Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 022 | Ano 3| Jun 1998
L. F. VERÍSSIMO

Nojo Seletivo

Veríssimo

Já ouvi homens sóbrios recorrerem a imagens parnasianas para descrever a textura e a maciez de carne de rã. Não me convenceram. É um preconceito como qualquer outro, inclusive de cor. Nenhum animal verde me merece confiança – ainda mais no prato. Também resisto a qualquer tipo de miúdos. Menos o coração, talvez porque tão nobre órgão não mereça o nome de miúdo.

A verdade é que nossa repugnância seletiva com algumas comidas não tem explicação racional. Não há nenhuma diferença formal, por exemplo, entre o muçum e a cobra, que em certos países é uma iguaria. Mas não posso imaginar uma situação tão extrema que me obrigasse a comer cobra.

– Prove. Foi carneada agora.
– Muito obrigado.
– Tem a contextura de…
– Por favor, sem detalhes.
– Olhe que não há mais nada para comer.
– Esta sola de sapato, para mim, está ótima.

Há quem coma gafanhotos caramelados. Formigas fritas com tempero verde e… Está bem, sem detalhes. Tudo depende de nossa formação cultural, dos nojos que aprendemos. Por que comemos leitões e ovelhas sem hesitação ou piedade e nos horrorizamos com a idéia de comer um cachorrinho? Ou um bom gato?
Dizem que a maior e mais antiga fome da humanidade é por carne humana mesmo e que vem daí todos os nossos pudores. Só estamos tentando disfarçar a vontade de nos entredevorarmos em várias combinações. Todas as nossas regras de culinária e comportamento seriam para esconder esta preferência comum. Bom, mas bom mesmo, é gente.

– Perna ou peito?
– Um antebraço, por favor. Tem menos gordura.
– Olha gente, este fêmur ainda tem carne.
A carne humana variada, claro, de acordo com o modo de preparar e procedência.
– Pô, este peito era de halterofilista!

Mas, que eu saiba, não existe pessoa verde.

Gaúchos e cariocas

É preciso dizer que estávamos naquela brumosa terra de ninguém, que fica depois do décimo ou décimo-quinto chope. Tão brumosa que não dá mais para distinguir entre o décimo e o décimo quinto. Tínhamos sido apresentados no começo da noite, mas já éramos amigos de infância. Em poucas horas nossa amizade passou por vários estágios, desde o “leste Memórias de Adriano?” até as piores confidências, e agora nós comportávamos como confrades, como se nossa amizade fosse mais antiga que nós mesmos. Isto é, estávamos brigando.

– Vocês gaúchos…
– O que é que tem gaúcho?
– Pra mim gaúcho é tudo veado.
– Não radicaliza.
– Se tem que dizer que é macho, é porque não é.
– Lá no sul se diz que numa briga de gaúcho, paulista, mineiro e carioca, o gaúcho bate, o paulista apanha e o mineiro tenta apartar.
– E o carioca?
– Fugiu.
– Viu só? Pensam que são mais machos que os outros. Diz que as bichas de Paris protestaram porque as bichas cariocas estavam invadindo o seu mercado: “Voltem para o Rio!”. Aí as bichas cariocas reagiram: “Ah, é? Então tirem as gaúchas de lá”.
– Está aí, fugiram. Mas isso tudo é mágoa porque são os gaúchos que mandam neste país. Vocês estão assim desde que nós amarramos os cavalos ali no obelisco.
– Aliás, essa fixação no obelisco…
– Gaúcho é o único brasileiro sério.
– Sem graça não é sério.
– Só o gaúcho fala português. Essa língua de vocês não existe. Paulista põe “i” onde não tem. Vocês falam chiando. Onde tem um “r” botam dois e onde tem dois botam quatro.
– Vocês falam espanhol errado e pensam que é português!
– Mas o que a gente diz é pra valer. Não é como carioca que diz uma coisa e quer dizer outra.
– Ah, é?
– É. Quando carioca encontra alguém, diz: “Meu querido!”, quer dizer que não se lembra do nome. “Precisamos nos ver” quer dizer “está combinado, eu não procuro você e você não me procura”.
– O que vocês não agüentam é que nós, cariocas, somos informais, bem-humorados…
– Isso é mito. Entra num “Grajaú-Leblon” lotado na Nossa Senhora de Copacabana, às três da tarde, no verão, que eu quero ver o bom humor.
– Não radicaliza.
– Os mitos cariocas. O Zico, por exemplo…
– Eu sabia. Eu sabia que ia chegar no Zico!
– O Zico é uma entidade abstrata criada pelo inconsciente coletivo do Maracanã.
– O campeão do Mundo. Campeão do Mundo!
– Porque não entrou nenhum inglês no calcanhar dele. Se encosta um, o Zico cai.
– É. O bom é o Batista.
– Não troco um Batista por dois Zico.
– Ai meu Deus. Ai meu Deus!
– Outra coisa: mulher.
– Claro. Mulher. Mulher carioca não vale nada.
– Vale. Mas é sempre da mesma cor. Mulher tem que ir mudando de cor com as estações. Quando chega o verão as gaúchas vão tostando aos poucos, como carne num braseiro de chão, até estar no ponto. Só ficam prontas mesmo em Fevereiro. A carioca está sempre bem passada. É como comer churrasco em bandeja.
– É. A medida de todas as coisas, para o gaúcho, é o churrasco. A comida mais sem imaginação que existe.
– Vai dizer que comida é isso que vocês comem aqui?
– Mas bá.

Eu estava levando o chope à boca e parei.
– O que foi que você disse?
– Eu? Nada.
– Você disse “mas bá”.
– Está bem. Eu disse.
– Disse. Eu ouvi nitidamente um “mas bá”.
– Está bem. Eu disse.
– De onde você é?
– Dom Pedrito.

Estava no Rio há menos de dois anos e chiava como uma locomotiva no cio. Mas não me senti triunfante. Me senti derrotado. Eu estranhara ele não ter dito: “Se você gosta tão pouco do Rio, o que é que está fazendo aqui?”. Eu não poderia responder a não ser com a verdade, que era fascinado pelo Rio. Uma característica de gaúcho é que gaúcho é fascinado pelo Rio. E ali estava ele como prova que depois do fascínio vinha a rendição, a vitória carioca. Acabou a discussão. Nos despedimos e saímos, cada um cambaleando para um lado. Na saída ele ainda disse:
– Precisamos nos ver…

Crônica extraída do livro “Comédias da vida privada”.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS