SAÚDE

Covid-19: país se aproxima de 3 milhões de casos e 100 mil mortes

Contágios e óbitos pelo novo coronavírus avançam ante a indiferença do governo Bolsonaro e ausência de um plano emergencial contra a pandemia
Por Gilson Camargo / Publicado em 7 de agosto de 2020
“A gente lamenta todas as mortes, vamos chegar a 100 mil, mas vamos tocar a vida e se safar desse problema”, desdenha Bolsonaro em video

Foto: Facebook/ Reprodução

“A gente lamenta todas as mortes, vamos chegar a 100 mil, mas vamos tocar a vida e se safar desse problema”, desdenha Bolsonaro em video

Foto: Facebook/ Reprodução

63 dias sem ministro da Saúde e sob uma obscura política de omissão de informações e negação da pandemia, o Brasil deve atingir neste final de semana o patamar de 100 mil mortes e 3 milhões de contágios pelo vírus Sars-Cov2, causador da Covid-19.

O primeiro caso foi registrado no país no dia 26 de fevereiro, em São Paulo – um homem de 61 anos que regressou da região da Lombardia, principal epicentro da crise sanitária na Itália naquele mês. Desde o registro desse primeiro caso, a proliferação do vírus se multiplicou e atingiu todos os estados brasileiros por meio do contágio comunitário, em que não é mais possível identificar onde os doentes contraíram o vírus.

Às 18h desta sexta-feira, 7, o Brasil contabilizava 2.912.212 casos e 98.439 mortes de acordo com o painel global de Covid-19 da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. Mas esses números já estavam defasados pela contagem do consórcio de veículos de imprensa com base nas notificações informadas pelas secretarias de Saúde dos estados – quase 400 óbitos a mais. É o segundo país em infecções e mortes, depois dos EUA.

RIO GRANDE DO SUL – O Rio Grande do Sul atingiu nesta sexta-feira 79.026 casos, 265 nas últimas 24 horas e 2.282 mortos. Foram 51 óbitos em um dia. A taxa de ocupação de leitos de UTI no estado oscila em 75,6% e a pandemia se espalhou por 471 municípios, 95% do estado. Em Pelotas, na região Sul do estado, a prefeitura editou um decreto que coloca o município em isolamento total (lock down) do meio-dia deste sábado até o meio-dia de terça-feira, 11.

SÃO PAULOSão Paulo atingiu 24,7 mil óbitos e 608,3 mil casos de coronavírus. As taxas de ocupação dos leitos de UTI são de 58,1% na Grande São Paulo e 59,8% no estado. O número de pacientes internados é de 12.734, sendo 7.352 em enfermaria e 5.382 em unidades de terapia intensiva, conforme dados das 10h30 de hoje. Dos 645 municípios, houve pelo menos uma pessoa infectada em 641 cidades, sendo 488 com um ou mais óbitos. A secretaria de Educação anunciou o adiamento da reabertura das escolas para o dia 7 de outubro.

Às 18h desta sexta-feira, 7, o Brasil contabilizava 2.912.212 casos e 98.439 mortes de acordo com o painel global de Covid-19 da Universidade Johns Hopkins

Imagem: Reprodução

Às 18h desta sexta-feira, 7, o Brasil contabilizava 2.912.212 casos e 98.439 mortes de acordo com o painel global de Covid-19 da Universidade Johns Hopkins

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Falta de transparência, negação e fake news

Os dados públicos sobre a pandemia não são transparentes no Brasil, onde o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) assumiu uma postura de negação da pandemia e desdém em relação às mortes. Desde o dia 5 de junho, o ministério da Saúde excluiu do boletim epidemiológico diário da pasta o total de pessoas infectadas e de mortes no país.

O portal oficial de informações do ministério simplesmente apagou as tabelas que evidenciavam a curva de evolução da pandemia desde a primeira notificação. As informações só passaram a ser disponibilizadas por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), mas ao invés de adotar práticas de transparência, o governo se limitou a informar o total de casos, recuperados e óbitos, ocultando a evolução da pandemia. As políticas de enfrentamento da crise sanitária minguaram com as sucessivas demissões no ministério da Saúde, que desde maio é comandado interinamente por um militar, o general da reserva Eduardo Pazuello.

Movido a fake news, negligência e deboche, Bolsonaro fez uma aparição em um vídeo no Facebook na última quinta-feira. Atrás de uma mesa com uma caixa de hidroxicloroquina – medicamento vetado pela comunidade científica como ineficiente contra a Covid-19 – e autografando camisetas de times de futebol, o presidente desdenhou a aproximação da marca dos 100 mil mortos: “A gente lamenta todas as mortes, vamos chegar a 100 mil, mas vamos tocar a vida e se safar desse problema”, disse.

Pazuello fora de contexto

O ministro militar interino da Saúde, Pazuello, desconversa

Foto: Marcos Corrêa/ Presidência da República

O ministro militar interino da Saúde, Pazuello, desconversa

Foto: Marcos Corrêa/ Presidência da República

Sem um plano de enfrentamento da crise sanitária até agora, o governo desconversa. O próprio ministro admite a paralisia em relação ao avanço da pandemia. “A gente não tem uma solução imediata para o aumento [de casos], mas para o tratamento dos doentes, sim. Eu posso afiançar que o Sul do país está seguindo claramente essas posições que eu coloquei aqui quanto ao tratamento”, disse, em referência à mudança na diretriz do Ministério da Saúde, anunciadas no início de julho.

Na ocasião, a pasta alterou o protocolo médico para pessoas que sentirem sintomas leves da doença, passando a solicitar que tais pacientes passem a procurar um médico. Antes, a diretriz indicava a busca por ajuda profissional apenas em caso de sintomas mais graves.

“O que pode mudar a curva de óbito é você aplicar o aprendizado o mais rápido possível. E o aprendizado que nós mudamos foi: procure um médico imediatamente. O médico, de forma soberana, fará seu diagnóstico e vai prescrever os seus medicamentos. Se você piorar, deverá ir para uma estrutura de suporte ambulatório, não necessariamente será intubado. Para que você cumpra o ciclo viral sem a necessidade de respiradores”, disse o ministro.

Pazuello, que na condição de ministro interino vem se notabilizando por declarações fora de contexto, acha que o país está enfrentando uma segunda fase da pandemia, que ele ve com mais força nos estados do centro-sul do país.

“São duas etapas bem distintas. O Norte e o Nordeste do país foram impactados no começo do ano, de março até junho, e agora o impacto do centro-sul: Sudeste, Sul e Centro-Oeste, em alguns casos, em que nós vamos ter o recrudescimento, o aumento dos casos, e com isso necessidade de tratamento maior nesses estados, por causa do inverno. Tem a ver com o inverno no Sul, que aumenta os casos”, disse na live.

Pandemia fora de controle na América Latina

Um novo relatório conjunto da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) indica que somente se a curva de contágio da pandemia de Covid-19 for achatada, as economias da região poderão ser retomadas. O relatório propõe uma abordagem com três fases que incluem a adoção de políticas de saúde, econômicas, sociais e produtivas destinadas a controlar e mitigar os efeitos da pandemia, reativar com proteção e reconstruir de maneira sustentável e inclusiva.

“Alguns países têm levado a região a se tornar no atual epicentro da pandemia, encabeçando as estatísticas de casos mundiais. Em 29 de julho, foram registrados mais de 4,5 milhões de casos de Covid-19 e quase 190 mil mortes na América Latina e no Caribe. Um número significativo de países está longe de alcançar um achatamento sustentado e significativo da curva de contágio. No nível social e econômico, a pandemia desencadeou uma inédita crise econômica e social, e, se medidas urgentes não forem tomadas, poderá se transformar em uma crise alimentar e humanitária”, alerta o comunicado.

“Enfrentamos um desafio sem precedentes, que requer sistemas de saúde sólidos e bem financiados para superar essa crise e, assim, poder se recuperar. Investir em saúde pública até alcançar pelo menos 6% do PIB, com ênfase particular na atenção primária à saúde, é proteger as realizações alcançadas na saúde, mas também, assegurar o desenvolvimento sustentável e enfrentar a crescente pobreza e as desigualdades na região”, considerou Carissa Etienne, diretora da Opas.

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