Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 029 | Ano 04 |Mar 1999
L. F. VERÍSSIMO

Sobre o Leite Derramado

It’s no use crying over spilled milk but… Está bem, está bem. Me convenceram que minha idéia de escrever em inglês, já que só faltaria mesmo entregar a língua, é um pouco prematura. De uns dias para cá surgiram focos de resistência à dominação total do Brasil pelo FMI em lugares surpreendentes – o ACM, por exemplo – e fala-se até na possibilidade de o Brasil devolver as FMI o dinheiro que já veio, pedir todas as suas cartas de volta e mudar a fechadura. Até a situação se definir, portanto, vamos continuar usando o português, pobre, mas orgulhoso.

 

Mas diz a frase em inglês que não adianta chorar o leite derramado. Que o que está feito está feito e nada vai desfazer. No nosso triste caso isso significaria que não se deve ficar lamentando a situação e culpando quem nos colocou nela e sim ajudar o Éfe Agá a encontrar uma saída. Nã-nã-nã. Em primeiro lugar, é muito importante saber quem derramou o leite, por que, em cima de quem e em que circunstância, para que não se repita. Assim, da próxima vez que nos aparecer um Fernando pela frente, em vez de nos fixarmos no penteado e nas promessas, faremos a pergunta: você confiaria uma bandeja com um copo de leite, mesmo metafórico, a esse homem?

Em segundo lugar a situação está como está justamente porque temos o hábito de não punir o leite derramado, de perdoar o mal feito, de deixar tudo para lá. Está aí essa oligarquia que já passou por desastres que envergonhariam qualquer garçon de boteco, e já derramou líquidos bem mais graves do que o leite, com o mesmo poder de sempre, e propondo alternativas para a última enrascada em que nos meteu com a mesma empáfia de sempre. Boa sorte Éfe Agá e sua intrépida troupe na solução da crise. Mas que se repita sempre: foram ele que derramaram o leite, e sabiam o que estavam fazendo.

Temos um certo carinho pelas nossas peculiaridades. Mesmo quando sacudimos a cabeça e dizemos “Só no Brasil…” é com uma ponta de orgulho. Há algo de envaidecedor em saber que, no mundo todo, só brasileiro entende brasileiro. Li que, no fim de uma entrevista que não foi ao ar com a Xuxa, a Tiazinha deixou uma mascarazinha e um chicotinho de presente para a Sacha. Um não-brasileiro, ouvindo isso, teria todo o direito de temer pelo nosso destino como nação cristã. Estaríamos obviamente num dos últimos círculos da perdição, à beira do abismo moral. Mesmo que a Sacha não usasse a máscara e o chicote nem no carnaval, a idéia de pequenas “dominatrizes” soltas pelo país só para seguir a moda, disciplinando bonecas, animais e irmãos apavorados, escandalizaria qualquer desacostumado ao Brasil. Você e eu sabemos que não é nada disso. Estamos, isto sim, no vácuo peculiarmente brasileiro em que sempre estivemos, o grande espaço que aqui separa o símbolo do seu significado. Só no Brasil os mitos sexuais transformam-se automaticamente em ídolos infantis e não precisam deixar de ser uma coisa para ser outra. Nenhum estrangeiro entenderia que isso nos inocenta cada vez mais, pois não há inocência maior do que simplesmente não se dar conta.

No fim é tudo comércio. A moda passa e, justamente porque passa e porque é comércio, não deixa nenhuma mensagem moral. Não nos preocupemos com a Sacha, portanto. O Brasil conseguiu esta outra façanha inédita no mundo: inventou o sadomasoquismo sem maldade.

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