Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 026 | Ano 3 | Out 1998
BARBOSA LESSA

Mas pode?

Barbosa Lessa

Meu mundo de criança era nitidamente dividido em duas classes sociais: a dos “adiantados e a dos “atrasados”. Cinco anos mais velho do que eu, e muito afeito aos estudos, meu irmão Paulo já estava no ginásio quando comecei o curso primário, subiu para o Pré-Técnico quando entrei no ginásio, bem que poderia me olhar arrogantemente por cima do ombro mas, pelo contrário, tomava a iniciativa de vir me ajudar sempre que eu me deparava com uma novidade mais complicada. E assim me habituei a lhe pedir conselhos, que depois eu cumpria religiosamente.

Aos onze anos de idade escrevi meu primeiro livro – que eu próprio datilografei em suas sessenta pequenas páginas – e agora eu aguardava ansiosamente a chegada de meu irmão, nas férias-grandes, para que ele lesse e me desse a sua importante opinião. Era a história do cow-boy Dick Pender galopando no cavalo ciclone e chegando à cidade de Austin. Ali ele defende a mocinha Betty Keller contra o bandido Silver Morgan e aponta seu revólver contra o relapso sheriff: “Hands up!”

– Muito bem escrita a tua história, Luiz Carlos. Frases claras ao entendimento, diálogos gostosos de ler. Parabéns!

Com tal incentivo, fui em frente. Agora aparecia o sheriff Joe Brawes oferecendo a recompensa de cem dólares (mais que cem mil-réis! um dinheirão) a quem prendesse a terrível quadrilha do bandido Mograne. Quem realiza a façanha é o mocinho Tom Derbey, travestido em “O Morcego” com sua capa preta e sua máscara negra. Pedi que meu primo Mário Mattos fizesse as ilustrações, aqui e ali. E, nas férias de julho, alcancei a meu irmão a nova obra. Ele gostou, por segunda vez, mas me tonteou com um conselho realmente esquisito:

– Deixa de copiar aventuras do Oeste norte-americano e te inspira em Piratini mesmo. Quero que tua próxima aventura se passe aqui.

– Mas pode?! – Até então, eu só conhecera personagens como Bronco Piller e Brock Bradford e achava que uma espécie de lei do governo, ou coisa parecida, proibia temas sobre o Brasil e o Rio Grande do Sul. – Mas pode mesmo?!

Não havia nada que proibisse. E até ele me deu, como base de pesquisa, uns amarelados “Almanaques” de Alfredo Ferreira Rodrigues jogados no porão da casa de nossa avó Maria. Foi dificílimo trilhar esse novo caminho. Levei um tempão até poder enfeixar, em parceria com meu primo Osvaldo, os primeiros “Contos Piratinienses”. Por vezes, quase desanimei, mas parecia estar ouvindo ao longe a voz de meu irmão: “Não afrouxa, tchêzinho!”

Hoje, acredito que teria sido muito mais fácil continuar folheando os quadrinhos de “O Globo” Juvenil. Talvez eu tivesse me tornado um rico tradutor de best-sellers. Mas, por outro lado, acho que jamais teria feito os amigos que fiz, como modesto escritor provinciano.

* Luiz Carlos Barbosa Lessa é historiador, folclorista e escritor.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS