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Nº 037 | Ano 4 | Nov 1999
EDITORIAL
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Os livros e as prisões

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Os livros e as prisões Os livros, se o leitor for observar bem, estão espalhados pelas 24 páginas desta edição do Extra Classe. Há livros para todos os gostos, desde o marco da literatura gaúcha O Continente até o tratado de física Fenômenos Ondulatórios. Não é por acaso. Os livros estão na praça, estão sob os jacarandás da Alfândega, nas barracas de um evento literário que completa 45 anos com a mesma simplicidade – um pouco maquiada, é verdade – das primeiras edições.

A Feira do Livro de Porto Alegre é daquelas coisas que encantam quem passeia pela praça desavisado, e se depara de repente com um mar de gentes penduradas em caixotes à procura daquele livro que em hipótese alguma estará disponível, ao alcance da mão, nas livrarias dos outros 347 dias do ano. Este é o mês de renovar os estoques, encontrar os amigos, trazer a público aquela tese que se passou um ano inteiro a ruminar, enfim, é o mês de começar a pensar em pensar e pensar e pensar. É um mês cerebral este da Feira do Livro.

E por ser cerebral o Extra Classe propõe, na sua matéria de capa, uma profunda reflexão sobre as urgências de alguns debates que invadem a nossa mídia. Desta vez, discutese a necessidade ou não de cadeia para punir crimes considerados menores. Muito bem. Muito justo. Mas não se olha, é o que nos parece, para a situação dos milhares de presos que mofam – o termo não poderia ser outro – nas penitenciárias do país sem uma chance sequer de recuperação fora das grades. Parece até que o debate ganhou força porque alguns bem situados na vida começaram a ser condenados pela Justica e mereciam um destino melhor que as celas imundas do sistema penitenciário tupiniquim.

Sim, porque pena alternativa é para os outros. Pelo menos é o que mostra, com todas as letras, o repórter César Fraga na sua reportagem. Os presos que amargam o cumprimento integral da condenação, que não obtêm progressão, que nem sabem o que é uma pena alternativa são os mesmos: os pobres. Os que podem pagar por um bom advogado – que vire a lei do avesso para lhes beneficiar – também são os mesmos e também têm um destino bem conhecido: quando passam algum tempo atrás das grades, passam em celas especiais, afastados do convívio das más influências e protegidos por um sistema movido a prestígio e dinheiro.

Na mesma edição entrevistamos o secretário José Paulo Bisol (Justiça e Segurança). Ele fala sobre a convivência entre as duas Justiças: uma para os pobres, outra para os ricos. Bisol, que foi juiz durante 30 anos, é obrigado a reconhecer: é preciso ser muito isento para colocar uma pessoa influente atrás das grades.

Voltando aos livros, ou melhor, a seus autores. Dois artigos -um do poeta dois Santos dos Santos, outro da jornalista e professora Susana Vernieri – homenageiam um dos maiores poetas em língua portuguesa, morto em outubro passado. O pernambucano João Cabral de Melo Neto era daqueles homens de inevitável firmeza de convicções, a despeito de seus versos nunca transitarem pelo caminho fácil de um lirismo confundido com sentimento. Não há concessões na poesia de João Cabral, onde os versos seguiam um rigor quase matemático e a busca da perfeição chegava às raias da obsessão. E, curioso, João era um poeta que não gostava de música. Difícil imaginar um verso sem cadência, sem ritmo, sem a musicalidade da rima e da frase. Mas assim era: sem concessões, como já se disse. São dele, por exemplo, as frases de O Cão Sem Plumas: “o que vive não entorpece/o que vive fere”.

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