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Nº 042 | Ano 5|Jun 2000
EDITORIAL
EDITORIAL

Uma situação delicada

O Editor

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Santiago

Santiago

É possível dizer, sem exagero, que o sistema de segurança pública do Rio Grande do Sul vive um momento extremamente delicado. E isso por duas razões básicas: a primeira delas é de ordem administrativa. Passados quase 18 meses da posse do atual secretário, as principais demandas da sociedade não foram resolvidas nem, por outro lado, encaminhadas como gostaria a população. É louvável a intenção de desmilitarizar a Polícia Militar, de dotar o sistema de uma única administração, de procurar – por todos os meios disponíveis – varrer dos quadros a corrupção que contamina as ações de defesa do cidadão. Mas isso não apaga as estatísticas de violência no estado, que continuam a crescer. Certo também que a violência tem origem social, que a falta de emprego e de condições dignas de vida empurra para a marginalidade cidadãos que poderiam estar produzindo. E que o impacto de decisões nessa área deve ser creditada prioritariamente ao governo central. Mas a população que anda nas ruas, que sai de casa de manhã para trabalhar quer ver policiais nas ruas, sejam eles vinculados à Brigada Militar ou à Polícia Civil. Essa mesma população quer policiais honestos, que respeitem a cidadania, que seja um servidor da comunidade. Não um agente de decisões políticas que não estejam diretamente ligadas ao exercício da profissão. E aí vem o segundo problema da segurança pública gaúcha. Denúncias vinculadas em grandes veículos de comunicação apontam membros do aparato de segurança como agentes políticos de uma história que ainda precisa ser contada. Movimentos sociais não devem ser alvo de atos repressivos violentos, mas igualmente não podem ser direcionados para a destruição de patrimônios públicos ou privados. Sejam eles de quem forem. A suspeita que recai sobre dois policiais militares e uma policial civil no referido episódio, das comemorações dos 500 do Brasil, precisa ser apurada. Sob pena de colocar sob suspeita o trabalho de uma equipe inteira, que deve estar a serviço da comunidade. E não de causas específicas, estejam elas identificadas com o governo ou não. No campo, o clima não é muito melhor. Cerca de 2 mil trabalhadores rurais se reuniram no último fim de semana de maio, em Ronda Alta, para reivindicar condições melhores de plantio e posse da terra. Notem bem: não foram trabalhadores sem-terra que se reuniram em Ronda Alta, mas trabalhadores donos de um pedaço de chão. Eles temem não conservar esse quinhão caso a política agrícola do país continue como está: concentradora, de exclusão, penalizadora dos pequenos agricultores. Longe de fazer uma pregação meramente socialista, os trabalhadores rurais querem juros mais baixos, querem financiamento, querem acesso à tecnologia, querem condições de trabalho para dar comida aos seus filhos e à população. Organizados no Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), eles já se alastram por sete estados, reúnem cerca de 200 mil filiados e prometem fazer ainda mais barulho para pressionar o governo a alterar, de forma radical, sua política agrícola. Inspirados no MST.

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