Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 046 | Ano 5 | Out 2000
L. F. VERÍSSIMO

A fala

Luis Fernando Verissimo

O homem de Neandertal tinha uma caixa craniana maior do que a nossa e, presumivelmente, um cérebro mais desenvolvido. Mas não tinha uma linguagem. Usava instrumentos de pedra, dominava o fogo, enterrava seus mortos e vivia em comunidades como as nossas, talvez um pouco menos selvagens. Mas só se comunicava com os outros com grunhidos e tapas no ouvido. Pela aparência, estava melhor preparado para dominar o planeta do que nós. Além do crânio, tinha ombros maiores, mais músculos e ossos mais fortes. Mas não falava, embora tivesse todo o equipamento necessário.

Hoje especula-se que era o cérebro que atrapalhava. A gestação na mulher de Neandertal durava mais tempo, o que significava que o cérebro já nascia pronto e, em vez de ter a infância prolongada e protegida que literalmente faz a nossa cabeça, o gruo de Neandertal recebia seu tacape na saída do útero e já ia caçar. Sabe-se que o embrião humano reproduz, no ventre, toda a evolução da espécie e tem um momento na gestação em que nosso cérebro fica tão completo quanto o do feto de Neandertal. Mas aí começa um processo de depuração, de eliminação de células e modificação de circuitos, que continua no período pós-natal, e é esta adaptação que nos permite falar.

Ou seja, a linguagem é o produto de uma carência programada do cérebro, o poder da fala é uma compensação pelos neurônios perdidos. O homem de Neandertal era evoluído demais, tinha o cérebro tão acabado que não precisava da linguagem, mas sem a linguagem foi um fracasso social. Não durou nem oitenta mil anos, e com aqueles ombros. Aceitando-se a tese evolucionista, nós descendemos dos débeis mentais, dos que nasceram com o cérebro incompleto, dos fraquinhos que ficaram em casa aprendendo besteira. Foi a linguagem que permitiu o modelo seguinte dos pré-homens se organizar, conceitualizar e transmitir informações, e mentir. Isto é, civilizar-se. Ou então – se você prefere a tese de que a Natureza sabe o que quer e o próprio Darwin estava sendo usado como despiste quando propôs que tudo era por acaso – o objetivo da evolução era dar uma voz ao mundo. Dar um nome às coisas e uma retórica aos elementos, que antes da linguagem rugiam de frustração com a incapacidade da fala. Tudo na Natureza – os vulcões, os vendavais, os terremotos e as bestas – seria uma dificuldade de expressão. Tentando e errando (o homem de Neandertal, alguns deputados de Rondônia), tudo o que a Natureza quer é que falem por ela, que sejam os poetas que ela, por mais que se esforço, não consegue ser. No fim é que será a Palavra. Nem que a palavra seja “Fim”.

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