Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 015| Ano 2 | Set 1997
L. F. VERÍSSIMO

Menores e maiores

Veríssimo

Os mais pequenos chegam pastoreados por uma professora e se dividem entre os deslumbrados, os envergonhados e os chateados. Os deslumbrados olham para tudo com uma certa reverência. Foram avisados pela professora que iriam visitar a casa de um “escritor”, esse bicho mítico, e passaram por vários dias de preparação e catequese. Sua cara é de expectativa e, um pouco, de insegurança. Os envergonhados cochicham muito entre si.Para eles, qualquer coisa é motivo de riso nervoso e mais vergonha. Os chateados claramente preferiam estar em outro lugar.
Há sempre dois ou três que se destacam pela seriedade e o interesse. Entre estes, há sempre uma gordinha mais viva que fala com um desembaraço de adulto, para grande embaraço dos envergonhados, que precisam tapar a boca para não rir. O palhaço da turma às vezes custa a aparecer mas cedo ou tarde se revela. Você nota que ele é irreprimível pela resignação da professora. É o bobo consentido. Mas os envergonhados quase morrem com suas bobagens. O que é que o Escritor vai pensar de nós?

A entrevista normalmente começa com a professora lembrando ao grupo por que estão ali. Ela faz uma recapitulação do que estudaram em aula, depois diz ao entrevistado que os alunos prepararam perguntas. A ordem dos entrevistadores já veio pronta. Depois de alguma hesitação – e mais riso reprimido dos envegonhados – um aluno faz a primeira pergunta, custando um pouco para ler a própria letra.

– Como é seu nome?

Não é uma pergunta absurda. Não é que ele não estivesse prestando atenção na aula. É que é preciso começar tudo pelo começo, a primeira coisa a estabelecer é o nome do entrevistado – ou que não estão na casa errada. As outras perguntas variam muito mas há sempre uma sobre meus tempos de escola. Eu era um bom aluno? Sou obrigado a responder que não, que nunca gostei de estudar e ia à escola a contragosto. Esta resposta sempre repercute muito bem entre os chateados.

Uma vez uma menina – acho que foi a gorda – me perguntou se eu tinha irmãos. Respondi que tinha uma irmã, que morava nos Estados Unidos e era mais velha do que eu. Um garoto arregalou os olhos e perguntou, assombrado:

– Mais velha?

Não sei o que passou pela cabeça dele. Talvez parecesse inconcebível que existisse alguém mais velho do que eu no mundo. É um sentimento que eu mesmo tenho freqüentemente.

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Os mais velhos geralmente chegam em grupos pequenos. Estão preparando um trabalho para apresentar na aula de Português ou – se são universitários – no curso de Letras ou Jornalismo, e querem me fazer algumas perguntas pessoais em geral ou sobre tudo em particular. As entrevistas costumavam começar com a Cerimônia do Gravador – Está gravando? Acho que não. Testa. Alô, um dois três. Gravou? Deve ser a pilha – mas hoje sofisticaram-se. É comum aparecerem na minha casa com câmera de vídeo, tripé e refletores, se bem que ninguém ainda me pediu para fazer maquiagem. Estas superproduções são boas porque nos desobrigam de ser coerentes, podemos dizer qualquer coisa que ninguém prestará muita atenção, estarão mais preocupados com ângulos e imagens e só descobrirão que entrevistaram um enrolado na edição.

O nível dos questionários costuma ser alto e as perguntas são quase sempre claras e objetivas. Meu maior problema é que muitas vezes esqueço que estou falando com gente que nasceu no governo Figueiredo, e que o que para mim é ontem para eles é História. Felizmente os Beatles lançaram um disco novo e não preciso me esforçar para explicar o que eles eram, embora continue difícil explicar o que significaram.

E felizmente são poucas as perguntas como a da moça de óculos que queria saber se, na minha opinião, reificação e antropomorfização eram fenômenos convergentes ou díspares, o que me obrigou a dar uma resposta curta e categórica:

– Depende.

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