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Nº 025 | Ano 3 | Set 1998
MOVIMENTO
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Pesquisas comprometidas

André Marenco avalia que os institutos de pesquisa saíram comprometidos desta eleição. “No RS, a sondagem indicava um resultado diferente do que aconteceu. A sinalização de um virtual vencedor induz ao voto. O interessante é que os erros, cometidos em vários estados, se acentuaram para o mesmo lado. Tendo a pensar que no segundo turno, os institutos vão ser mais cautelosos. Caso contrário, a credibilidade cai por terra”.
Flávio Silveira entende que os erros nos prognósticos das pesquisas eleitorais, provavelmente, estejam associados à metodologia. “A partir do momento em que as pesquisas começaram a apresentar índices muito próximos aos resultados oficiais, se criou um mito. Mas os erros ocorrem e não só no Brasil. Isto mostra o quanto o instrumento de pesquisa requer cuidados na interpretação”.
Silveira alerta que a pesquisa não pode ser vista como certeza matemática. Explica que os próprios pressupostos da teoria estatística/probabilística mostram um intervalo de confiança no patamar de 95%. Ou seja, em 100 casos, 95% vão seguir o padrão desejado e 5% podem estar completamente equivocados. Além disso, tem a margem de erro de 3%. Para ele, foi perfeitamente normal a situação apresentada pelo Datafolha, indicando uma diferença de 2 pontos percentuais nos últimos prognósticos da eleição gaúcha. A diferença entre os dois candidatos ao governo do estado foi de 0,48%. “Este não foi o caso do IBOPE, que apontou 5 pontos de diferença. Aí o problema é de ordem metodológica.

Marketing – Os principais marqueteiros do Brasil, como é o caso do Duda Mendonça, responsável pela campanha do Antônio Britto, fazem pesquisas quase que diariamente. Não para ver a intenção de votos, mas sim as características mais desejadas e rejeitadas em cada candidato. Os pontos vulneráveis de um e outro. Estes elementos são fundamentais para a estratégia de marketing. O princípio do marketing é corresponder às expectativas do grupo, seja ele consumidor ou eleitor. O trabalho é neutralizar as características negativas, valorizar as positivas e acentuar as negativas do adversário. As estratégias de marketing, utilizadas com sucesso, têm resultados nas pesquisas de intenção de voto.
“Os Estados Unidos têm dois partidos tradicionais. Os americanos são republicanos ou democratas. No Brasil, a realidade é diferente. A preferência partidária é relativamente baixa. A volatilidade eleitoral é grande. Há o voto incoerente do ponto de vista político. Tudo isto faz com que os institutos de pesquisa tenham poucas condições de constatar alguma alteração. Não podemos creditar todos os erros aos institutos. As pessoas mudam de postura sem constrangimento. É claro que os prognósticos e os resultados de boca-de-urna deveriam dar certo”, analisa Silveira.
Céli Regina Pinto tem opinião diferente. Para ela, as pesquisas passam por uma crise de credibilidade não só no Brasil. Uma das causas é a metodologia. As técnicas não correspondem mais à complexidade em que estamos vivendo. “Se é isto, acho que está na hora de a comunidade científica se manifestar. Mas se não é erro metodológico está havendo manipulação dos resultados. E aí, não é mais uma questão científica, mas sim ética, porque há erros do Piauí ao Rio Grande do Sul. Os mais flagrantes estão no Piauí, Distrito Federal, São Paulo, Goiás. Há uma grande coincidência. Os erros foram a favor do governo e contra a oposição”, assinala.

Pesquisas – Os institutos disseram que Marta Suplicy tinha 14% das intenções de votos, quando na verdade tinha 23%. “Isso é manipulação eleitoral. Em qualquer manual de Ciência Política, consta que entre um candidato péssimo, um mais ou menos e um que o eleitor quer votar, mas que não tem nenhuma chance, ele vota no mais ou menos para o péssimo não ganhar. Se Mário Covas está no segundo turno em São Paulo é devido a isto. É evidente que 10% da população não acordou com um ataque de Martite aguda. A questão é muito séria”.
Também está se popularizando no Brasil, através dos formadores de opinião, a idéia de que o PT e os partidos de esquerda são de chegada. São de chegada porque só um dia antes das eleições as pesquisas dizem que o PT está ganhando, ou próximo. Em 1994, o PT foi partido de chegada. Todo mundo achava que não ia chegar ao segundo turno e chegou. Agora não só chegou, como chegou empatado. “Mas ninguém muda de voto do dia para noite. O eleitor brasileiro está sendo tratado como esquizofrênico. Se as pesquisas não sabem auferir os resultados, a sociedade pode dispensá-la. É claro que se elas forem controladas pela sociedade não vejo nenhum problema de serem divulgadas”, acentua Céli.

De Chimangos e Maragatos
A cultura política gaúcha, ao contrário de outros estados, valoriza elementos como honestidade, integridade, responsabilidade. Em São Paulo, Rio de Janeiro e nordeste existe mais tolerância. A campanha do Olívio, sustentando que Britto estaria mentindo, teve um efeito significativo. “Talvez não tivesse a mesma influência em outros estados”, compara Flávio Silveira, embora admita que faltam estudos mais profundos para explicar estas diferenças. Do Império para República, o RS teve uma experiência positivista singular no Brasil, com Júlio de Castilhos. Depois com Borges de Medeiros. Daí derivou o trabalhismo de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, com força ímpar. O PT ocupou um pouco deste espaço. “Antes assinalei como o eleitor muda, mas também é preciso sublinhar que sempre existe uma polarização entre dois candidatos principais”.

Porto Alegre – O eleitor porto-alegrense tem uma tradição oposicionista por questões históricas específicas, pela questão comercial e a região metropolitana também. E o RS sempre foi dividido – metade era maragato e outra chimango. No século XIX, metade era conservadora e a outra liberal. Quando todos os outros estados tinham liberais, os gaúchos tinham conservadores. Quando todos tinham os republicanos, no RS tinha os federalistas, depois os libertadores. “A maturidade política do RS pode ser justificada pelo fato de sempre ter havido duas propostas em jogo”. “Não acho que o RS seja uma maravilha em relação ao resto do país”, diz Céli Pinto. Lembra que no Ceará – um estado do nordeste, com influência do PSDB – Lula ficou em primeiro lugar e Ciro Gomes em terceiro.

Poucos votos na disputa

O RS está dividido ao meio. Os dois candidatos no 2º turno estão empatados com perto de 46% dos votos. Para Céli o que está em disputa são os votos brancos, nulos e abstenções, porque os 6% do PDT deverão ir para o PT. “Os pedetistas que optaram por Britto já o fizeram no primeiro turno. Os 10% de votos em branco devem diminuir para 5%. A abstenção de 15% não é real. O TRE só tira alguém da lista após o não comparecimento em três eleições. Neste percentual há pessoas mortas e muitas são idosas. Juntando os muito velhos e os falecidos se chega a uns 7%. Então, temos 8% dos votos em disputa”, descreve a professora.
Flávio Silveira acredita que o 2º turno será empolgante. “A estratégia de marketing do candidato Britto de que esta ganhando não funciona mais. Ele vai ter de disputar votos e criar fatos políticos. Olívio vai buscar manter o crescimento e a aliança do PT com o PDT está consolidada. A situação fica adversa para o Britto e Olívio sai de uma situação mais confortável”, acrescenta.

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