OPINIÃO

Eu te influencio, tu me influencia, nós nos influenciamos

Por Moisés Mendes / Publicado em 31 de outubro de 2023

Eu te influencio, tu me influencia, nós nos influenciamos

Foto: Freepik

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Há pelo menos uma notícia sobre influencers, todos os dias, nas redes sociais e nas capas das versões online dos jornais brasileiros. E geralmente são notícias ruins, porque a desgraça é a manchete que vende.

Essas manchetes abaixo são transcritas aqui exatamente como apareceram recentemente nos jornais:

Nataly Castro, influenciadora de viagem e turismo, desaparece na África. Morre Rodrigo Amendoim, influenciador de 24 anos. Influencer Léo do Coque é detido em Maceió após suspeita de agredir Gicely Rafaela. Corpo da cantora gospel, pastora e influenciadora Sara Mariano, de 38 anos, foi encontrado carbonizado. Tassio Bacelar, influencer com mais de 700 mil seguidores, morre após queda de bicicleta em Salvador. Influencer é internada na UTI após ser agredida pelo ex com golpes de facão. Morre influencer de Japurá agredida pelo marido.

Os jornais acrescentam, logo ao final dos títulos, uma informação padrão: quem era, se o influencer morreu, ou quem é, se está vivo. Porque no mundo dos nichos virtuais a maioria não sabe quem é Nataly, Amendoim, Léo do Coque ou Gicely.

Influencers morrem quase todos os dias, como morriam precocemente as estrelas do rock. Morrem ou estão envolvidos em algum incidente ou em alguma confusão que vira notícia.

Mas e as notícias boas sobre os influenciadores? Ficam em segundo plano, porque não é o que importa. O público quer saber da desgraceira na vida dos neofamosos.

Eles são muitos. Um estudo da consultoria Nielsen revelou no ano passado que há pelo menos 500 mil brasileiros com no mínimo 10 mil seguidores nas redes sociais. Mas tem gente que nunca ouviu falar de Virginia Fonseca.

Virginia tem mais de 40 milhões de seguidores no instagram, 36 milhões no TikTok e 12 milhões no YouTube. Milhões é o que ela ganha por mês para mostrar sua rotina, a casa, a família. E fazer propaganda de cosméticos e qualquer produto para mulheres.

Cada vídeo que ela faz é visto por no mínimo 5 milhões de pessoas. É o mundo de Virginia, Whindersson Nunes, Felipe Neto, Carlinhos Maia, Anitta, mas é também o vasto mundo de Nataly, Amendoim, Léo do Coque.

Gente que antes tinha que ir ao Faustão para se virar nos 30, agora faz tudo sozinho, com um celular e um tripé, sem pedir licença a ninguém. E nós vamos descobrindo, a cada notícia ruim, que um influencer é notícia diária porque eles são muitos.

Eles brigam com namoradas e namorados, se separam, desfazem parcerias, envolvem-se em acidentes, amam, desamam e também morrem. E morrem jovens.

Até alguns anos atrás, morreriam como pessoas comuns, estudantes, comerciárias, motoristas, auxiliares de pedreiro. A fama foi socializada. Qualquer um pode ter a chance de ser famoso como nunca teve antes.

Os influencers que viram manchete e de repente surgem à nossa frente, sem que nunca se tenha ouvido falar deles, são celebridades porque criam vínculos pelo poder da empatia. Funciona assim em qualquer área.

Temos milhares de Hebes Camargos sem chefe, sem ter que pedir licença a ninguém, fazendo humor, praticando esportes, malhando e vendendo produtos de beleza, falando da própria vida, mostrando roupas, dando dicas até de como escovar os dentes.

A mesma pesquisa da Nielsen citada antes mostrou que 75% dos jovens brasileiros querem ser influenciadores digitais. Não querem mais ser engenheiro, médico, professor ou artista de TV.

É o atalho para a visibilidade e a ascensão social. A Nielnsen revela que mais de 60% deles querem ganhar dinheiro na internet.

Nem é preciso chegar à idade adulta. Hoje, um influencer famoso pode estar sentado ao lado de um colega na sala de aula do ensino médio. Ou pode estar numa creche, como estão as irmãs gêmeas goianas Alice e Bibi, de cinco anos, que fazem sucesso desde que nasceram. Crianças passaram a sustentar famílias.

O antigo formador de opinião do século 20 tem a concorrência do influencer de qualquer idade, incluindo idosos, mesmo que esse não seja uma cópia do outro. Podem dizer que o poder de ser referência perdeu em densidade e profundidade e ganhou em superficialidade. Mas assim é o mundo virtual do século 21.

O influencer é muito mais alguém dedicado ao entretenimento do que à disseminação de informação ou opinião sobre assuntos complexos. Mas é ele que a maioria quer ouvir e a ele as marcas entregam seus produtos.

O influencer é o fenômeno de massa de um mundo depressivo em busca de pequenos prazeres até nessa troca em que alguém diz ao outro que está feliz por vestir algo que agora mesmo ou daqui a alguns dias esse outro também poderá vestir.

É mais real, mais próximo e mais verdadeiro do que se for dito por uma artista analógica de novela. O novo famoso tem a aceitação, a audiência e o aplauso de quem reconhece sua ascensão como uma pessoa comum que virou celebridade.

Essa é a melhor expectativa de quem segue uma influencer: se ela chegou lá sozinha, eu posso chegar, sem ter de pedir para a Globo. O seguidor do influencer acredita que pode ser o que ele é amanhã. Se tiver talento, basta um celular.

Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.

 

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