Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 028 | Ano 3| Dez 1998
ESPECIAL
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Estranho fascínio?

Stella Máris Valenzuela

Atingir o topo das montanhas mais altas do mundo requer técnica, planejamento, disciplina e determinação. Esportes, como este, considerados radicais, ganham novos adeptos. Está crescendo o número de profissionais liberais, jovens aventureiros e executivos, que abdicam do conforto de seus lares e partem em busca dos lugares mais inóspitos da terra. Uns fazem trekking em montanhas, outros praticam escaladas em rochas, descem canyons, voam de asa delta, deslizam em correntezas, saltam de pára-quedas, andam em balões. Enfim, eles encontram nestes esportes um meio para aliviar as tensões causadas pela vida contemporânea. A agilidade dos mais jovens é a grande aliada das escaladas em rochas. E a experiência acompanha os balzaquianos às montanhas mais altas do planeta.

O Rio Grande do Sul congrega 500 alpinistas. Muitos já obtiveram conquistas importantes, tanto nos 13 principais pontos de escalada do estado, como em outros continentes. A geografia do Sul ostenta rara beleza. De Terra de Areia a Urubici (SC) há 30 diferentes formações de canyons. No Parque Nacional de Aparados da Serra estão dois deles – o Itaimbezinho e o Arroio Faxinalzinho. São 5.800 metros de extensão e uma profundidade de até 720 metros. Inúmeros aventureiros despreparados e inexperientes deixaram suas vidas nesta monumental obra da natureza. Trata-se de um esporte de risco. E a descida no Itaimbezinho continua proibida, mesmo depois da abertura do parque.

Mas afinal, o que leva as pessoas a procurar locais tão perigosos? O que move cada um é muito pessoal, diz a psicóloga Duse Teitelroit. No entanto, há pontos em comum, como o amor à natureza, o gosto de contemplar a amplitude, as sensações de vitória e conquista.

“Embora nas alturas, são pessoas com os pés no chão. Ao mesmo tempo em que aspiram a liberdade, exercitam uma férrea disciplina. Têm consciência de cada passo. Não partem desprevenidas”, explica a psicóloga. E mais, são muito maduras e inteligentes, pois necessitam de respostas prontas para situações não previstas e que nem poderiam ser calculadas. Para obter sucesso, precisam estar bem afetivamente e em paz consigo, pois não serão poucos os momentos de profunda solidão. “Fazem isto por prazer e não por fuga”.

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A jornada é cansativa, mas não estressante. “Deve brotar um sentimento de paz”. O medo do perigo tem de estar presente para equilibrar o limite entre o desconhecido e a autoconfiança. Neste tipo de esporte, eles se sentem mais centrados no mundo, conscientes de si próprios e são movidos por um consistente espírito de solidariedade.

Em algumas montanhas há os livros de cume, guardados em caixas de metal. Nestes, os alpinistas escrevem poesias, estórias em quadrinhos, pensamentos. “Agradeço a Deus por ter nos guiado com segurança até a ponta de seu dedo”, anotou Gustavo Marioto, ao concluir a escalada ao Dedo de Deus (RJ), no último inverno. Cuidados e precauções não excluem o risco de acidentes, como o do último fevereiro, quando o Aconcágua tragou o experiente Mozart Catão. Mas o fascínio do homem pela montanha faz com que ele desafie rotas ainda não exploradas.

TREKKING NA ÁFRICA – O primeiro gaúcho a pisar no cume do Kilimanjaro (5.895 metros de altura) foi o jornalista e editor Airton Ortiz, 43 anos. A investida, na mais alta montanha isolada do planeta, aconteceu em 1997. E exigiu um ano de preparo físico e a leitura de três dezenas de livros. O monte Kilimanjaro, na África, faz fronteira com o Quênia. Em seus 80 quilômetros, abriga três vulcões inativos há 100 mil anos. “A convivência com o perigo de morte me fez valorizar ainda mais a vida”, conta. Esta experiência mudou radicalmente seu olhar sobre o mundo.

Antes de ascender ao Kilimanjaro, Ortiz era um executivo que desfrutava do conforto propiciado pela modernidade. Viajava de primeira classe, hospedava-se em hotéis cinco estrelas e freqüentava requintados restaurantes. Como proprietário das Editoras Tchê e Ortiz, teve a oportunidade de conhecer 50 países. Conquistou o ápice de sua carreira como editor aos 40 anos. Oportunidade em que proferiu palestra sobre o futuro do livro, na Universidade de Guadalajara, no México. Na platéia mil editores de 55 nacionalidades. “Cheguei o mais longe possível. A partir daí seria repetitivo. Precisava de outro desafio. Então, retomei o sonho da minha adolescência – viajar pelo mundo, colhendo informações para escrever meus próprios livros”.

Sua primeira aventura foi contada nas 264 páginas da obra “Tekking no Kilimanjaro – uma aventura no topo da África”, editado pela Record e que será lançado em abril. Em setembro ele desbravou a cordilheira do Himalaia, no continente asiático. No Tibet, percorreu de Land Rover mil quilômetros entre Lhasa e Katmandu, onde se avista a mais impressionante vista da cordilheira do Himalaia. Nos dois meses de viagem, Ortiz experimentou três trilhas. De Jiri ao campo básico do Everest gastou 15 dias, num percurso de 150 quilômetros. E, mais uma vez, foi gaúcho pioneiro nesta meta. Caminhou pelo Kala-Patar (5.600 m) e o Chukun-Peak (5.836 m). Em janeiro, Ortiz começa a escrever sobre esta aventura. O que mais o atrai hoje é a possibilidade de ampliar os limites. “Escalar uma montanha é um ato de humildade. É preciso reconhecer as próprias restrições, para superá-las”.

A contemporaneidade, na sua opinião, afastou a convivência do homem com a natureza, o alienando do contato com sua própria origem. “Vivenciar 20 graus negativos na montanha, com frio, chuva e neve te leva a dar outro valor a um vaso sanitário, uma água encanada, um chuveiro quente e uma luz elétrica”, observa.

Os obstáculos são ultrapassados um a um. “Se vai paulatinamente vencendo estágios, que no dia anterior eram barreiras intransponíveis. Isto faz com que a gente desconfie que exista dentro de nós uma força muito maior do que imaginamos. Faz com que aceitemos a existência de uma força superior que nos energiza. Num primeiro momento supomos que esta força possa vir da natureza. Mas ela não é física, nem química e tampouco biológica. Então, concluo – só possa vir do espírito”.

Ortiz contemplou o amanhecer – no ponto mais alto do monte Kilimanjaro – no dia 17 de setembro. O ataque final foi de madrugada. “Tive muito medo. Mas pensava que este sentimento era circunstancial. Era uma fase necessária para chegar onde havia planejado. A paz foi intensa. Estava totalmente em minha companhia. Quando os primeiros raios de sol despontaram no horizonte – chorei muito. Foi uma grande comunhão comigo mesmo”.

Ele desceu da montanha com a certeza de que a harmonia interior é muito mais valiosa do que o limite do seu cartão de crédito. De volta ao Brasil, concentrou-se um ano na narrativa de suas peripécias. Os planos de Ortiz são bastante audaciosos. Pretende escalar o Aconcágua e praticar trekking na Patagônia, no Pólo Norte, no deserto de Saara e o Caminho de Santiago de Compostela.

De bicicleta até o topo da América Latina

Unir dois oceanos e uma montanha. A idéia foi de Rudah Azevedo, 32 anos, e Alexandre Dias, 22 anos. O desafio estava posto. E a bicicleta foi o meio de transporte escolhido. Os amigos pedalaram 3.600 quilômetros de Torres a Valparaíso, no Chile, em 1994. O propósito era subir a maior montanha da América, com as bicicletas nas costas. O imponente Aconcágua, com seus 6.959 metros acima do nível do mar foi vencido passo a passo pela dupla.

A empreitada exigiu ano e meio de preparo físico. Foram incansáveis pedaladas de 15 quilômetro/hora a Nova Petrópolis e Gramado. Percurso percorrido em ¼ de dia. “O astral de viajar de bicicleta é diferente. A gente fica abstraído; contempla mais a paisagem”, revela Rudah.

A viagem consumiu 3 meses. Eles partiram dia 27 de dezembro de 1993. Em 20 dias aportaram na fronteira do Chile com a Argentina. Durante um mês ficaram acampados em Puente del Inca, ao pé da montanha. Foi uma parada estratégica. Era preciso se aclimatar à altitude e recuperar o desgaste de energias. Cada um perdeu 10 quilos. Eles estavam a 2.720 metros de altura. Os dias eram preenchidos com passeios pelas montanhas das redondezas. Um dia subiam o Bandeirito (4.000 metros), outro o Cerro Cristo Redentor (4200 metros) e assim por diante.

A entrada no Parque Provincial Aconcágua foi em 17 de fevereiro. Feito o registro, Rudah e Alexandre estavam mais próximos de concretizar a etapa principal do grande sonho. Nas costas, a mochila com 45 quilos. Levavam saco de dormir em alta montanha, barraca, roupas resistentes a 20 graus negativos, fogareiro, mantimentos, bastões, óculos, botas com grampos para gelo, lanterna de cabeça, protetor solar e máquina fotográfica. No coração a expectativa. Afinal, como seria o desempenho físico até chegar ao cume almejado? O lado racional estava consciente de que a prática do montanhismo expõe riscos. O uso de equipamentos de segurança e mesmo o acompanhamento de guias especializados, não eliminam as possibilidades de acidentes.

Dos 2.720 metros até os 6.959 metros, os alpinistas percorreram o lado noroeste, considerado o mais “fácil”. Não é preciso escalar rochas. Eles chegam ao cume caminhando. No trajeto – cascalho, neve, frio, glaciar e muito cansaço. Os avanços exigem determinação e decisões corretas. Um erro pode ser fatal. “Escalar em alta montanha é um exercício de paciência. Às vezes é preciso ficar dias acampado esperando passar uma tempestade de neve”, ensina Rudah.

A aclimatação depende do organismo de cada um. A elevação é paulatina. Se preciso for, os montanhistas recuam até equilibrar as condições físicas. Quatro acampamentos antecedem o topo. Até Confluência (3.360m), a caminhada dura 2 horas. Plaza de Mulas (4.200m) é o local de melhor estrutura logística. O hotel mais alto do mundo fica encravado nesta localidade. Há, também, equipe de médicos e refúgios. Muitos montanhistas contratam os serviços de mulas para carregar suas bagagens até este ponto. Daí para cima não há possibilidade de resgate pelos guarda-parques. Quem necessitar deste auxílio tem que se dispor a desembolsar grandes fortunas para equipes particulares. Na seqüência, a quatro horas vem Nido de Condores (5.350m) e por último, a duas horas Berlim (6.000m). A partir daí é feito o ataque final. Este termo foi herdado dos militares. E consiste em subir até o cume e voltar no mesmo dia. Dependendo das condições do tempo e do terreno – neve compacta ou fofa -, eles dependem de oito horas a 12 horas. Passar a noite neste trajeto pode significar um congelamento.

Nem todos atingem o cume. Como a pressão atmosférica é menor, alguns montanhistas são submetidos a fortes dores de cabeça. Os riscos de edemas cerebral e pulmonar de altitudes são as grandes ameaças. Mas quem consegue a proeza conta que não consegue expressar em palavras a emoção que sente. O topo da América tem aproximadamente 20 metros quadrados. “É uma alegria ver culminado o esforço”.

Três outras faces também levam ao cume do Aconcágua. A oeste, pelo Glaciar dos Polacos, é toda em gelo. A sul é a mais difícil, foi onde morreu Mozart Catão, em fevereiro deste ano. E a leste é uma via de subida mista. Ora a caminhada é sob gelo, ora em cima de pedras. A via é bastante perigosa, por isso pouco repetida. Para se ter uma idéia, em 94 morreram oito pessoas nas diferentes rotas e, em 96 houve quatro acidentes e uma morte.

Rudah começou escalando em rochas em 1988. Mas aos 32 anos prefere as altas montanhas. A escalada é mais complexa. Exige paciência. “É preciso administrar o medo. Minha motivação é interior. Escalar uma montanha é mais prazeroso do que acordar todo o dia e ir trabalhar. Tem que ter desprendimento. Minha opção pela montanha é quase que filosófica. No dia-a-dia é impossível tomar decisões sem influências diretas ou indiretas do mundo exterior. Quando vou escalar tenho mais autonomia. Chego o mais perto possível da idéia de liberdade. Me sinto senhor dos meus passos. Fico mais próximo da felicidade”.

O fascínio de Rudah por montanhas é tão grande que pisou novamente no cume em 96. Na segunda vez teve a companhia da namorada Aline Becker, 26 anos, primeira gaúcha a chegar aos 6 mil metros. Lá nas alturas, o pensamento de Rudah é canalizado para segurança, comida e água. “O tempo que sobra fico tirando fotos e curtindo o local”. Em janeiro, ele tem planos de escalar o Glaciar dos Polacos e em fevereiro, volta como guia de uma expedição gaúcha.

Vertente das escaladas

Desde 1786, os homens buscam a paz das montanhas. Este esporte, que exige muita técnica, tem diversas modalidades.

– Alta montanha (escalada acima de 4.500 metros. Não visa a verticalidade. O grande desafio é o clima. Os ventos chegam a soprar 150 quilômetros por hora. Temperaturas até 45 graus negativos.
– Alpina (enfrenta paredes com gelo)
– Big Wall (subida em paredes rochosas. Seus praticantes dormem duas noites na parede)
– Livre tradicional – (Vias maiores de 50 metros, progridem se segurando nas rochas e usando cordas);
– Esportiva (Não visa o cume, mas sim ultrapassar lances difíceis);
– Boulder (escala em pequenas pedras, que não ultrapassam 5 metros)

Modalidades do montanhismo

A prática do esporte em montanhas se divide em várias vertentes, desde que a montanha sempre seja o ponto de partida.

– Canoagem (corredeiras)
– Rafting (descida em corredeiras)
– Mountain bike
– Canyoning (travessia de canyons)
– Rapel (descida de corda)
– Vôo livre (asa delta – pára-gleider)

Descer canyons exige técnica

Neyton Reis Filho, 35 anos, é bi-campeão brasileiro de balonismo e um dos maiores conhecedores de canyons do Rio Grande do Sul. Nos últimos oito anos fez 69 travessias de canyons com sucesso. O contato íntimo com a natureza surgiu na infância. Gostava de subir as pedreiras no sítio de seu pai, em Viamão. Mas foram os cinco anos de trabalho como enfermeiro na UTI neurológica do Hospital São José da Santa Casa e no Hospital Porto Alegre entre 85 e 90, que levaram Neyton a mudar de vida. “Sentia necessidade desopilar”.

Na companhia de um amigo, inaugurou a nova fase. Eles abriram a loja Entre-fendas. Vendiam materiais de montanha e ofereciam cursos de trekking em canyons. Na páscoa de 90 fez sua primeira travessia. Neyton e mais duas pessoas ficaram oito horas e meia dentro do Itaimbezinho. Desceram uns 200 metros pelo vértice e saíram em Praia Grande, em Santa Catarina. Percorreram algo como 5.800 metros. Lá em baixo ficavam abismados olhando as paredes de até 720 metros.

Um estudo meteorológico é indispensável. A precipitação pluvial é o terror desses esportistas. “As chuvas aumentam o risco de bloqueio de passagens, provocam avalanches e fortes correntezas”, explica. As dificuldades foram de toda ordem. Muita umidade, terreno escorregadio, excesso de limo, sem falar na fadiga. “A gente movimenta todos os músculos do corpo, inclusive o mais importante – o cérebro”.

O desgaste é grande. Para vencer a jornada, se alimentavam com pedacinhos de charque e chocolate. Vestiam roupas de brim e calçavam coturnos. A experiência lapidou o conhecimento. Hoje ele está profissionalizado e também auxilia a Brigada Militar nos resgates de vítimas.

Os cursos, por eles ministrados, duram dois meses. Têm duas aulas teóricas. Nestas, os alunos conhecem os equipamentos, recebem informações sobre primeiros socorros e fatores itinerantes. E aprendem a técnica de nós em cordas. Tem nó para tudo. Para rebocar pessoas, para descida por corda, para ancoragem e outros tantos. O complemento vem com as aulas práticas. Estas consistem na travessia do Churriado, Malacara e Fortaleza, no Parque Nacional da Serra Geral.

De Terra de Areia até Urubici/SC há 30 diferentes formações de canyons na borda da serra. Em novembro de 90, Neyton conquistou o Josafaz, o maior de Aparados da Serra, com 15 quilômetros de extensão. E em abril de 97 foi recordista em transposição de parede, superando 850 metros de via.

Esta prática esportiva requer capacete, luvas de proteção, polainas, cinto de segurança de escalada, mochila, mosquetões (anéis de rosca, que servem para segurança), freio para descidas, corda, lanterna de cabeça, cadeirinha e rede de selva.

Numa das idas ao Itaimbezinho, Neyton avistou um balão. Primeiro lhe ocorreu que seria uma miragem, mas acabou encontrando o acampamento dos balonistas. A partir de então fez amizade com a equipe paulista e passou a ser também navegador. Em agosto participou do 11º Campeonato Brasileiro de Balonismo, em São Lourenço, Minas Gerais.

Montanhas e balonismo proporcionam a Neyton contato intenso com a natureza – sua primeira paixão. “A montanha pode levar à morte. Trata-se de um risco, que deve ser assumido pelo praticante. Este, tem de avaliar as condições de seu equipamento. “Os acidentes, em grande parte são causados por falhas humanas, ou negligências na revisão do material”.

Trilha na Cordilheira do Himalaia

Caminhar pelas montanhas é a paixão de Elda Franco, 39 anos. Nas férias, esta fiscal de Tributos, da Secretaria Estadual da Fazenda troca o salto alto por botas de trekking. Em 96, a trilha escolhida foi de Lukla a Gokyo, na cordilheira do Himalaia, no Nepal. Este país asiático, situado entre a Índia e a China, congrega as maiores montanhas do planeta. Lá está o Everest (8.848 metros de altura), considerado o topo do mundo.

 

De Porto Alegre, ela foi a São Paulo, Londres, Nova Délhi, Katmandu e Lukla (2mil metros de altura) – início da caminhada. Em 12 dias, Elda percorreu diversos vilarejos. A meta foi chegar aos 5.800 metros. Andava das 8h às 16h30min e chegou a enfrentar 17 graus negativos. “O contato com a natureza me revigora. Gosto de conhecer civilizações, que ainda não sofreram a interferência da mídia”.

Em 94, repetiu os passos que os incas seguiam para chegar a cidade sagrada de Machu Picchu, no Peru. Foram quatro dias subindo e descendo montanhas. Nesta trilha, o caminhante usa um trem de Cuzco até o km 88. A partir deste ponto começa a subida, que tem seu ápice nos 4.200 metros. Tomada pelo gosto da aventura, Elda também praticou rafting, nas corredeiras de Três Coroas.

Neste ano, Elda realizou mais um sonho – Santiago de Compostela. Foram 24 dias caminhando. Partiu de Puente de la Reina. Mas vencer 739 quilômetros não foi fácil. No quinto dia, os pés já se enchiam de bolhas. Ela teve de deixar as botas de lado, fazer ataduras e seguir de sandália. Foi um sofrimento. Mas o contato íntimo consigo mesma a fez superar a dor. O clima também ajudou, oscilava entre 10 e 20 graus, bem agradável para esta empreitada. E apenas um dia de chuva. Nas costas uma mochila de 9 quilos e no coração o sentimento de purificação. Elda encontrou pessoas legais pelo trajeto, entre elas três gaúchos, três paulistas, um carioca, um mineiro e duas pessoas de Brasília. “A receptividade dos espanhóis aos peregrinos é grande”, comenta. Está em seus planos voltar ao Nepal e subir o Kilimanjaro, na África.

Quando a parede é uma rocha

Escalar em rocha é o esporte de Orlei Jr., 25 anos. De 93 a 97 conquistou nove novas rotas alternativas no estado. A vida dele é totalmente dedicada a esta prática. Faz Educação Física no IPA e trabalha como instrutor e guia de escalada em rocha. Nos finais de semana pratica com os alunos. Nas férias de julho sobe rochas do centro do país e no recesso de janeiro escolhe montanhas no exterior. “Quando comecei, em 91 não havia tantos equipamentos. Hoje, com 500 dólares se compra capacete, cadeirinha, mosquetões, corda, fita e sapatilha”.

Em julho deste ano, Orlei venceu a maior parede de escalada livre do Brasil. O Pico Maior de Salinas, com 2.150 metros, em Friburgo/RJ. A jornada durou 16 horas. “Este foi a maior via de escalada que fiz na minha vida. Foi a mais difícil em termos psicológicos, físicos e técnicos”. Ele também percorreu os 1.692 metros do Dedo de Deus, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no RJ. O cerro Catedral, em Bariloche e o Tronador, fronteira da Argentina com o Chile, estão nos planos do próximo verão.

Mesmo sendo um apaixonado pelo que faz, Orlei sente medo. “Encaro o medo como se fosse uma bola, quando chega perto chuto para mais longe, e assim por diante”.

A campeã gaúcha de escalada esportiva em 95, Paula Amaral, 23 anos, que pratica este esporte desde 89, pretende ser a primeira gaúcha a atingir o topo do Aconcágua, na Argentina. Ela conhece todos os pontos de escalada do estado. E já se aventurou por Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Argentina.

O esporte renova a alma de Paula. É o espaço onde ela supera suas fronteiras. Para pisar no cume da maior montanha da América Latina, Paula caminha 2 horas por dia, pratica natação, escalada esportiva, além de suas atividades na faculdade.

O estudante de medicina Eduardo Ren Fontoura, 25 anos é adepto de escalas em Rocha e trekking em alta montanha (acima de 4.500m). Suas maiores façanhas foram chegar ao cume do Aconcágua e escalar o Dedo de Deus e o Pico Maior de Salinas. “Escalar em alta montanha é um jogo de paciência. Muitas vezes são dois passos para frente e um para atras”.

História do montanhismo

O Mont Blanc (4.870 m), em Chamonix, na França, foi berço das primeiras técnicas de escaladas. Em 1760, o estudante Horace Bénédicte de Saussure – apaixonado por montanhas e plantas alpinas -, estudando as feições da montanha, descobriu que seu cume poderia ser conquistado. Durante muitos anos, ele percorreu as aldeias da redondeza oferecendo recompensa para quem conseguisse tal feito. Mas não encontrou quem ousasse o desafio. No verão de 1786, o médico Paccarde e o caçador de camurça e cristais Jacques Balmat venceram os obstáculos e alcançaram o topo. O caminho foi aberto. E outros tantos foram seduzidos pela idéia de contemplar o amanhecer ou um pôr-do-sol do alto de um monte.

A medida em que novos adeptos se multiplicavam, cresciam as dificuldades técnicas de percorrer altitudes cada vez maiores. Valentes alpinistas perderam a vida em busca do sonho de chegar aos 8.000 metros. Mas foi em 1953 que o homem chegou ao topo do mundo. O mérito foi do alpinista Edmund Hillary e do sherpa Tensing Norgay que pisaram pela primeira vez o cume do monte Everest (8.848m).

No Brasil, a primeira manifestação montanhista, de cunho esportivo foi em 1817 com a escalada da face leste do Pão de Açúcar pela inglesa Henriqueta de Carsteirs em companhia de seu filho. O clima e as vistosas montanhas cariocas despertaram o interesse de inúmeros estrangeiros. Expedições tentavam repetidamente escalar os 1.692 metros do Dedo de Deus, considerada uma das montanhas mais difíceis da terra. O triunfo foi vencido em 1912, por um grupo de amigos da cidade de Teresópolis. Passados 7 anos, foi fundado o Centro Excursionista Brasileiro, que serviu para difundir o esporte no Brasil. O Rio de Janeiro se mantém, ainda hoje, como principal centro de escaladas do país.

O montanhismo gaúcho despontou nos anos 50. O impulso partiu do Centro Excursionista Farroupilha, transformado em Clube Gaúcho de Montanhismo, hoje desativado. Edgar Kittelmann, Luiz Gonzaga Cony e seus amigos decidiram escalar o Pico dos Corvos, no conjunto de morros do Itacolomi. Apesar da força de vontade, lhes faltava técnica. Encontram suporte com o alpinista italiano e refugiado de guerra, Giuseppe Gâmbaro. O grupo conquistou o cume pela via sul. Desta forma foi concluída a primeira escalada técnica do Rio Grande do Sul.

 

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