá: em se pulverizando e fumegando aqui tudo dá, o Brasil dá-se todo!

Graças ao agrotoxismo adotado pelo deprimente da república e seus impensantes ministros da agricultura e do meio ambiente, vem aí um novo ciclo: o envenenamento da consciência nacional. Agrotóxicos liberados para ir da terra à mesa. Agrotóxicos para contaminar nossa gente e nossa fauna, nossas águas e nossa flora. A intoxicação de uma democracia indefesa.

A Terra é plana quando  a ignorância é plena.

*Fraga escreve mensalmente para o jornal Extra Classe.

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