Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 031 | Ano 4 | Maio 1999
ENTREVISTA | RICARDO BALESTRERI
ENTREVISTA

É o momento de apostar na paz

STELLA MÁRIS VALENZUELA

Há quatro anos presidindo a Anistia Internacional do Brasil, o historiador gaúcho Ricardo Balestreri é um pacifista convicto. Militante de paz desde a´década de 70, o coordenador do Departamento de Política Educacional do Colégio farroupilha, em Porto Alegre, lutou pela libertação do casal de uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Dias no famoso seqüestro que agitou a capital entre 1979 e 1982. Presente em 140 países e territórios a Anistia Internacional exerce pressão junto a governos e luta pelos presos políticos de todos os cantos do planeta. Nesta entrevista, o presidente da organização defende a paz na guerra dos Balcãs, ataca tanto a Otan (Organização do Tratado Atlântico Norte) quanto o ditador iuguslavo Slobodan Milosevic e apela: parem com a hipocrisia

Extra Classe – Como a Anistia Internacional está observando a Guerra dos Bálcãs? O que ocorre lá, apenas alguns meses após o cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos Humanos ?

Ricardo Balestreri – A Anistia Internacional analisa este fenômeno como conseqüência da hipocrisia das nações. Elas descumprem os pactos e tratados firmados em defesa dos direitos humanos. O que ocorre hoje deveria ter acontecido há 60 anos, quando não havia regras. Por desvios do curso da história, este fenômeno eclodiu hoje. O processo, inclusive o revolucionário vivido na região, não facultou a mudança de consciência. Velhas questões de etnia, de poder e até de religião não estão resolvidas.

EC – Há violação dos direitos humanos?

RB – O quadro é de perseguição institucionalizada a lideranças, ativistas dos direitos humanos, líderes religiosos e jornalistas. A matança é tanto genérica como seletiva. Observamos a quebra do movimento de resistência popular. Além disso, não há observadores internacionais, os da comunidade européia que lá estavam se retiraram por razões de segurança, e as nações vizinhas não conseguem acompanhar o quadro interno. Mas é difícil fazer um levantamento completo da realidade porque temos informação apenas a partir de relatos dos kosovares egressos.

EC – Como a Anistia Internacional vê o ingresso da Otan no conflito?

RB – Em fenômenos de guerra, a Anistia procura não emitir juízo. Está preocupada com as violações cometidas, tanto pela Otan quanto pelo governo iugoslavo. Contudo, acreditamos que as violações praticadas pela aliança militar do ocidente são menos expressivas diante das desencadeadas pelo processo de limpeza étnica de Milosevic. Temos mais de 400 mil vítimas neste processo. Milosevic, apesar de uma trajetória teoricamente comunista, tem hoje uma postura neonazista. A comunidade internacional só não pode apontá-lo como um novo Hitler porque suas condições são diferentes, não dispõe do apoio popular de Hitler, embora tenha postura similar em relação às minorias.

EC – E quanto aos riscos da utilização de armas químicas na guerra?

RB – Há riscos, sem dúvida. Houve, inclusive, ameaça de utilização de armas nucleares. Mesmo não vivendo na época da Alemanha nazista, estamos num mundo mais perigoso do ponto de vista do arsenal, seja na área nuclear ou na de armas químicas.

EC – Há denúncias de que a Otan estaria utilizando bombas de fragmentação. Com cerca de 300 quilos, estas bombas abrem-se em duas em pleno ar e liberam um enxame mortífero de pequenos explosivos do tamanho de uma laranja, provocando altas taxas de mortalidade e semeando minas terrestres. Quais as informações da Anistia Internacional sobre isso?

RB – Há divergências. Os especialistas do governo iugoslavo argumentam que as bombas têm um poder radioativo além do admitido pelas Convenções Internacionais, mas os ocidentais argumentam que as bombas estão dentro dos patamares aceitos mundialmente. Não sabemos.

EC – A Otan assegura ter informações de que mulheres kosovares estão sendo violentadas e assassinadas por tropas sérvias. A Anistia tem conhecimento deste fato?

RB – A Anistia está nominando os casos. Está estabelecendo parâmetros para julgar os fatos. Isso não ocorre apenas em situações de estupro ou na retirada dos bens e nos saques. Trata-se de uma estratégia seletiva, através da perseguição às lideranças, de fuzilamentos de líderes de direitos humanos e de jornalistas antigovernistas. Pessoas sem liderança não têm nenhum tipo de resistência moral.

EC – O presidente russo Bóris Yeltsin ventilou a possibilidade da deflagração de uma terceira guerra mundial. Esta é uma possibilidade remota, na sua opinião?

RB – Formalmente, a Anistia Internacional ainda não se manifestou sobre isto. Mas posso dizer que seus membros acreditam não se tratar de uma possibilidade remota. O arsenal nuclear mundial está praticamente intacto. Alguns acordos de desativação foram efetivados, mas são insuficientes. O quadro na ex-União Soviética e países aliados, por sua vez, é muito caótico, com a fragmentação e o vazio de poder. Boa parte deste arsenal nuclear se encontra em poder da máfia russa. Não que esta vá intervir na guerra, mas esses fatos ilustram o absoluto descontrole do arsenal pelas forças militares. Acho que se alguém utilizar armas químicas, então temos deflagrada a possibilidade de um conflito mundial. Estamos vivendo o pior momento de crise militar desde a segunda guerra mundial.

EC – A comunidade européia declarou sua intenção de promover um acordo de paz, a ser gestionado pelo Grupo dos Sete (países mais industrializados, o G-7) em conjunto com a Rússia. O que a Anistia pensa a este respeito?

RB – Temos de apostar na paz. A estratégia da Otan continua a mesma e o presidente Slobodan Milosevic está disposto a ir às últimas conseqüências. Prefere o país esfacelado a ceder. Os caminhos atuais da guerra são insolúveis. O conflito pode se estender por meses. É o momento de apostar na paz. Não há vantagem em governar sobras de guerra. A aliança militar ocidental, a cada dia, se desmoraliza mais. Ambos – Otan e Milosevic – estão debilitados. É provável, por isso, que uma proposta de paz possa prosperar.

EC – Que lição a humanidade pode tirar desse conflito?

RB – Toda guerra é condenável e violadora dos direitos humanos e a humanidade precisa aprender a negociar as soluções de seus conflitos. A ONU (Organização das Nações Unidas) necessita crescer em força e pensar numa possibilidade de intervenção representativa do conjunto das nações. É fundamental o estabelecimento de um Tribunal Penal Internacional pleno de direitos para que os ditadores se sintam ameaçados em relação ao seu futuro. Não como este que se discute hoje, onde os países do Conselho de Segurança têm o poder de veto. A ONU já aceitou a existência deste tribunal, mas ainda vale o poder de veto. Como vamos julgar os crimes de direitos humanos ocorridos na China, por exemplo (a China é um dos sete países com assento no Conselho de Segurança da ONU, cujas decisões têm de ser unânimes)? Os EUA denunciam, mas não tomam nenhuma atitude devido às relações comerciais que mantêm.

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