SAÚDE

Vale do Caí se torna referência na doação de órgãos

Em menos de dois anos, a região que contava com 100% de negativa familiar para a doação de órgãos passou a registrar 62% de afirmativa. De janeiro de 2018 a setembro de 2019 foram feitos 17 transplantes.
Por Gilson Camargo / Publicado em 25 de setembro de 2019
Abraço ao Hospital Montenegro no dia 27 de setembro de 2018

Abraço ao Hospital Montenegro 100% SUS no Dia Nacional da Doação de Órgãos do ano passado assinalou o engajamento da população

Foto: Rodrigo Waschburger

Em um cenário de redução de transplantes por falta de doadores, em que o Rio Grande do Sul, pioneiro na área, caiu para a oitava posição no país, o projeto Cultura Doadora comemora o resultado de uma trabalho intenso que mudou a realidade do Vale Caí, região de 19 municípios, distante 60 quilômetros de Porto Alegre. O Hospital Montenegro 100% SUS, que até o final de 2017 registrava 100% de negativa familiar para a doação de órgãos, hoje tem 62% de afirmativa.

De janeiro de 2018 a setembro de 2019 foram captados 28 órgãos na região e realizados 17 transplantes. A rede de atuação resultou também na constituição da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (Cihdott), no Hospital Montenegro 100% SUS, com o apoio da Organização de Procura de Órgãos da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (OPO1), da OPO2 e da OPO cirúrgica.

Com uma intensa programação de atividades, como palestras, oficinas e show, o Cultura Doadora iniciou em janeiro de 2018 uma forte mobilização, envolvendo estudantes, professores, agentes da saúde, agricultores da região. A doação de órgãos, até então praticamente desconhecida para muitos, passou a ser assunto de centenas de famílias. “O medo é constituído fundamentalmente pela falta de informação. A partir do momento que as pessoas entendem o processo, se abrem para a possibilidade de se tornarem doadores”,  explica Marcos Fuhr, presidente da Fundação Ecarta.  “O hospital e sua equipe preparados para trabalhar com a doação de órgãos é outro ponto fundamental. Se a família não se sentir acolhida desde a entrada do paciente no hospital, certamente a resposta para a doação dos órgãos será negativa”.

A coordenadora do projeto, Glaci Borges, apresentou o trabalho realizado na região do Vale do Caí para a imprensa

A coordenadora do projeto, Glaci Borges, apresentou nesta quarta, 25, o trabalho realizado na região do Vale do Caí

Foto: Igor Sperotto

O case foi apresentado em Porto Alegre a jornalistas em uma coletiva na sede da Fundação Ecarta, mantida pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), na manhã desta quarta-feira, 25 de setembro, dois dias antes do Dia Nacional da Doação de Órgãos, com a presença de profissionais de saúde do Hospital de Montenegro e da Santa Casa de Porto Alegre. A iniciativa integra a programação da Ecarta, intensificada, nesta semana, para marcar o Dia Nacional da Doação de Órgãos (Confira abaixo).

“Não tínhamos noção de que poderíamos fazer captação de órgãos em um hospital do interior, com 150 leitos, que atende 14 municípios da região”, relata Carla Giuliane, psicóloga e integrante da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Cihdott) do Hospital Montenegro 100% SUS”

O primeiro procedimento foi feito em janeiro de 2018, após a decisão da família de Felipe Santos Silveira, 17 anos, que teve morte encefálica após um acidente de moto, de doar seus órgãos: coração, pulmões, rins e fígado. Iniciava-se um novo momento para o Hospital Montenegro 100% SUS e para a região. “A partir daí vimos o potencial que tínhamos no hospital e não teve mais volta”, destaca Carla. Segundo ela, a equipe acompanha com muito aprendizado e empenho o “impressionante” caminho que a família de um potencial doador faz dentro do hospital, sendo atendida pelos mais diversos setores. “É preciso acolher a família que está perdendo alguém e esse acolhimento psicológico independe de uma negativa. “Se a resposta é negativa, a gente respeita”, explica a psicóloga.  “Sem o acolhimento à família durante a sua permanência no hospital, nada vai funcionar”, confirma Valéria Weymar, enfermeira da UTI e integrante da Cihdott do Hospital Montenegro 100% SUS.

O passo a passo do projeto

As enfermeiras da OPO 1 do Hospital Santa Casa de Porto Alegre e equipe da Cihdott do Hospital Montenegro

As enfermeiras da OPO1 do Hospital Santa Casa de Porto Alegre e a equipe da Cihdott do Hospital Montenegro

Foto: Igor Sperotto

O primeiro passo para levar o Cultura Doadora para o Vale do Caí, após a constatação do alto índice de negativa familiar, foi formar uma rede de parceiros – o Hospital Montenegro 100% SUS, mantido pela Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas (Oase), o jornal Ibiá e a Fundação de Arte de Montenegro (Fundarte) – e promover atividades para levar informações sobre todo o processo: da doação de órgãos ao transplante, com enfoque também para o avanço da ciência nesta área.

Neste processo, o projeto contou com a atuação incansável da médica Tatiana Michelon, do Hospital Montenegro, que viu no Cultura Doadora a possibilidade de transformar a realidade no Vale do Caí, onde atendia pacientes na hemodiálise. “A Cultura Doadora se conquista com um projeto consistente, permanente e parcerias engajadas”, destaca Glaci Borges, coordenadora do projeto. A Fundação Ecarta manterá este projeto no Vale do Caí, assim como pretende ampliá-lo para outras regiões. Esta cultura salva vidas”, ressalta.

Todo o trabalho do projeto Cultura Doadora é realizado com o apoio voluntário de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e demais profissionais da saúde atuantes na área de transplantes, além de pessoas que estão na lista de espera, pessoas transplantadas e famílias doadoras. O projeto percorreu e continua percorrendo de comunidades rurais a ambientes corporativos, com ênfase na rede escolar e nos centros de saúde dos municípios que compõem o Vale do Caí.

CULTURA DOADORA – Criado há sete anos pela Fundação Ecarta, trabalha na constituição de uma rede de informação sobre doação e transplante de órgãos, que passa principalmente por escolas e centros de saúde, iniciativa privada e organização civil. No total, já levou informações sobre o contexto da doação de órgãos e tecidos para mais de 15 mil pessoas em palestras e oficinas gratuitas no Rio Grande do Sul. Além de Porto Alegre e da região do Vale do Caí, com ênfase nos municípios de Montenegro, Maratá e Brochier, o Cultura Doadora percorre outras cidades por meio de atividades gratuitas.

No site do projeto (www.culturadoadora.org.br), o projeto disponibiliza informações, orientações, a programação, contatos e subsídios pedagógicos para os professores abordaram o assunto em sala de aula, da educação infantil à educação superior.

Programação especial pela doação de órgãos e tecidos

26 de setembro (quinta-feira)
10h – bate-papo gratuito no Pavilhão Comunitário da Vila Nova, em Brochier (a 24 km de Montenegro)
14h – visita comentada na Semana de Doação de Órgãos e Tecidos, em todos departamentos do Hospital Montenegro 100% SUS, em Montenegro

Los 3 Plantados

Los 3 Plantados – Bebeto Alves, King Jim e Jimi Joe

Foto: Fernanda Chemale

27 de setembro (sexta-feira) – Dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos
19h – show gratuito da Los 3 Plantados na Ecarta (Av. João Pessoa, 943 – Porto Alegre)
Os músicos Bebeto Alves, Jimi Joe e King Jim, passaram por transplante há seis anos e assumiram o compromisso de criar uma banda de rock. Por meio das composições, o trio compartilha experiências vivenciadas no processo de doação de órgãos, além de incentivar, de forma sensível e artística, as famílias a dialogarem abertamente sobre a autorização no momento de doar.

29 de setembro (domingo)
10 às 14h – bate-papo no Parque da Redenção, em Porto Alegre,  juntamente com a equipe da Liga de Transplante de Órgãos

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